08 de julho de 2026
Esportes

Noroeste: Insustentável

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 5 min

 

Neide Carlos

Receita arrecadada hoje não cobre nem 10% dos gastos mensais que o Noroeste tem para manter a sua estrutura

 

O presidente em exercício do Noroeste, Toninho Gimenez, que assumiu o clube temporariamente após a saída do benemérito Damião Garcia, comandante do Alvirrubro nos últimos nove anos, aponta uma situação insustentável no clube com a saída dos Garcia e o consequente fim do aporte financeiro que mantinha a estrutura do clube atualmente. De acordo com Toninho Gimenez, dos R$ 400 mil de despesas mensais do Noroeste, o futebol consome cerca de R$ 300 mil. O restante é gasto com manutenção do clube e pagamento dos funcionários. Com a saída de Damião Garcia, o Norusca “perde” R$ 320 mil que o benemérito bancava para zerar a diferença entre receita, estimada em R$ 80 mil hoje, e despesas. É uma conta que está longe de fechar.

 

Portanto, atitudes drásticas terão que ser tomadas para adequar o clube à sua nova realidade. Dos R$ 80 mil que o clube passa a ter de orçamento, R$ 50 mil vêm do patrocínio da Kalunga, que tem garantia de permanecer até o final do ano. Ou seja, a receita arrecadada na cidade não cobre nem 10% do gasto mensal do clube. Fica escancarado que o desafio é enorme. A primeira consequência foi a extinção de duas categorias da base alvirrubra, o sub-15 e sub-17, anunciada ontem (leia na página 14).

 

Gimenez reafirmou, ontem, seu intuito de se reunir com os Garcia. O objetivo é negociar a permanência da família à frente do clube para abrandar o choque de realidade e implantar o processo de adequação do time ao tamanho de sua nova receita. Em uma conta rápida, Toninho chama a atenção para a disparidade dos números que ficam para o restante do ano: R$ 320 mil de receita para R$ 1,2 milhão de despesa. “Não temos condição de arcar com isso hoje”, lamenta. O presidente em exercício vai apelar para que os Garcia executem a operação para baixar os patamares financeiros do clube. “Gostaríamos que eles deixassem o clube dentro das possibilidades da cidade”. Gimenez acentua que não ficará na presidência, cargo que ocupa temporariamente, e afirma que vai convocar eleições executivas na próxima semana. 

 


Irrevogável

 

João Paulo Garcia reiterou, ontem, que a decisão de sua família de deixar o comando alvirrubro é irrevogável. “Da nossa parte, é definitivo. Eu já li comentários de torcedores aí, dizendo que a gente não aguentou a pressão. Isso nos dá mais certeza de que fizemos a coisa certa”, comenta, fazendo referência a novas manifestações de torcedores em redes sociais, após a saída de Damião Garcia. João Paulo lamentou a memória curta destes torcedores. “Muitos deles não devem ter vivido o clube perto de 2003. O clube não iria disputar campeonato nenhum, iria ser desfiliado da federação. Se hoje eles têm o que criticar, bem ou mal, isso se deve ao meu avô”.

 

João Paulo ainda descarta outra participação, além do patrocínio da Kalunga, na transição do time para patamares mais modestos de despesas. “Hoje, o clube tem dinheiro em caixa e tem patrocínio que a gente ainda vai dar para fazer o que quiser. Hoje, se (os diretores) acharem que têm que mandar todo mundo embora, eles mandam e pagam. Se quiserem acabar com o clube hoje, acabam. Se quiserem continuar, continuam. Eles têm dinheiro para fazer o que quiserem. Mas a decisão é deles, a gente não participa mais de nada”, conclui.

 

 

O último ato

 

Tudo na face da Terra tem começo, meio e fim. Temos de saber assimilar os ciclos da vida, sem nos deixar abater. A saída do empresário Damião Garcia do comando do Noroeste era esperada para qualquer dia destes. O último ato foi precedido de vários ensaios e datas marcadas e remarcadas para o desfecho. Embora um apaixonado pelo clube como ele vá fazer falta ao cotidiano no Alfredo de Castilho, é hora de olhar para frente, a exemplo do que sempre fizeram os noroestinos desde o início do século passado. 

 

Como bem disse um dirigente: em seus 102 anos o Noroeste existiu 93 anos sem o benemérito Damião. Foi bom enquanto durou, mas bola pra frente. Certamente a família Garcia pensou e repensou bastante esta decisão. Temos de respeitá-la. Contudo, ficou uma importante aresta a ser aparada para que a tão celebrada Era Damião Garcia termine da forma como todos os esportistas gostam de ver em seus clubes: com grandeza e altivez. 

 

A forma (não o mérito) como se deu o desligamento, anunciado ontem, deixa o clube em uma situação insustentável a curtíssimo prazo, podendo até fechar, por conta de uma superestrutura de custos fixos e variáveis criada na fase de bonança, a partir do aporte espontâneo de recursos feito religiosamente por ‘São’ Damião. 

 

Sabemos que houve apelos anteriores de diretores em prol de uma transição que recolocasse o Noroeste em patamares realistas antes da saída de um dos maiores beneméritos da história do clube. É provável que o amor e o entusiasmo desse noroestino que dá seu nome a todo o complexo esportivo de Vila Pacífico e quer ver o Norusca sempre lá no topo da tabela não o permitiram baixar a bola dos gastos gradualmente, como seria o recomendável. 

 

Então, isso deve ser feito agora, como um último ato de sua parte para coroar a grandeza de espírito que moveu Damião Garcia, filhos e neto por quase uma década. Neste caso, mesmo que o ex-presidente não faça questão, que as despesas finais tenham a contrapartida de passes de bons jogadores que o clube dispõe hoje. É o que esperam não apenas os noroestinos, mas toda Bauru e região. 

 

 

João Jabbour   

              

 

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