10 de julho de 2026
Nacional

Hebe morre aos 83 anos em sua casa, de parada cardíaca


| Tempo de leitura: 7 min

São Paulo - Filha ilustre de Taubaté, em São Paulo, Hebe Maria Monteiro de Camargo Ravagnani morreu na madrugada de ontem, aos 83 anos, em consequência de uma parada cardíaca, em sua casa, no Morumbi. A apresentadora lutava contra um câncer desde o início de 2010.

Localizada inicialmente no peritônio, membrana que envolve o aparelho intestinal, a doença parecia controlada ainda no primeiro semestre de 2010, após a retirada de nódulos e de sessões de quimioterapia. Em setembro passado, Hebe retomou o tratamento contra o câncer e, em 11 de março, submeteu-se a uma cirurgia para retirada de tumor no intestino. Veio outra cirurgia em julho, dessa vez para a retirada da vesícula, e outra internação em 15 de agosto.

Desde o primeiro diagnóstico, Hebe nunca se esquivou de tocar no assunto. Falava das perucas que usou durante o período em que os cabelos caíram e chegou a posar careca para a capa de revista Veja São Paulo. Acreditava que toda história de superação deve ser proferida aos quatro ventos, para abastecer as forças de quem passa por dramas semelhantes.

O comportamento só acusava coerência com a trajetória de alguém que sempre prezou pela transparência, por pior que a verdade fosse para sua imagem pública. Admitiu ter feito aborto. Defendeu voto em Paulo Maluf quando o político já era alvo de denúncias de corrupção e defendeu Fernando Collor quando ninguém mais ousava fazê-lo - no auge do processo de impeachment, disse, em entrevista à revista IstoÉ, que Pedro Collor era “feio” e “invejoso”. Contou, mais de uma vez, que era assediada pelo ex-presidente Jânio Quadros e morria de rir quando ouvia sua voz ao telefone.

Hebe não elaborava frases a fim de agradar A ou B. “Não sei fazer festa para quem eu não gosto, por isso peço à produção que traga pessoas de quem eu gosto: o meu abraço, essa festa que faço quando recebo alguém no palco, tem de ser verdadeira. Se não for, meu público percebe, ele me conhece”, disse ela ao jornal “O Estado de São Paulo”, em novembro passado, ainda em seu camarim na RedeTV!

Nos últimos anos, até em função da lei eleitoral, Hebe evitava manifestações políticas, mas nem por isso se recusava a tocar no assunto. Em sua estreia na RedeTV!, exibiu a melhor entrevista que Dilma Rousseff já deu à TV como presidente.

Gravada no Palácio da Alvorada, em Brasília, a conversa trouxe uma chefe de nação mais à vontade do que nunca, como se as duas, que politicamente sempre caminharam em lados opostos, fossem amigas de infância.

No mesmo programa, Hebe pôde acenar para o governador Geraldo Alckmin, o ex-governador José Serra e o ex-ministro José Dirceu, todos na fila de gargarejo da plateia do dia. E pediu aplausos para os três, bem a seu modo: “Pode aplaudir, gente!”.

Hebe colecionava fiéis colegas de auditório. Eram “senhorinhas” que compareciam ao seu cenário toda semana, por anos a fio, mesmo após três trocas de endereço - do Carandiru à Anhanguera, nos idos do SBT, e depois em Osasco, na RedeTV!. Era assim que distribuía “gracinhas”, selinhos e outros diminutivos democraticamente, dos convidados no sofá aos anônimos no auditório. Nos intervalos, misturava-se à plateia.

“Linda de viver!”, rezava outro de seus bordões. Hebe foi personagem de si mesma. Espantava, a quem se aproximava dela pela primeira vez, a capacidade de ser, pessoalmente, exatamente o que era diante das câmeras. Apaixonada por joias, ostentava brilho no pescoço, orelhas, pulsos e dedos, mesmo após ter a casa assaltada. “Tenho joias para usar, não para guardar no cofre”, dizia. Hebe deixa um filho, Marcello, fruto do primeiro casamento, com Décio Capuano.

 

Dor da perda

 

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni)

“Conhecia a Hebe há 60 anos. Eu era moleque, começando, meio desprezado pelos outros, e a Hebe me adotou como filho. O lado profissional da Hebe é importante, mas ela nunca deixou que fosse mais importante que o lado pessoal, nunca brigou com um colega, sempre foi protetora, amorosa, generosa. É uma perda muito grande.”

