11 de julho de 2026
Bairros

Proporção de carros em Bauru é maior que em São Paulo, segundo o IBGE

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Para a estudante universitária Renata Mondini Takahashi, 23 anos, não há preguiça ou desculpa. De bicicleta, ela se locomove por toda a cidade e consegue cumprir as tarefas do dia a dia, que incluem ir ao trabalho, à faculdade, ao banco, à casa dos amigos e até mesmo ao supermercado.

Mas Renata é uma exceção à regra. Segundo dados do Censo 2010, divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 66,1% das residências bauruenses possuem carro, numa proporção que supera até mesmo o percentual da Capital. Em São Paulo, o índice é de 53,4%.

É claro que, em números absolutos, os engarrafamentos quilométricos da metrópole são a prova material de que os transtornos em Bauru ainda são muito menores. No entanto, comparativamente, as famílias bauruenses estão mais motorizadas do que as paulistanas.

Atualmente, a cidade conta com 225,6 mil veículos. Das 109.830 residências registradas pelo Censo 2010, 72.616 contam com um ou mais carros na garagem. Nenhum deles é de Renata.

Hoje, no “Dia Mundial Sem Carro”, ela irá, mais uma vez, trabalhar e estudar de bicicleta. Paulistana, mas atualmente morando em Bauru, a jovem decidiu usar a bike como meio de transporte há dois anos, quando fez um intercâmbio em Sevilha, cidade espanhola que conta com ciclovias em quase todas as ruas. Hoje, protegida por capacete e luvas e com a bicicleta dotada de espelho retrovisor e refletores, Renata vai a todo lugar, faça chuva ou faça sol.

“Não tenho paciência para esperar ônibus e nenhuma vontade de ter carro. Pelo menos por enquanto, não é um plano que faça parte da minha vida”, comenta. O único inconveniente, ela revela, é disputar espaço com a enorme quantidade de veículos nas ruas.

“Tem sempre um que passa muito perto e assusta a gente. Também já cheguei a bater numa porta de um carro estacionado porque o motorista abriu sem olhar. Mas, por sorte, tive apenas alguns arranhões”, comenta.

 

Reflexo cultural

De fato, trafegar em Bauru está cada dia mais difícil. Com as facilidades de acesso ao crédito e aos incentivos fiscais proporcionados pelo governo federal como forma de estimular o consumo, a frota cresceu 87% nos últimos dez anos. Em julho passado, um dos melhores meses de vendas registrado na história da indústria automobilística, 35 unidades foram emplacadas por dia na cidade.

Mas, mais do que uma consequência da melhoria do poder econômico dos bauruenses, a corrida às concessionárias reflete um traço cultural dos moradores. Segundo o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, ter carro é sinal de status, principalmente em países emergentes como o Brasil.

“Não temos muitas possibilidades de diferenciação e o carro é um símbolo de autonomia e ascensão social. Cada vez menos, é sinônimo de rapidez e praticidade”, diz ele, que, por opção, não dirige há mais de 20 anos. “Foi a maneira que encontrei para poder observar as coisas à minha volta”, diz.

Bertolli e Renata fazem parte de um perfil cada vez mais escasso no Brasil. Em países europeus, por exemplo, o sistema de transporte público é bem mais desenvolvido e explorado pela população, conforme destaca o professor Archimedes Azevedo Raia Junior, doutor em Engenharia de Transportes pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do Núcleo de Estudos Sobre Trânsito da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“Lá, o nível de renda é maior do que o nosso e as pessoas andam mais a pé, de bicicleta ou de ônibus. Aqui, existe preconceito em relação a isso, que foi estimulado quando os financiamentos ficaram mais fáceis e os carros, mais baratos”, frisa.


‘Vou de bike quando preciso chegar rápido’

O título acima não está errado. O estudante universitário Enrico Giorge Grando, 23 anos, tem carro, mas, quando precisa chegar rápido a algum lugar, prefere ir de bicicleta. “Só vou de carro para o trabalho e para sair com os amigos à noite, para não chegar suado. Mas, para todas as outras coisas, vou de bike”, comenta.

O jovem mora perto do Bauru Shopping e conta que leva o dobro do tempo para ir de carro, por exemplo, até o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), onde participa de um curso duas vezes por semana. “Como o curso é à noite, pego horário de pico e demoro meia hora para chegar lá. Já de bicicleta, reduzo esse tempo pela metade”, garante.

O trajeto quase todo em declive favorece, mas Enrico também vai de bicicleta até a Unesp, onde estuda, além de pedalar com frequência por hobby. “Além de ser prazeroso, é uma forma de economizar tempo e dinheiro. Só não vou para o trabalho porque fica no Distrito Industrial 2 e é muito longe”, diz.


Números

Na pesquisa do Censo em 2010, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 72.616 domicílios bauruenses de um total de 109.830 unidades contavam com pelo menos um automóvel na garagem. Na Capital, de 3,6 milhões de casas, havia carros em 1,9 milhão delas.

Percentualmente, 66,1% das residências bauruenses possuem veículos, ante 53,4% na cidade de São Paulo. No Estado, a proporção é de 55,6% e, no Brasil, de 39,5%.

 

Alternativas

O transporte público ainda deficitário de Bauru e a parca infraestrutura viária disponível para os meios de transporte alternativos, segundo o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, também desestimulam as pessoas a procurar outras formas de se locomover. “Dependendo da região, os ônibus dispõem de poucas opções de itinerário e demoram a passar nos pontos”, observa.

Mas, para o professor Archimedes Azevedo Raia Junior, não bastaria melhorar a qualidade do sistema público de transporte, sem que fossem criados mecanismos para inibir o uso de veículos individuais. “A solução não é o automóvel, e isso é algo que já foi compreendido pelas capitais europeias. Mas vai levar algum tempo até este entendimento fazer parte do Brasil”, frisa.

De acordo com ele, apesar de a Política Nacional de Mobilidade Urbana Sustentável, assinada em abril, ter elencado as diretrizes para priorizar os meios de transporte alternativos, o governo federal, na prática, continua a favorecer a locomoção individual. “Os estímulos para a compra de veículos contradiz tudo o que está neste documento que tem força de lei”, pondera.