09 de julho de 2026
Articulistas

O perigo do falso testemunho

Juliano Dip Lencioni
| Tempo de leitura: 3 min

Nós, jornalistas, somos muitas vezes alvos de frases do tipo "Todo mundo sabe, mas vocês não falam que ele é corrupto??, "Porque vocês escondem que há interesses políticos por traz disso", "Vocês sabem que não foi esse o motivo do crime", etc. As acusações são frequentes. O que muitas vezes não se entende é que na mesa do bar, no telefone com um amigo ou na caminhada você, não deve, mas pode falar o que acha com propriedade e até defender seu achismo como se fosse verdade. Mas no Jornal, na Rádio, no Portal, na Revista e na TV só se fala a verdade. E a verdade é aquilo que se pode provar e não o que todos falam ou acham. É como se você ver a mulher de um amigo saindo com um amante, se você não fotografar o fato não poderá provar que é verdade e, portanto, quando contar para alguém tudo não passará de boato. Você vai saber que viu os dois juntos, mas sem a foto nada será verdade. No jornalismo é também é assim, tem que provar, seja com foto, investigação policial e etc.

Na última segunda-feira, 17, tivemos um exemplo claro disso. Pela manhã um incêndio atingiu a Favela do Moinho, em Campos Elíseos, no centro de São Paulo. Assim que publiquei na internet a primeira foto o incêndio fui incitado por alguns dos meus seguidores nas redes sociais a dizer que o incêndio era criminal. Alguns diziam que era jogada política para mostrar certa calamidade em relação as favelas da capital. Outros afirmavam que o incêndio fora provocado pelos próprios moradores em busca de habitação gratuita oferecida pela prefeitura. Teve quem disse que os jornalistas "sempre tão bons em ilações apenas reportam os incêndios em favelas de SP". Boatos e acusações a parte, depois que as chamas foram controladas a polícia militar prendeu um dos moradores, que foi preso acusado, (leia bem eu escrevi acusado), de ser o responsável pelo incêndio. Segundo boletim de ocorrência, ele brigou com o companheiro e, como vingança, resolveu atear fogo no barraco onde os dois viviam. O companheiro foi encontrado carbonizado na residência.

As investigações não foram concluídas, por tanto, por enquanto não podemos falar nada além do que a polícia aponta. Até então a única verdade é que uma pessoa morreu. O resto ainda está sob suspeita e não somos nós que vamos julgar. Não podemos dizer, nem mesmo, que o incêndio foi causado pelo morador preso, ele é apenas acusado. No jornalismo sério é assim, verdade é aquilo que se pode provar e não o que você fala no bar, no twitter ou no facebook. Por tanto, por princípios morais e profissionais, eu não levanto falso testemunho. E isso não tem nada a ver com religião, mesmo porque depois de tudo o que disse acima seria contraditório acreditar que existiram tábuas e mandamentos, o que não me impede de concordar com alguns deles.

O nautor, Juliano Dip Lencioni, é repórter da Rádio CBN em São Paulo, julianodip@hotmail.com, twitter.com/julianodip