Geraldo Alckmin

“O Brasil perde sua dama da compaixão, da espontaneidade, do humor, da informação e da simplicidade. Eu e a Lu perdemos, além disso, uma amiga muito próxima e querida”

Marta Suplicy

“Hebe é um marco na nossa cultura de rádio e televisão. Durante toda a sua vida, com seu jeito espontâneo de ser, ela trouxe alegria a milhões de pessoas”

Ana Maria Braga

“Os amigos do Sorriso da TV brasileira, Hebe, choram a Estrela que se vai. Saudade. De Portugal onde vim trabalhar, estou dolorida na alma.” (No Twitter)

Angélica

“Que tristeza!!!!! Minha amada Hebe Camargo vai deixar muita saudade!!! Luz e paz querida!!!! Sua alegria de viver sempre foi um exemplo!” (No Twitter)

Nilton Travesso - Diretor de TV

“São mais de 40 anos convivendo com uma pessoa, uma mulher de um otimismo sem igual. Só eu sei os problemas por que ela passou na vida. Brigou pelo profissionalismo. Perder a Hebe é perder uma parte da nossa vida emocional e profissional.”

Serginho Groisman

“Hebe foi fundamental para minha ida ao SBT, tanto que o primeiro Programa Livre foi com ela. Vai em paz gracinha.” (No Twitter)

Adriane Galisteu

“Tem algumas pessoas que não combinam com a morte, Hebe é uma delas. Estou arrasada, sem chão.”

Aguinaldo Silva

“Estrelas nunca morrem... E Hebe Camargo será sempre uma luz para os que a amam. (No Twitter)

Ronaldo

Que tristeza! Hebe era um linda, querida! Um beijo enorme minha rainha. Descanse em paz. Um abraço fraterno em toda família! (No Twitter)

Marcelo Adnet

Hebe no SBT quase fazendo você chorar. Que mulher! (No Twitter)

Regina Casé

Só agora soube que a Hebe voltou p o Olimpo onde sempre estará servindo ambrosia,o nectar dos deuses! fonte da eterna juventude! Viva Hebe! (No Twitter)

Oscar Filho

Hebe e Nair Belo agora rindo juntas que nem umas retardadas! (No Twitter)

 

   Enterro será às 9h30 de hoje   

São Paulo - O corpo da apresentadora Hebe Camargo, uma das pioneiras da televisão brasileira, será enterrado às 9h30 de hoje, no cemitério Gethsemani, no Morumbi. O velório começou ontem às 18h, no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do Estado, no mesmo bairro.

Na última quinta-feira, o SBT havia anunciado a volta de Hebe à emissora. Ela estava afastada do canal de Silvio Santos desde dezembro de 2010, quando não renovou seu compromisso e migrou para a Rede TV!.

Dilma

A presidente Dilma Rousseff enviou nota à imprensa para lamentar o falecimento da apresentadora. Segundo ela, milhares de fãs em todo o Brasil perdem uma “grande artista”, além da alegria de Hebe.

“Recebi com tristeza, a notícia do falecimento de uma das mais importantes personalidades da televisão brasileira, a minha querida amiga Hebe Camargo”, afirmou Dilma, em nota, lembrando a trajetória da apresentadora.

De acordo a presidente Dilma, com sua “simpatia e espontaneidade”, Hebe recebeu, ao “longo de seis décadas, as mais diversas personalidades em seus programas de televisão, mantendo sempre uma grande sintonia com o público”.

 

Hebe Camargo era ícone absoluto

 

São Paulo - Ícone absoluto da TV brasileira, a apresentadora Hebe Camargo Ravagnani nasceu no dia 8 de março de 1929 na cidade de Taubaté, em São Paulo, e teve uma infância bastante humilde. Filha de Esther Magalhães Camargo e Segesfredo Monteiro Camargo, ela não se inibiu com dificuldades financeiras e traçou uma trajetória de sucesso, passando pelas maiores emissoras do Brasil eternizando seu sofá de debates.

Vir ao mundo no mesmo dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher é ter uma estrela apontada para o sucesso. Fazendo um retrospecto sobre sua vida profissional, logo percebemos que a vida de Hebe está diretamente ligada à história da TV no Brasil.

Sua vida artística se iniciou na década de 40 integrando o quarteto Dó-Ré-Mi-Fá, do qual fazia parte sua irmã Estela e as primas Helena e Maria. Três anos depois, elas colocaram fim ao grupo e Hebe formou uma dupla caipira com a irmã, utilizando-se de nomes fictícios: Rosalinda e Florisbela. A parceria durou pouco e ela investiu na carreira solo. Foi neste momento que ela ganhou popularidade, cantando sambas e boleros.

Hebe foi convidada por Assis Chateaubriand para participar da primeira transmissão ao vivo da televisão brasileira, no bairro do Sumaré, em São Paulo, em 1950. Mas não apareceu no evento, sendo substituída por Lolita Rodrigues. Na época ela alegou estar doente, mas em 2007 confessou em um programa de TV que acompanhou o namorado numa festa.

A carreira de cantora continuou e ela gravou um disco em homenagem a Carmem Miranda. Com isso, ganhou o título de Estrelinha do Samba e A Estrela de São Paulo. Hebe chegou a participar de filmes de Mazzaropi (1912-1981) e contracenou com Agnaldo Rayol em um deles.