Uma das maiores fraudes desmanteladas pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bauru. Assim é visto o “golpe do financiamento”, que, só na cidade, movimentou mais de R$ 4 milhões. Após cerca de um ano da “quebra” da quadrilha pela Polícia Civil, o inquérito está em sua fase final, com 101 veículos bloqueados e 25 recuperados. Até hoje, surgem automóveis financiados criminosamente.
O esquema consistia em usar cópias de documentos verdadeiros, com dados manipulados e falsos, para aprovação dos financiamentos. Até comprovantes de rendimento em branco foram localizados quando a operação foi deflagrada, em novembro do ano passado.
O modo de ação dos golpistas era organizado: após obter o veículo financiado em nome de um “laranja”, as parcelas não eram pagas e a financiadora ficava com o prejuízo.
Porém, o inquérito de mais de 800 páginas aponta que os envolvidos não eram tão “laranjas” assim. “O financiamento era feito muitas vezes em nome de pessoas com envolvimento com a criminalidade e até com o crime organizado”, relata o delegado Cledson Luiz do Nascimento.
Durante este ano, 25 carros envolvidos no esquema foram recuperados por todo o Estado de São Paulo. Ao todo, o valor dos bens recuperado gira em torno de R$ 500 mil.
Outras dezenas de carros também já foram bloqueados a pedido da Polícia Civil. “Alguns estavam com criminosos conhecidos e com foragidos da Justiça. Outros foram encontrados com drogas perto da fronteira”.
O delegado espera concluir o volumoso inquérito em breve. Porém, até agora, novos casos chegam até ele. “É certamente um dos maiores golpes que já desmantelamos aqui na DIG”, destaca.
O esquema, que tinha como “tronco” Bauru e ramificações em Lins (102 quilômetros de Bauru), chamou a atenção por envolver desde a oferta do veículo, a montagem dos documentos e a aprovação do financiamento.
Lista de crimes
Segundo a polícia, cerca de 15 pessoas participaram ativamente nos crimes. Quatro garagens de Bauru estão entre os cenários da fraude. Entre os golpistas, de acordo com o que DIG apurou, estão representantes de bancos, corretores e proprietários de revendedoras de veículos seriam os responsáveis por obter as cópias dos documentos dos “laranjas”.
E a lista de crimes que esses envolvidos irão responder é extensa. Cledson do Nascimento explica que eles serão acusados por estelionato, falsificação de documentos, falsidade ideológica e formação de quadrilha.
Um endereço, 15 financiamentos
As investigações da Polícia Civil apontaram algumas discrepâncias gritantes nos processos de financiamento da fraude milionária. “Tinha casos em que um mesmo endereço mantinha cerca de 15 financiamentos”, conta o delegado Cledson Luiz do Nascimento.
Apesar de a maior parte ter sido realizada para beneficiar pessoas ligadas ao crime, a fraude teve ainda outro caráter. A falsificação de documentos ajudava também pessoas que queriam fazer um financiamento, porém, não podiam.
“Havia a falsificação de comprovantes de renda, por exemplo. Assim, a pessoa não ganhava o necessário para financiar aquele automóvel, mas, com o documento falsificado, conseguia obter o financiamento”, complementa.
Investigações alteraram protocolos de financiamento, diz delegado
Além de conseguir solucionar mais a grande quantidade de financiamentos criminosos, as investigações colaboraram até mesmo para intensificar o protocolo no processo de financiar veículos. É o que afirma o delegado Cledson Luiz do Nascimento.
De acordo com ele, as financiadoras se tornaram mais cuidados nos requisitos atendidos antes de conceder o financiamento. O delegado afirma que até visitas presenciais estão sendo realizadas agora.
“Temos percebido que, antes de conceder o financiamento em alguns casos, a instituição até manda alguém no local. Tudo isso é reflexo da fraude encontrada e da investigação desenvolvida pela Polícia Civil”, ressalta.
As apurações que resultaram na descoberta do golpe começaram após roubo frustrado a uma residência em Bauru. A equipe da DIG conseguiu prender os autores e verificou que eram ligados ao crime organizado. Durante as investigações, apurou-se ainda que todos usavam carros financiados irregularmente.