08 de julho de 2026
Articulistas

Crise de sentidos

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

A crise na Europa continua. A defesa do ponto de vista dos neoliberais (grandes bancos, coorporações, empresas) vai perdendo o sentido. Seus discursos transformaram-se em uma espécie de ladainha rumo ao buraco, recheados de termos ambíguos, que soam muito melhor entre aspas. Quem poderia defender, sem cair no ridículo e no risível, o pensamento da "lisura" que os países que "puxam" a bancarrota econômica devem ter, "honrando" suas "dívidas"?

Os articulistas das grandes revistas e jornais - (a maioria dessas publicações pertence a uma coorporação administrada no modelo neoliberal) escrevem que a Irlanda, a Romênia, a Itália, Portugal, França, (e principalmente) Espanha e Grécia são os "vilões" do "bem estar" e da continuidade do "progresso" capitalista. Para que o "livre mercado" continue como motor econômico global, dizem eles, urge que esses estados, mesmo "falidos", paguem suas "dívidas". Sabemos, contudo, que os estados "endividados" não "dispõem de riquezas" para saldá-las. É "emergencial", portanto (ainda segundo o pensamento dos que pregam a "lei e a ordem"), que as "novas" lideranças políticas do países em crise se submetam a toda e qualquer cartilha de intenções que a chamada Troika - FMI, Comissão Europeia (UE) e Banco Central da Europa - "propuser" para "solucionar" a crise "econômica".

Na "visão" dos banqueiros, o público (ops!), o "povo" tem que "apertar os cintos" e viver com menos. Na Grécia, por exemplo, o "apertar os cintos" da Troika previa a demissão de mais 150 mil servidores públicos, corte de aposentadorias, corte de 22% no salário mínimo e outras "medidas de recuperação". Em troca, dariam o dinheiro para "salvar" o país. Para os mais conservadores, pode até parecer uma troca justa, mas não é. Pois boa parte dessa "injeção de capital" foi destinada à salvação dos bancos gregos. Ou seja, o "empréstimo" não é para o país.

Já o governo espanhol vai "aceitar" uma "injeção de capital" (esse termo é do "capeta") de "até" 100 bilhões de Euros. Porém, já avisou que usará 60 bilhões para "recapitalizar" seus bancos. Haja aspas para explicar essa maracutaia que os governos europeus promoveram em favor dos bancos nas últimas décadas, mas no mesmo artigo da Folha de São Paulo em que li essa informação, também li que o "pedido de resgate" da Espanha à Troika era "...a única forma de fazer com que o Banco Central Europeu compre títulos da dívida pública espanhola com recursos dos fundos de resgate". É difícil entender isso, não é? É difícil de propósito, para que haja mais chances de que os pobres e a classe média não saiba como se proteger disso. No final das contas, a verdade é que os grandes "investidores" enriqueceram demais, aplicaram o dinheiro de forma fraudulenta - ou no mínimo irresponsável -, quebraram e quem vai pagar por isso é o povo. O dinheiro para o "resgate" da Espanha vai sair de alguns bancos e entrar em outros bancos, para perpetuar a boa vida de uma minoria. A própria Folha de São Paulo mostra o que foi reservado aos espanhóis - ao "povão" mesmo -, na coluna "Diário Ibérico", de sua corrrespondente-colaboradora Luisa Belchior, em 27/08: "As ordens de despejo são uma das caras mais cruéis da crise aqui na Espanha. Como o país tinha um crescimento baseado no mercado imobiliário, muita gente comprou imóveis financiados por bancos pouco antes do estouro da crise, e agora pagam por isso.

A legislação espanhola torna o processo ainda mais sofrível: por aqui, além de devolver o imóvel, os compradores têm de seguir pagando a hipoteca até quitar totalmente o valor devido. A partir desta semana, este esquema vai ficar ainda mais cruel. O governo aprovou uma norma que permite acelerar o despejo de quem não paga hipoteca. Assim, os devedores podem ter de deixar suas casas apenas dez dias após a ordem de despejo sair. A ideia da proposta do governo, que o premiê Mariano Rajoy apresentou a seus ministros na sexta-feira, é estimular o mercado de aluguel, que está praticamente parado no país. (...)"

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião