09 de julho de 2026
Internacional

Chávez enfrenta hoje seu maior desafio

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

 

Caracas - Em Antímano, uma zona pobre do oeste de Caracas, dois eleitores expõe os motivos pelos quais Hugo Chávez, 58 anos, vai enfrentar hoje nas urnas a eleição mais difícil de seus quase 14 anos de poder na Venezuela. 

 

“Quem não gosta do presidente é quem tem dinheiro. Ninguém fez o que ele fez, com ajuda, casa. As pessoas ficam felizes só de vê-lo”, diz Oscar Rodríguez, 28 anos, ambulante que reflete a visão do Chávez herói dos pobres e alvo de devoção na periferia.

 

Perto dali, à espera de uma van precária, a vendedora Elizabeth Ramírez, 29 anos, matiza o cenário. Ela sempre votou pelo governo, mas pela primeira vez vai votar na oposição. 

 

“Perdi dois irmãos num ano só”, se emociona ela, que quer que o oposicionista Henrique Capriles dê um jeito na delinquência.

 

Chávez venceu na região - parte do Distrito Capital, o miolo da cidade que abriga a sede de governo, o Palácio Miraflores - na eleição presidencial de 2006 com 26 pontos de vantagem, mas viu a margem cair a menos de 2% nas parlamentares de 2010. 

 

O desafio do presidente na votação de hoje, quando quer seu terceiro mandato consecutivo de seis anos, é justamente estancar a sangria de votos em zonas populares urbanas como essa, fenômeno em curso desde 2008.

 

É nessas zonas que aparece o maior problema para o governo: para parte de sua base de eleitores, nem os generosos programas sociais ou o crescimento da economia de 5% neste ano são capazes de neutralizar o desgaste do chavismo com a crise de gestão e a escalada da violência. 

 

A maior parte das pesquisas dão vantagem ao presidente. Mas também apontam o avanço da oposição nas últimas semanas.

 

 

Agenda

 

Chávez, que enfrentou um câncer cujos detalhes permanecem obscuros, dosou aparições da campanha e conseguiu tirar sua saúde do debate. Não pôde, porém, se esquivar das críticas diárias do opositor às falhas nos serviços do governo. 

 

“O candidato do governo diz que quer a paz mundial, mas quem cuida da paz dos venezuelanos? Independência para a mãe de família é que seu filho volte para casa vivo”, disse Capriles, ironizando a grandiloquência do adversário, que tornou a Venezuela um ator relevante na geopolítica regional.

 

“Em 2006, Chávez  era um rei. A economia crescendo, uma oposição destruída, o país que não estava nas condições de infraestrutura que está agora”, diz Alonso Moleiro, colunista do jornal opositor “Tal Cual”.

 

Seis anos depois, Moleiro segue, o presidente se enfrenta com uma oposição cuja cúpula defende a democracia - sem as aventuras golpistas do passado - e é defensora da Constituição proposta e aprovada por Chávez em 1999.

 

“Foi um aprendizado que custou caro. Mas a oposição entendeu que ou o país é para todos ou não é para ninguém”, afirma.

 

Não por acaso Capriles, 40 anos, do centro-direitista Primeiro Justiça, apresenta-se como um  “progressista” pragmático que quer seguir o “modelo brasileiro”, de gasto social com incentivo ao investimento privado.

 

Contra o pouco espaço na TV ante as cadeias obrigatórias que o presidente seguiu fazendo durante a campanha (não há horário eleitoral gratuito no país), o opositor repetiu uma estratégia que o próprio Chávez usou em 1998, em sua primeira campanha: repetiu em quase 300 cidades que não acabará com os programas sociais do governo.

 

Já Chávez diz que precisa vencer para levar sua revolução a “um ponto irreversível”.

 

Se o presidente vencer, os analistas não esperam mais mudanças na área energética - o país das maiores reservas do mundo de petróleo precisa do investimento das multinacionais privadas para financiar o socialismo. Preveem mais centralização de poder e esvaziamento de prefeituras e governos estaduais.

 

Se Capriles ganhar, é difícil imaginar uma transição suave: Chávez tem aliados na Corte Suprema de Justiça até 2020, o Congresso pelo menos por mais um ano e meio e um punhado de generais, incluindo o ministro da Defesa, lhe jurando lealdade.