08 de julho de 2026
Articulistas

Respondendo ao estímulo

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

As taxas de juro caíram e vão continuar caindo. Não em razão de pressões do governo sobre o sistema bancário, mas porque os bancos estão se ajustando à realidade brasileira. A taxa real de juros no Brasil era a maior do mundo e durante duas décadas causou prejuízos gigantescos ao nosso desenvolvimento social e econômico, em virtude da combinação de más políticas econômicas com um comportamento defensivo dos bancos.

Isso mudou e os bancos estão fazendo aquilo que é de seu interesse, respondendo aos estímulos do mercado. Eles estão se ajustando a um mundo novo que está nascendo, que é este de uma taxa de juro mais baixa. Não estão baixando as taxas de juro simplesmente por que o governo quer, embora todos saibam que o governo quer. Costumo lembrar uma data, 31 de agosto de 2011 quando, reunido no Banco Central, o Comitê de Política Monetária iniciou o processo de redução da taxa básica de juros, a Selic, que estava em 12.5% ao ano. Os cortes continuaram inabalavelmente, reunião após reunião do Copom (a cada 40 dias), até os 7.5% atuais. Nas semanas que se seguiram ao início do processo, alguns "analistas" do mercado financeiro se esforçaram bastante (até cansar), para convencer a audiência que o Banco Central "tinha deixado de ser autônomo (sic) e passara a obedecer a uma ordem de Dilma". No fundo, trata-se de uma grande bobagem que nem o sistema bancário levou a sério.

Essa mudança é profunda e vai continuar. Ela começou, não só com uma mudança no Banco Central. Ela se mostrou visível quando o governo enfrentou o problema da caderneta de poupança: hoje os investidores sabem que têm que mudar a estrutura de seus portfolios, simplesmente porque terminou aquele negócio de ganhar dinheiro aplicando em títulos do Tesouro, que são líquidos. E todos estão, apenas, se ajustando à nova realidade.

Os bancos estão fazendo o seu papel: não vejo nenhum banco ajustando as taxas para perder dinheiro, mas, sim, para manter o seu cliente. E para disputar novos clientes, num mundo que está nascendo: daqui pra frente vamos ter uma taxa de juro real correspondente à do mundo. Hoje é difícil dizer qual será, diante de um mundo que está caindo aos pedaços, mas pode-se pensar que (até com um pouco de tranquilidade), quando os Estados Unidos, daqui a dois ou três anos, quem sabe, voltarem à normalidade, a taxa de juros real norte-americana será em torno de 2%.

O Brasil não vai ter um risco maior do que uns 100 pontos. Não há razão, portanto, para imaginar que a taxa de juro real do Brasil vai ser muito diferente de 2,5% ou 3%. Nós estamos próximos disso hoje, mas com uma taxa que ainda é muito grande num mundo em que a taxa de juro real é perto de zero, praticamente. Certamente foi dado um grande passo, no entanto, na direção do ajuste da economia brasileira: quando a taxa de juro real interna for igual à externa, o Brasil será muito melhor do que é hoje.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC