11 de julho de 2026
Bairros

Greve do transporte coletivo entra no 4º dia; audiência será hoje

Tisa Moraes e Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 7 min

JC

Greve do transporte coletivo chega hoje ao quarto dia 

A greve dos transportes coletivos na cidade continua. Pelo quarto dia consecutivo, os pátios das três empresas concessionárias do transporte público em Bauru amanheceram com as frotas de ônibus intactas. Do lado de fora, os motoristas continuam de braços cruzados aguardando o resultado da audiência de concilicação que está marcada para hoje, às 13h30, no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), em Campinas.

Participarão da audiência os representantes do Sindtran, a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) e as três empresas concessionárias, a Grande Bauru, Baurutrans e Cidade Sem Limites.

De acordo com o diretor do sindicato, que organiza o movimento dos trabalhadores na porta das empresas nesta sexta-feira, Luiz Antônio da Silva, os trabalhadores continuarão 100% em greve até que haja uma decisão no TRT.

Em nova tentativa de negociação, ontem, o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo e afins (Sindtran) e a Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb) não chegaram a um acordo e a cidade completou três dias sem ônibus em circulação.

O encontro, inicialmente marcado para a próxima segunda-feira, no TRT, foi antecipado para as 13h30 desta sexta-feira justamente pelo impasse que paralisou uma atividade considerada essencial à população.

Ainda na manhã de ontem, a Transurb e a diretoria do Sindtran sentaram-se à mesa por mais de duas horas, a portas fechadas, na tentativa de firmar um acordo. Segundo o sindicato, a empresa propôs a retomada do serviço em jornadas de 5 horas e meia a 6 horas e meia até a conclusão da audiência de conciliação. Em assembleia realizada na porta do sindicato, a maioria dos motoristas não aceitou a oferta e a paralisação dos coletivos foi mantida.

Eles reivindicavam que a Transurb assinasse documento para oficializar o acordo, o que não teria sido aceito pela concessionária, conforme informou o sindicato. Pouco tempo depois, a empresa enviou nota à imprensa para informar que, em nenhum momento, apresentou proposta de jornada reduzida ao sindicato.

Descompasso

Ressaltou ainda que, durante a reunião, reiterou que os trabalhadores teriam de cumprir o acordo coletivo vigente, bem como a decisão da Justiça do Trabalho com relação ao intervalo de refeição, que é de uma hora para quem cumpre jornadas superiores a seis horas.

Procurado, o sindicato reafirmou que a Transurb havia concordado com a jornada reduzida desde que o atual quadro de profissionais garantisse a operação de 70% da frota nos horários de pico (das 6h às 9h e das 17h às 19h30) e 50% nos demais horários, conforme imposição do TRT.

“Se todos os trabalhadores voltassem a trabalhar para pôr até 70% da frota nas ruas, eles precisariam trabalhar menos, de 5 horas e meia até 6 horas e meia. A empresa aceitou esta condição para que fosse decretado o fim da greve, mas não quis pôr isso por escrito”, considera o assessor da diretoria do Sindtran, Nélio Souza Santos.

De acordo com ele, inicialmente a Transurb argumentou que a jornada de 7 horas e 20 minutos teria de ser mantida até 30 de abril de 2013, data de vigência do acordo coletivo da categoria. Depois, a empresa teria se reunido com acionistas, voltado à mesa de negociação e concordado com a jornada reduzida. A assessoria de imprensa da concessionária, no entanto, nega.

Por conta da manutenção da paralisação, o TRT enviou uma carta de ordem que a Justiça do Trabalho de Bauru constatasse a continuidade da greve e o consequente descumprimento da liminar imposta pelo próprio tribunal na tarde de terça-feira. No despacho, o tribunal adiantou que a desobediência, se comprovada, será investigada na esfera criminal pela Polícia Federal.

Continuidade da paralisação aumenta a tensão entre o sindicato e motoristas

Embora, no discurso, o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo e afins (Sindtran) tenha manifestado apoio à decisão dos motoristas em continuar de braços cruzados, a manutenção da greve aumentou a tensão entre a entidade e a categoria. Revoltados, os trabalhadores se recusaram a voltar ao trabalho, mesmo sob a orientação contrária da diretoria sindical.

Em assembleia realizada na tarde de ontem em frente à sede do Sindtran, o advogado da entidade, Márcio José Machado, nem mesmo conseguiu falar ao microfone para explicar as implicações jurídicas da paralisação que desobedece decisão judicial. Parte dos manifestantes chegou a deixar o local, alegando que o sindicato tentaria transferir aos trabalhadores a responsabilidade jurídica sobre continuidade da greve.

