08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Rafael Gallo

Por Ricardo Santana | Com Adriana Pekler (Colaboração)
| Tempo de leitura: 9 min

Quem conta um conto...

Os holofotes do JC voltam-se nesta Entrevista da Semana para o escritor Rafael Gallo. Aos 30 anos, ele acaba de receber o Prêmio Sesc de Literatura 2011 na categoria “Conto” com o livro “Réveillon e outros dias”.

O Brasil passa por um momento excepcional no mercado editorial com gente que não conseguia espaço, tendo oportunidade de tirar da gaveta seus escritos e publicar ao lado de uma novíssima geração de escritores, sugerindo novas ideias.

Rafael é da nova turma. São jovens com formação para múltiplos campos do conhecimento e que também gostam de ler. Fazem da tecnologia uma ferramenta para se divulgar, disseminar ideias e sua produção. Se aproximam do leitor via redes sociais, blogs e ainda encontram tempo para atender à agenda de lançamentos de livros das editoras ou instituições que tiram do anonimato.

“Mandam bem” em coletivas de imprensa, em entrevistas para rádios, websites especializados e emissoras de TV. Esbanjam naturalidade ao lidar com o público nas tardes, manhãs e noites de autógrafos em qualquer parte do Brasil e no Exterior. Encontram tempo para se representar e representar editoras em eventos sobre literatura, momento em que também capitalizam divulgando seus nomes e trabalhos.

Rafael tem  desenvoltura em diversas  plataformas de comunicação. Se formou pela Unesp de São Paulo em música, composição e regência. O jovem escritor também produz trilha sonora para TV, cinema e publicidade. Ele ainda se divide com aulas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e na Faculdades Integradas de Bauru (FIB). Também lê muito, obras de autores diversos.

A família de Rafael Gallo mudou-se de São Paulo para Bauru quando ele era pequeno. Viveu toda sua adolescência na cidade. A faculdade cursou em São Paulo e, atualmente, se divide entre São Paulo, São Carlos e Bauru. Na sequência, o jovem escritor conta ao JC um pouco da sua inspiração e como caminha no ramo literário.

  

Jornal da Cidade - No século passado, os escritores e poetas brasileiros consagrados fizeram do ofício da escrita um “bico” paralelo ao trabalho que colocava comida na mesa. Você tem diversas ocupações, o que sugere que escritor é só mais uma dentre várias?

Rafael Gallo - Sim e não. Em certo sentido, a situação não mudou tanto.  Ainda hoje é raro o escritor que consegue viver apenas de seu trabalho literário. Não tenho, ao menos por enquanto, a possibilidade de me dedicar apenas à literatura. Por isso preciso trabalhar com outras coisas também. Mas a escrita é muito mais do que apenas uma dessas ocupações. Escrever representa grande parte da minha existência, algo que extrapola o mero sentido de “profissão” ou algo do gênero.


JC - Há uma noção de que se escreveu sobre tudo e de todas as formas e não há mais limites a transpor. Como avalia a possibilidade de renovar a literatura em um novo século?

Rafael - Realmente, não só na literatura, mas na arte em geral, há uma espécie de crise em nossa época. Essa, obviamente, não é uma ideia que eu criei, muitos críticos e especialistas já observaram isso. Mas ainda acho que há o que ser feito. Apesar de do ponto de vista formal, quase todas as possibilidades estarem esgotadas, ainda surgem novos escritores com propostas bastante interessantes. Mesmo que sejam variações do que já foi feito. Por exemplo, o trabalho do Maurício de Almeida, outro vencedor do Prêmio Sesc de Literatura, é maravilhoso.


JC - O que você propõe com suas histórias?

Rafael - No meu caso, não busco exatamente novidades nesse campo, mas acho que posso contribuir com uma visão melhor das relações humanas no meu texto.  Ainda acho que vivemos de forma muito precária, com uma compreensão de nosso comportamento muito aquém do que poderíamos ter em geral. Poderíamos viver muito melhor se nos compreendêssemos mais.


JC - Ao publicar o primeiro livro e com a chancela de um prêmio, como pretende impulsionar novos trabalhos?

Rafael - O Prêmio Sesc de Literatura foi algo maravilhoso, mas o mercado literário é bastante complexo e o fato de ter sido premiado realmente não me garante que o jogo esteja ganho. Em primeiro lugar, eu tento me focar na qualidade do que escrevo. Sem isso, nem me contentaria em ter sucesso comercial. Acho que hoje, apesar do Brasil ainda ser meio ruim em literatura, ao menos há diversas possibilidades de divulgação, como participação em eventos, uso da internet, entre outras possibilidades. Acho que escrever um livro de qualidade, ter esses meios de divulgação e o contato com as pessoas da área já é de grande ajuda. E isso o Prêmio e a publicação pela Record me proporcionaram.


JC - Seu livro tem histórias para um bom filme?

Rafael - Bom, contando que são dez histórias no livro, creio que ele pode virar dez bons filmes. (Risos). Brincadeiras à parte, claro que seria muito legal ver alguma das histórias transposta para a tela. Ainda mais considerando que também trabalho com cinema e o aprecio muito.

 

JC - Escreveu pensando nesse nicho mercadológico?

Rafael - Não pensei especificamente nesse ou em nenhum outro nicho enquanto escrevia. Durante a escrita não penso em nada que não seja o que acho melhor para a história que eu quero contar ali. Se durante o processo de escrita eu ficar pensando no que daria um bom filme ou não, ou mesmo no que os leitores iriam gostar ou não, vou acabar tomando caminhos que não são os que me interessam. Seria como um cientista tentar mudar o resultado de seu experimento só pra ficar mais bonito. Não adianta para nada.


JC - Pensa em escrever um romance? Tem algo guardado na gaveta?

