08 de julho de 2026
Articulistas

Desculpem-me, sim?

Munir Zalaf
| Tempo de leitura: 2 min

Para situações difíceis, existe o verbo "desculpar". Seu uso é constante. Resolve casos. Justifica ou atenua atitudes. Evita zangas para quem pede e para quem aceita. Também é arma de dois gumes. Pode complicar. Se o pedido de desculpa é digno ou falso. Pedir desculpas é a coisa mais fácil do mundo. Porém, revela a sinceridade de quem pede? Afrontar e depois pedir desculpas é de caráter confiável? Lograr, trair, iludir e depois da escusa a ferida provocada cicatriza? A dignidade ultrajada se desagrava com um pedido de absolvição? Às vezes por questão de bom senso ou para evitar lances é acolhido apenas para encerrar uma questão. No entanto, o sentimento de quem o aceitou sente enfraquecida ou não a sua paz interior? Abala amizades. Desgasta a confiança. É mais difícil aceitar um pedido de desculpas a pedi-lo. Pode soar como uma defesa, uma aleivosia ou como se diz, uma desculpa esfarrapada.

Benjamin Franklin (1706-1790) escreveu que "Pessoas que são boas em arranjar desculpas raramente são boas em qualquer outra coisa".

Imaginá-las como o céu a disfarçar estrelas? Como a chuva a abluir e negar o gostoso cheiro da terra molhada? Ou um espetáculo que se encerra ao se fecharem as cortinas e cai no esquecimento do solicitante embrulhado no seu cinismo?

Um pedido de desculpas em qualquer situação pode deixar a incerteza eterna.

- Sabe, amigo, não tive a intenção de magoar ou de prejudicá-lo. Você me desculpa?

Foi "sem querer querendo". E ainda se declara amigo! Se o rogo entendido nobre, reconhecê-lo e olvidar o fato que o motivou com um abraço. No entanto se os olhos falsearem... Quem se desculpa com brio olha nos olhos, tem a palavra e as mãos firmes. Os lábios não vacilam. As mãos não se agitam desordenadas. O desempenho corporal permite a leitura da verdade ou da mentira.

Fulano desculpa-se por um ato planejado à procura de benefícios pessoais. Beltrano pede desculpas pela burrada que cometeu. Filhos agridem pais com palavras e chorando pedem desculpas, e logo voltam à mesma cena. (Já sabidas tantas vezes!) É simples aceitar aos pedidos. Mas o amor-próprio fica enxovalhado. As lágrimas na solidão respondem. A dor não pede e não aceita desculpas. O homem não nasceu para pertencer a si mesmo. Veio ao mundo para ser solidário, para se doar sob o signo da verdade. Sem desculpas esfarrapadas. Perdoem-me por lembrar que um pedido mentiroso de desculpas machuca mais do que o ato que o provocou.


Munir Zalaf, escritor e palestrante, membro da ABLetras