“Quem ganhar tem que pensar na gente e melhorar a vida do povo”. Este é o recado de A, 18 anos, interno da Fundação Casa, para os políticos que dependem também dele no próximo domingo. A é um dos 72 adolescentes que estão ou estiveram em conflito com a lei e poderão votar, no dia 7 de outubro, na sessão eleitoral montada dentro da unidade. Na última sexta-feira, quando conversou com o Jornal da Cidade, A nem sabia quem eram os candidatos à Prefeitura de Bauru, mas disse acreditar nas mudanças necessárias que seu voto e as eleições podem trazer.
A chegou à Fundação Casa há cerca de seis meses, por conta do envolvimento com o tráfico de drogas desde os 15 anos. O relato do jovem acerca das deficiências de seu bairro, o Parque Viaduto, escancara o quanto a ausência do poder público na periferia pode interferir no caminho de milhares de jovens como ele.
“Lá não tinha nada pra gente fazer. Precisava de uma quadra, uma praça pras criança brincar. Essas coisa têm só em vila mais rica. Mas eles tinha que olhar mais pra gente. A gente num tem o que fazer e vai pra coisa errada mesmo. Trabalhar não pode porque é de menor”, conta.
A escola também não foi uma realidade para A. Aos 12 anos, ele parou de estudar após concluir à sexta-série. Aliada a uma tragédia na família do então menino, a distância de sua casa do local de aprendizado foi um dos fatores que culminou no abandono. “Tinha que andar mais de meia hora pra chegar lá na Vila Falcão. Precisava de uma escola igual no bairro”, diz o adolescente que está, há seis meses, sob a tutela do Estado.
C, 18 anos, também vai votar no dia 7 de outubro. Ele conta que conhece os candidatos a prefeito apenas pela propaganda da TV, a qual pode assistir aos sábados e domingos na Fundação Casa. Desde os 11 anos, atuava como aviãozinho do tráfico e está internado há seis meses.
C também deixou a escola na quinta série do ensino fundamental e tem dificuldades, inclusive, para apontar as melhorias necessárias no seu bairro, Fortunato Rocha Lima. O adolescente acredita em um futuro melhor a partir do voto e diz que deve seguir a escolha da irmã mais velha, que o visita todos os domingos. “Ela até pergunta se eu tô pronto pra votar, sinhô. Mas eu vejo que muita coisa já melhorou. Antes tinha depósito de lixo lá na vila e não tem mais”, conta.
Tragédias
“Eu entrei porque eu quis”, justifica C, sem saber de sua condição de vítima. Aos 11 anos, ele foi cooptado pelo tráfico, após a perda da mãe, que faleceu em decorrência de um derrame cerebral, desestruturando a família, formada também por dois irmãos e pelo pai.
As histórias parecem, inclusive, se repetir na vida desses jovens. A também deixou a escola e, posteriormente, para o mundo do crime depois da morte brutal de sua mãe, assassinada pelo pai. “Ele matou e sumiu no mundo. Deram como morto, mas ninguém sabe”, lembra o adolescente, que vivia com a irmã mais velha antes de chegar à Fundação Casa.
Fundação Casa promete conscientização
A diretora do Centro de Bauru da Fundação, Silvana Regina de Matos Yonashiro, explica que, na semana que antecede a votação, a equipe pedagógica da unidade vai ministrar oficina temática sobre a importância do voto, democracia e separação dos poderes Executivo e Legislativo.
Além disso, material fornecido pela Justiça Eleitoral vai apresentar todos os candidatos a prefeito e vereador. “Vão receber também os programas de governo. Nós não vamos levar propaganda para os adolescentes. Priorizamos a formação cidadã”, explica.
Segundo a diretora, para muitos jovens, a chegada À Fundação Casa representa o primeiro contato, de fato, com o Estado. “Quando ele é apreendido, passar a ter informações sobre seus direitos e deveres. O voto é mais uma ferramenta para este processo”, diz Silvana.
Em 2010, os adolescentes em conflito com a lei puderam votar pela primeira vez. Na Fundação Casa de Bauru, 65 foram cadastrados junto da Justiça Eleitoral, mas apenas 33 votaram. “Isso se dá em razão da população flutuante. A emissão dos títulos é feita em abril. Quando chega em outubro, muitos não estão mais aqui”.
Dos 74 adolescentes cadastrados pela Justiça Eleitoral este ano, apenas 26 permanecem na fundação.
Apesar disso, a diretora ressalta que todos cadastrados na sessão eleitora da Fundação casa poderão votar no próximo domingo. Muitos inclusive, com mais de 18 anos, são obrigados a comparecerem ou justificarem ausência. “Nós montamos um esquema de segurança diferenciado para que não haja contato entre os internos e aqueles que já saíram”, ressalta Silvana.
