Duas pessoas foram vítimas de sequestros-relâmpago, em Bauru, em um intervalo de cerca de 4 horas. Os crimes foram registrados entre a noite de anteontem e madrugada de ontem e vitimaram um empresário de 46 anos e uma estudante universitária de 23 anos.
Ambos foram rendidos em seus veículos, mas, apesar de perder bens materiais, não sofreram ferimentos. Apesar da proximidade das ocorrências, está descartada a hipótese de os crimes terem sido praticados pela mesma quadrilha.
No primeiro registro, o proprietário de uma casa de carnes localizada na avenida Nossa Senhora de Fátima foi abordado pouco depois de fechar as portas do estabelecimento, por volta das 20h10 de anteontem. Ele foi surpreendido por três homens e uma mulher, que foram presos posteriormente na região de Araçatuba.
O grupo estava armado com uma faca e um revólver e renderam o empresário quando ele entrava em sua caminhonete, uma Hilux de cor preta. A vítima conta que foi obrigada a ficar no banco de trás do veículo, enquanto um dos bandidos assumiu a direção, seguindo até um matagal nas imediações do Residencial Parque dos Sabiás, no Parque Viaduto.
Um dos assaltantes teria seguido como “escolta” em um Fox de cor branca. “Eles adentraram uns 600 metros em uma estrada de terra. Colocaram aquelas algemas plásticas nos meus pulsos e me amarraram em uma árvore com uma corda que eu tinha na caminhonete”, relembra a vítima.
De acordo com o empresário, os assaltantes teriam deixado o local por volta das 21h30 e ele só conseguiu se soltar duas horas e meia depois, por volta da meia-noite. “Não consegui tirar as algemas e fui caminhando com as mãos para trás em direção à luz do condomínio, desviando das cerca de arame farpado, até conseguir pedir socorro a um porteiro”, relembra.
Além da Hilux, a quadrilha levou o aparelho celular da vítima e a carteira com cerca de R$ 100,00, documentos pessoais e quatro cartões de crédito. Embora a vítima tenha sido obrigada a informar todas as senhas bancárias, ainda não se sabe se alguma quantia foi sacada das contas. Horas depois do sequestro-relâmpago, os quatro assaltantes foram presos em flagrante com a Hilux em Valparaíso (238 quilômetros de Bauru), na região de Araçatuba.
Atalho de terra
No segundo caso, registrado por volta da meia-noite, uma estudante universitária de 23 anos foi surpreendida por quatro jovens enquanto transitava com seu Renault Clio pelo prolongamento da avenida Chaim Mauad, num atalho de terra que dá acesso à avenida Getúlio Vargas. A quadrilha havia interditado a passagem com um pedaço de tronco de árvore e a jovem acabou sendo rendida.
“Eu tentei dar ré, mas não conseguia enxergar o caminho. Fiquei com medo de acelerar e acabar caindo em algum barranco. Entrei em pânico e, como eles começaram a bater nos vidros, tive que sair do carro”, relembra a estudante.
Os quatro criminosos estavam encapuzados e armados com um revólver e uma espingarda. Eles a obrigaram a entrar no porta-malas do veículo e a abandonaram em uma clareira, nas imediações de um estabelecimento comercial localizado na altura do quilômetro 234 da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP- 225), a Bauru-Jaú.
“Um deles tirou os cadarços dos tênis e amarrou minhas mãos e pés. Também usaram um tecido para me amordaçar. Fiquei com muito medo, principalmente quando um deles começou a falar sobre camisinha. Foi o pior momento da minha vida”, revela.
Faróis apagados
A estudante universitária conta que os assaltantes levaram R$ 160,00 em dinheiro, um notebook, uma câmera fotográfica e um óculos de sol. Documentos e cartões bancários foram deixados com ela.
Os criminosos fugiram com o Clio com os faróis apagados para não despertar atenção até retornarem à rodovia.
“Assim que eles saíram, consegui afrouxar os cadarços e me soltar. Fiquei andando uma hora e meia, mais ou menos, até encontrar ajuda (em um estabelecimento comercial)”, comenta. Na manhã de ontem, um Renault Clio de cor preta chegou a ser encontrado abandonado na região do Jardim Ouro Verde, mas não era o veículo da vítima.
O carro, assim como a quadrilha, não haviam sido localizados até o fechamento desta edição. As investigações correm sob responsabilidade da Delegacia de Investigações Gerais (DIG). De acordo com o delegado titular da unidade especializada, Kleber Granja, ainda não há pistas sobre a identidade dos criminosos.
“Fiquei duas horas e meia tentando me soltar”
JC - Os assaltantes chegaram a agredi-lo?
Empresário - Não. Eles só ameaçaram quando pediram as senhas das minhas contas bancárias. Disseram que, se eu desse informação errada, eles iriam “perder a boa” comigo.