Rafael - Já estou escrevendo um romance. Não tenho previsão de quando fica pronto, mas já estou trabalhando bastante nele. Além disso, tenho escrito alguns outros contos para uma coletânea futura.


JC - Já recebeu algum livro sob encomenda e, se receber, aceitará a empreitada?

Rafael - Não recebi nenhuma encomenda. Mas escreveria se a proposta fosse interessante. Proposta no sentido artístico, claro.


JC - Como lidar com as imposições do mercado?

Rafael - Acho que em primeiro lugar é preciso focar no que é mais importante pra cada um. No meu caso, decidi que mesmo que a literatura nunca venha a ser o que garanta o meu pão de cada dia ou minha mansão na praia, priorizarei a qualidade artística do meu trabalho. Isso já ajuda a não ficar louco atrás de toda possibilidade de atenção ou de aumento nas vendas, ou mesmo a ficar invejando algum outro autor que venda centenas de milhares de cópias. Acho que o mercado literário, apesar dos pesares, ainda é um dos mercados culturais mais interessantes do Brasil. Ainda tem espaço para quem faz um trabalho sério e comprometido com a qualidade, acima do quanto se vende. Eu tento dividir a coisa em duas etapas: enquanto crio, nem penso no mercado. Depois de lançado o livro, penso no que posso fazer para ajuda-lo a ser conhecido, tentando manter sempre a dignidade nas formas de divulgação, que acho que o livro merece.


JC - Como descobriu-se escritor?

Rafael - Desde muito pequeno gostava de atividades criativas. Desenhava, inventava histórias e sempre me encantava  com personagens. Além de ter uma criatividade muito aguçada. Com o passar dos anos, abandonei o videogame, vício que me acompanhou durante toda a adolescência. E passei a me interessar por outras artes.


JC - Como sua família reagiu ao perceber sua vocação para a escrita?

Rafael - No início senti um pouco de resistência por parte da minha família. Eles receavam um pouco a escolha por medo da cultura do nosso país não ter tanta viabilidade. Mas pouco a pouco foram percebendo que esse era o meu caminho e, então, passaram a me apoiar e a me estimular.


JC - Conte como foi disputar o concurso de literatura Sesc.

Rafael - O concurso contou com cerca de 500 inscritos. É o maior concurso em nível nacional e premia dois novos escritores sendo um de contos e outro de romance. Para mim, ter sido um dos ganhadores foi uma grande surpresa. Embora em nenhum momento eu tivesse perdido as esperanças. Como recompensa, ganhei o livro editado por uma das maiores editoras do país, a Record. “Réveillon e outros dias” é meu primeiro livro, e é de contos.


JC - Como foi a premiação?

Rafael - Houve uma cerimônia de premiação na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro. Teve sessão de autógrafos, além de participar  da Flip  em Paraty e um evento na Casa Sesc. O Sesc organiza vários eventos, participei também da Bienal do Livro em São Paulo e de um bate papo com Luisa Geisler, vencedora na categoria romance, e Lucia Bettencourt, ganhadora do Prêmio Sesc 2005, hoje uma escritora consagrada.


JC - De onde tira inspiração para escrever?

Rafael - A vivência dos fatos e a ocorrência dos mesmos intensificam minhas escolhas na hora de escrever. Costumo estar muito atento aos acontecimentos à minha volta. Procuro retratar  uma análise interpessoal. A relação do ser humano com seu semelhante são detalhes muito inspiradores para mim. Estou sempre tirando proveito dos fatos e usando como material para desenvolver algo novo.

 

JC - Como você filtra tanta informação?

Rafael - Cenas, histórias, filmes e o que julgar importante acaba sendo motivo de sentar para escrever. Quando não tenho nada em mente procuro pensar e descobrir.


JC - O que é a arte de criar para você?

Rafael - Acredito que a criação seja um aprimoramento, lapido muito o meu texto.

Estou à disposição da escrita 24 horas por dia. E me sinto sempre um pouco atrasado em relação às minhas ideias. Tenho uma carta na manga para tirar muitas vezes que preciso, é só chacoalhar a memória.


JC - O que acha do trabalho autoral?

Rafael - Para se viver única e exclusivamente de trabalho autoral em nosso País é uma dificuldade muito grande. O público não dá tanto valor à literatura, inclusive a contos. Além de todo processo de divulgação no Brasil ser muito complicado. Existe um descompasso entre romance e contos no Brasil. Os interesses são sempre voltados aos romances. O público prefere romance e acaba sendo um ciclo vicioso. Pretendo, sim, seguir carreira literária e meu segundo livro já está no forno.


JC - Qual foi ou ainda é seu grande desafio?

Rafael - Viver da arte e lidar com uma certa resistência é um desafio. Pois no nosso País é nadar contra a corrente. A própria arte é um esforço enorme. Além disso você precisa lutar para conseguir seu espaço e fazer seu nome aparecer. Lutar contra profissionais em um mercado inundado de desinformação. Lutar pelo seu público e se policiar para não se perder. Tentar manter meu espaço é  também um grande desafio.


Perfil

Nome: Rafael Gallo

Idade: 30 anos

Pais: Marelene

Maria Gallo e Mauro Fernando Gallo

Irmão: Fernando Egídio Gallo

Preferências: Cinema, fotografia e viajar

Livro: Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa

Filme: Cachê, diretor Michael Haneke

Música: Boa música independente do estilo

Para quem dá nota 10: Aos artistas de verdade

Para quem dá nota 0: Para os picaretas que adoram enganar todo mundo

 

 

Livro: “Réveillon e outros dias”

Editora: Record

Autor: Rafael Gallo

Site: www.rafaelgallo.com.br

Email:  contato@rafaelgallo.com.br

Facebook.com/rafaelgallooficial