Juliana Monteiro, chefe do cartório da 387ª Zona Eleitoral, responsável pela votação na unidade, explica que a orientação para que os internos participem do pleito parte do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ela lembra, no entanto, que os jovens que chegaram à Fundação Casa após o prazo legal para emissão ou transferência de títulos eleitorais não poderão participar do pleito este ano.
CDP
Não são apenas os jovens em conflito com a lei que têm o direito de votar em 2012. A determinação do TSE se estende também para os presos provisórios. Ao todo, eles somam 14.671 em todo o Estado de São Paulo. Em Bauru, o Centro de Detenção Provisória (CDP) se enquadra no critério para receber uma sessão eleitoral. No entanto, de acordo com o cartório da 300ª Zona Eleitoral, responsável pela região onde fica a unidade, informou que menos de 20 internos se interessaram em participar do pleito este ano. Este é o número mínimo exigido pela legislação para que o local recebesse uma urna eletrônica.
Vereadores perdem peso em campanha política
As andanças e corre-corres pelos bairros são marcas registradas nas campanhas eleitorais. Se o corpo a corpo não é mais tão forte na disputa prefeitura, o mesmo não se pode dizer da briga pelas 17 cadeiras da Câmara Municipal de Bauru. A mudança na rotina dos candidatos provoca a perda de peso em muitos deles. E isso não vale só para os políticos sedentários, pois mesmo aqueles que cultivam hábitos de atividade física sentem a diferença na balança e nas roupas.
O vereador e candidato à reeleição Fernando Mantovani (PSDB) é exemplo disso. Esportista e ‘caxias’ com a alimentação, ele perdeu três quilos nos últimos meses. “Para comer, eu sou muito disciplinado. Faço as refeições na hora certa. Mas ainda assim, o impacto é muito grande”, diz o tucano, que, enquanto dava entrevista para o Jornal da Cidade, comia um sanduíche natural e tomava água de coco.
Mantovani relata que, só na manhã de domingo, participou de uma corrida, seguida de um passeio turístico e de atividades na recreovia da Getúlio Vargas. “Quando não tem isso, sempre aparecem outras atividades físicas ou mesmo as do dia-a-dia”, explica.
Oposto a Fernando, Natalino da Pousada (PV) admite ser sedentário e a rotina de campanha também o fez perder três quilos. Afinal, andar cerca de seis quilômetros por dia faz muita diferença para quem não tem o hábito de praticar exercícios. “A gente fica com a campanha o tempo todo na cabeça. Até mesmo quando estou em casa, saio para conversar com as pessoas do bairro”, conta o vereador.
Sem efeito
Por outro lado, Luiz Carlos Barbosa (PTB) diz que não perdeu peso nos últimos três meses e desconfia, até mesmo, de ter ganhado alguns quilinhos. Ele contou que come bastante durante as visitas de campanha e já tem o hábito de percorrer os bairros.
“Mudei o buraco do cinto”, diz vereador
O presidente da Câmara Municipal, Roberval Sakai (PP), foi o vereador que mais perdeu peso entre aqueles entrevistados pelo Jornal da Cidade. Segundo, ele, a uma semana da eleição, já são sete quilos a menos. O resultado é a calça do terno sobrando e o cinto mais apertado, pois teve que mudar o buraco no qual é fechada a fivela. Agora, a balança marca 85 quilos para o pepista.
Em 2008, ele conta que perdeu cinco quilos e atribui à diferença ao ‘acúmulo de funções’. “Além de candidato, tenho o mandato de vereador e a presidência da Câmara. Venho aqui todos os dias”.
Sakai afirma que, hoje, por exemplo, deve caminhar por seis horas entre os períodos da manhã e da tarde. Nas noites, o pastor faz verdadeiras peregrinações pelas igrejas evangélicas. “Em alguns sábados, vou até a cinco delas”, relata.
Alimentação
Os hábitos alimentares dos candidatos também interferem na perda de peso. O ‘campeão’ da balança, Roberval Sakai, diz que, muitas vezes, por conta da correria da campanha, almoça e janta de uma só vez. “Vira uma refeição só”, brinca.
Fabiano Mariano (PDT) tem cinco quilos a menos do que três meses atrás. Segundo ele, apesar das coxinhas e buchadas de bode, recorrentes na campanha, a alimentação fica extremamente desregulada. O vereador diz que, durante a campanha, anda cerca de dois quilômetros por dia. No dia-a-dia, ele joga futebol por hobby e atua como árbitro de basquete.
Saúde
A agitação da campanha também afetou a saúde dos candidatos a prefeito. Ainda no começo, Chiara Ranieri (DEM) sentiu um mal-estar, inclusive durante o debate realizado pela Ong Bauru Transparente (Batra) e Universidade Estadual Paulista (Unesp). Clodoaldo Gazzetta (PV) ficou sem voz por alguns dias e chegou a ser internado por uma infecção intestinal. Na ocasião, ele perdeu cinco quilos.
Rodrigo Agostinho (PMDB) também não esconde o cansaço, que transpareceu em seu semblante em alguns episódios da corrida eleitoral.