08 de julho de 2026
Geral

Jovens ficam sem estudo e trabalho

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Para Paloma Rodrigues da Silva, passar o dia todo dentro de casa faz parte da rotina. Mesmo com o filho de um ano matriculado na creche, a jovem de 18 anos não está estudando, nem trabalhando e tão pouco procurando emprego.

Ela faz parte do grupo de 9.996 moradores de Bauru entre 18 e 25 anos que estão fora da escola e do mercado de trabalho, segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Trata-se de um problema que atinge um a cada cinco jovens. Juntos, equivalem à população de Iacanga (a 50 quilômetros de Bauru).

Ao todo, Bauru conta com 46.403 habitantes entre 18 e 25 anos e, destes, 176 nunca sentaram em um banco escolar. Outros 9.820, que também não trabalham, não estão mais estudando.

O levantamento reconhece apenas o ensino formal (fundamental, médio, superior ou pós-graduação) e há de se considerar que uma parte – mesmo que ínfima – pode estar se preparando para concursos públicos ou fazendo cursos no Exterior.

Há ainda aqueles que estão incapacitados por problemas de saúde e os que estão presos. Mas, via de regra, são motivos menos objetivos que levam estes jovens a abdicar de emprego e educação.

O fenômeno é tão evidente que este grupo, já reconhecido por estudiosos, vem sendo chamado de geração “nem-nem” (tradução livre do termo ni-ni - “ni estudian, ni trabajan” - do espanhol).

 

Diversos fatores

Segundo especialistas, isso é resultado de várias causas, entre elas a desestrutura familiar, deficiências da escola quanto à forma de preparar os jovens para a vida, além do hedonismo próprio desta geração.

Há ainda, paradoxalmente, o aumento do poder aquisitivo das famílias, o que permite aos pais sustentar por mais tempo os filhos, mesmo que tenham saído da escola.

É o caso de Paloma. Ela abandonou os estudos aos 16 anos, meses depois ficou grávida de Wendel e, desde então, tem despesas pagas pelos pais – um auxiliar de limpeza e uma auxiliar de cozinha -, com quem vive até hoje no Núcleo Gasparini.

“Tenho vontade de voltar a estudar, mas, por enquanto, não tenho planos. Meu filho fica o dia todo na creche, mas queria fazer supletivo. Não tem nenhum aqui no bairro e não tenho dinheiro para pegar ônibus”, justifica ela, que diz ter o sonho de ser médica. “Mas acho que não vou conseguir”, completa.

 

Desestímulo...


Talvez em outro momento conjuntural, Paloma não tivesse escolha e precisasse dividir com os pais a responsabilidade pelas contas da casa.

Mas, para além da explicação econômica, a doutora em sociologia Maria Antonia Vieira Soares acrescenta que a própria falta de estímulo dos jovens diante do ensino formal colabora para que deixem as aulas.

“A escola é o espaço que deveria servir de ferramenta para eles avançarem em sua condição de vida. Só que a estrutura educacional do País é precária, não dá acesso a uma visão de mundo mais crítica, propositiva, que os façam enxergar novos horizontes”, reclama a socióloga, que é professora do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

De acordo com ela, a sociedade pós-moderna - consumista e imediatista – também levou esta geração ao hedonismo, doutrina que tem o prazer como finalidade e fundamento. Sem valorizar nada que provoque empenho ou sacrifício de longo prazo, a escola é uma das primeiras instituições a perder o encanto.

“E, sem estudar, estes jovens não tem nenhuma chance de competir no mercado de trabalho, que requer mão de obra cada vez mais qualificada. Forma-se aí um terreno fértil, inclusive, para o avanço das drogas”, conclui.

 

Competição afasta jovens do mercado

O mercado de trabalho é apontado como outra causa deste fenômeno. Segundo a doutora em sociologia Maria Antonia Vieira Soares, a mão de obra qualificada é exigida pelas empresas até para os cargos de remuneração mais baixas e mesmo o jovem recém-formado pode sair da faculdade sem conseguir emprego na função pretendida.

“É uma realidade violenta. Em muitos casos, ele terá de se aprimorar para compensar a falta de experiência”, frisa. Enfrentam maiores dificuldades aqueles que pararam de estudar cedo para trabalhar, como é o caso de Adilan Fernando Piculi, 22 anos.

Ele abandonou os estudos com 17 anos, quando estava na 1ª série do Ensino Médio, para acompanhar a mãe em serviços de montagem de palco por todo o Estado. Três anos depois, resolveu voltar para Bauru para procurar emprego fixo, mas não conseguiu encontrar trabalho. “Fiz bicos como pintor, atendente de mercado. Ás vezes faço limpeza de quintal, ajudo no ferro velho da minha madrinha (com quem mora), catando e separando recicláveis. Ela me dá algum dinheiro, mas dependo dela pra sobreviver”, comenta.

O jovem vive na Pousada da Esperança 2 com a madrinha, o padrinho e a filha do casal, de 17 anos, que acabou de ter um filho. Ela também está fora da escola e do mercado de trabalho.


Aspiração

Adilan sonha em ter a própria casa, o que ainda está longe de ser concretizado, até mesmo por ele não possuir nenhuma aspiração ou planejamento profissional.

“Penso em voltar a estudar, mas primeiro queria realmente ter um emprego fixo. Trabalharia com qualquer coisa que aparecer. O que eu queria era ter meu dinheiro e minha independência”, observa.

 

Prejuízo a longo prazo

O contingente de quase 10 mil jovens inativos em Bauru ocorre num momento em que a cidade registra baixas taxas de desemprego e os empresários se queixam de escassez de mão de obra qualificada. “É um desperdício e um prejuízo econômico enorme. A economia decolou nos últimos anos, assim como a oferta de emprego, mas não há gente para trabalhar”, comenta o economista Wagner Ismanhoto.

Como resultado, muitos profissionais estrangeiros foram contratados nos últimos anos para assumir funções bem remuneradas, principalmente na área de engenharia. Como consequência num futuro não muito distante, afirma o economista, a ausência de trabalhadores que hoje pertencem à geração “nem-nem” será sentida para a consolidação de um crescimento sustentado

“É um efeito retardado. O prejuízo, até o momento, é social. Mas vai ser econômico lá na frente. Estes jovens serão adultos pouco qualificados, sem preparo ou visão empreendedora”, lamenta.