JC - Você foi amarrado a uma árvore. Como você conseguiu se livrar?
Empresário - Calculo que eu tenha ficado duas horas e meia tentando me soltar. Estou com as pernas todas doloridas por causa da força que tive que fazer.
JC - E como conseguiu encontrar ajuda?
Empresário - Fiquei com as mãos algemadas para trás, então não conseguia passar pelas cercas de arame farpado. Mas fui devagar, desviando e seguindo em direção à luz do condomínio (Parque dos Sabiás). Passei a placa da caminhonete para a polícia e, pouco tempo depois, o grupo foi preso.
“Foi o pior momento da minha vida”
JC - Aquela estrada de terra não é segura. Sempre usou aquele atalho?
Estudante - A gente acha que nunca vai acontecer com a gente. Sempre usei aquele caminho para ir à casa do meu namorado, porque é mais rápido. Agora, nunca mais.
JC - E como foram estes momentos de tensão?
Estudante - Eles me mandaram entrar no porta-malas e consegui abrir o tampão para ver para onde eles estavam me levando. Quando foram para a rodovia, temi que o pior pudesse acontecer.
JC - Você achou que iria morrer?
Estudante - Na verdade, eles riam. Todos eram jovens e senti que, para eles, aquilo era uma aventura. Mas, quando um deles começou a falar para outro que deixaria eu escolher se usaria camisinha feminina ou masculina, foi o pior momento da minha vida. Graças a Deus, o líder, que estava mais calmo, tomou a frente e disse que não iria acontecer nada.
Quadrilha foi presa após pedir informação a policial à paisana
A quadrilha que rendeu um empresário em Bauru foi presa depois de parar em um posto de combustíveis e pedir informações a um policial militar (PM) que trabalha como segurança no estabelecimento e estava à paisana. Rogério de Brito Silva, 25 anos, William Washington Marques da Silva, 21 anos, Michel Adan Rocha, 24 anos, e Merilyn Emílio, 25 anos, foram presos em flagrante.
Depois de efetuar o sequestro-relâmpago em Bauru e abandonar o empresário amarrado em uma árvore, eles seguiram para a rodovia Marechal Rondon, sentido Capital-Interior, com a Hilux da vítima e o Fox de cor branca da quadrilha. No meio do caminho, pararam em um posto de combustíveis para pedir informações sobre como chegar a Valparaíso (238 quilômetros de Bauru), na região de Araçatuba.
A suspeita é de que eles levariam a caminhonete para o Mato Grosso do Sul ou mesmo para o Paraguai. Mas, para azar do grupo, o segurança com quem conversaram é um policial militar que trabalhava fora do horário de serviço.
“Ele começou a desconfiar. Eram todos tatuados e estavam em uma Hilux, de madrugada, pedindo informações sobre um lugar que, aparentemente, nenhum deles conhecia”, ressalta o delegado de Valparaíso, Josival Amaro da Silva.
Depois de conversar com o quarteto, o policial acionou os colegas da PM, que detiveram o grupo por volta da 1h30 da madrugada, no quilômetro 576 da rodovia Marechal Rondon, altura do trevo de acesso a Valparaíso. Todos eram moradores de Bauru e negaram o crime, mas foram presos em flagrante.
Rogério e Michel já tinham passagens pela polícia. Os dois, assim como William, foram encaminhados à Cadeia Pública de Penápolis. Já Merilyn foi levada à Cadeia Pública Feminina de General Salgado. A Hilux, documentos pessoais e cartões de crédito foram devolvidos à vítima.
Roubo em Lençóis pode ter conexão
A Polícia Civil investiga se um assalto registrado em Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) foi praticado pela mesma quadrilha que rendeu a estudante universitária, na madrugada de ontem. A conexão reside no fato de o crime também ter sido praticado por quatro homens encapuzados e armados, aparentemente, com um revólver e uma espingarda.
O grupo, de acordo com uma testemunha, fugiu em um Renault Clio, que a polícia acredita que possa ser o veículo da vítima do sequestro-relâmpago ocorrido em Bauru. O alvo em Lençóis, no entanto, foi um hotel localizado às margens da rodovia Marechal Rondon.
Segundo informações do delegado Renzo Barbin, a recepcionista do estabelecimento foi rendida e teve R$ 200,00 e o aparelho celular roubado. Os ladrões também levaram um computador, uma TV e R$ 180,00 do caixa. “Como eles fugiram em um Clio, eram quatro homens e usavam armas semelhantes, é possível que possa ter relação com o roubo em Bauru. Imagens do circuito interno de segurança já estão sendo analisadas. Embora eles estivessem encapuzados, estamos em busca de características que possam, posteriormente, identificá-los”, frisa.