Segundo o presidente do Sindtran, José Rodrigues da Silva, o acordo junto à Transurb (de manutenção da jornada de até 6 horas e meia até hoje) foi conquistado “com muito custo” e não foi reconhecido pela categoria. “Eles estão irredutíveis, mesmo com o nosso pedido para que eles voltem a trabalhar. Não sei se já não se trata de uso político para tumultuar o nosso trabalho, já que estamos em ano de eleição do sindicato. Mas nós fizemos nossa parte”, reclama.

Um dos descontentes, o motorista Daniel Leandro da Silva afirmou que ele e os colegas estavam dispostos a voltar ao trabalho, desde que a Transurb sacramentasse, por escrito, o acordo que teria sido proposto ao sindicato. “O que a gente pede é transparência. Mas o sindicato fez reunião a portas fechadas com a empresa, não deixou a comissão de greve participar. O erro já começa por aí”, opina.

De acordo com o assessor da diretoria do Sindtran, Nélio Souza Santos, cerca de 50 motoristas manifestaram o desejo de voltar ao trabalho, ontem, mesmo sem o documento assinado pela Transurb. Mas, com medo de sofrer represálias por parte da população e dos próprios colegas, teriam desistido.

“Agora, iremos em greve para a audiência de conciliação, desobedecendo a ordem do tribunal. Nossa condição de negociação seria outra se a gente estivesse trabalhando”, afirma. Com opinião divergente, o advogado do sindicato, Márcio José Machado, defende que a entidade deve chegar fortalecida à audiência em Campinas, marcada para hoje.

“Isso mostra que a revolta da categoria chegou a um nível insustentável, porque a jornada prevista legalmente está muito longe da realidade vivenciada pelos trabalhadores. Para eles, não há mais condições de continuar como está”, frisa.

Entenda a greve

Bauru possui, segundo o Sindtran, 560 motoristas e cerca de 18 cobradores. Os motoristas reivindicam jornada de trabalho de seis horas diretas. Atualmente, ela é de sete horas e 20 minutos.

No entanto, desde o dia 2 de agosto, devido a uma decisão judicial transitada em julgado, os funcionários que trabalham mais de seis horas são obrigados a fazer de uma a duas horas de intervalo. Os trabalhadores afirmam que mudança teria ocasionado perda de cerca de R$ 450,00 por mês em horas extras. Apesar da afirmativa, a greve não discute questões salariais, mas de condições de trabalho.

Os motoristas reclamam também que, por conta de questões logísticas e das escalas atualmente ativas nas empresas, alguns fazem intervalos com tempo muito maior ao de duas horas, cumprindo, praticamente, duas jornadas menores, e ficando um longo tempo à disposição das empresas. “Eu entro 6h30 e vou até as 19h40 com os intervalos. É muito tempo, queremos a jornada direta. O intervalo desorganizou nossa escala”, diz um motorista que preferiu não se identificar.

Além dos intervalos, os motoristas alegam ainda que as interrupções para as trocas de linhas ocasionam a perda de muito tempo nas rendições, nas quais os trabalhadores ficariam cerca de meia hora, por diversas vezes ao dia, à espera dos ônibus para realizar as trocas de equipe.

Emdurb impõe 2ª multa à Transurb

A Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) entregou, ontem, nova notificação administrativa à Associação das Empresas do Transporte Coletivo Urbano de Bauru (Transurb) pelo descumprimento da liminar que determina a retomada da operação dos ônibus na cidade. A multa diária foi fixada em R$ 76 mil e a empresa concessionária já acumula R$ 152 mil em débitos pelos dois primeiros dias de paralisação. A Transurb ainda aguarda decisão do Tribunal sobre a ação protocolada pela empresa para reconhecimento de ilegalidade da greve, em que pede ainda o retorno imediato dos trabalhadores, imposição de multa diária ao sindicato, não-pagamento dos dias parados e demais sanções previstas em lei. Conforme o JC apurou, a apreciação, feita por um conselho de desembargadores, pode não ocorrer nesta semana.

Transporte nas eleições

Conforme o JC antecipou na edição de ontem, o Sindtran garantiu junto à Emdurb que os ônibus irão operar normalmente no próximo domingo, quando ocorrem as eleições municipais. Os motoristas cumprirão integralmente a escala elaborada pela Transurb ou Emdurb, que devem seguir tabela diferenciada da de domingo justamente por conta da disputa eleitoral.