10 de julho de 2026
Polícia

Caso Vitória: assassino confesso não terá testemunhas de defesa

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

Uma família destruída, um advogado de defesa que teme sua própria segurança, a vontade de fazer justiça com as próprias mãos e muita comoção. Esse foi o cenário da primeira audiência do caso envolvendo a morte da pequena Vitória Graziela Fernandes, 6 anos, realizada ontem. Em meio às testemunhas ouvidas, nenhuma de defesa. E será assim em um provável júri.

A garota sumiu no dia 30 de abril no bairro Fortunato Rocha Lima. Quando foi vista pela última vez, ela brincava com alguns amigos na casa de uma vizinha. Desde o sumiço, as suspeitas se voltaram a Renato Alexandre Cury Martinelli, 33 anos.

Dois dias depois, o suspeito foi encontrado em Guainás (28 quilômetros de Bauru). No fim do dia, ele confessou que matou a garota e carbonizou seu corpo no Parque Manchester.

Ontem, foi realizada a audiência de instrução processual do caso. O juiz da 4.ª Vara Criminal, Ubirajara Maintinguer, ouviu oito pessoas. Entre elas estavam os pais de Vitória, vizinhos, o delegado Kleber Granja - responsável pelo inquérito - e uma menina de 5 anos, que também mora no bairro.

“Eu queria que ele fosse absolvido. Se isso acontecesse, sei que ele não iria viver um dia a mais”, afirma o pai da garota, Edilso Fernandes, 43 anos. Com a foto da filha estampada na camiseta, ele demonstra que nem a tristeza e nem a raiva acabaram.

Ao ver Renato subindo as escadas, Edilso conta que suas pernas bambearam. “Não consegui levantar”. A mãe da vítima, Gislene Aparecida Lopes, 33 anos, só chorava. Na parte externa do Fórum, as lágrimas deram lugar à revolta. “Tenho vontade de matar esse covarde”, gritava a mulher, abraçada com outra testemunha.

Se lá fora o clima era de comoção, dentro era silêncio. Silêncio causado pelo segredo de Justiça ao qual o caso foi submetido. Todos foram ouvidos um a um na audiência que demorou cerca de três horas.

 

Insanidade?

Ao fim, nenhuma decisão. O advogado de defesa - que teve o nome preservado pela reportagem - pediu um laudo psiquiátrico para Martinelli. A principal linha é alegar a insanidade do autor confesso do crime.

De acordo com o juiz Ubirajara Maintinguer, o exame deve ser feito em 30 dias e, depois, será analisado por ele dentro de outras 72 horas. Dependendo do grau de insanidade apontado no laudo, será decidido o próximo passo. Entretanto, como a insanidade é a principal, mas não única linha de defesa, o destino de Alexandre Martinelli deve ser mesmo o júri popular.

No julgamento, nenhuma testemunha de defesa será arrolada. Além de conseguir atenuar a pena com a comprovação da insanidade, o advogado de Renato Martinelli quer retirar a acusação de estupro.

No fim da tarde, o acusado voltou para Iaras, onde está preso. Já a família foi para casa na expectativa de um ponto final à tragédia. “Esperava que tudo acabasse hoje. Apesar disso, sei que é uma dor que nunca vai ter fim”, disse, ao ser informada da continuidade do processo, a mãe de Vitória, Gislene Lopes.

 

Versão diferente

De acordo com o que o JC apurou, Renato Martinelli teria dado uma versão diferente ao juiz ontem. Na sua história, ele coloca até um amigo que teria ajudado a ocultar o corpo da menina.

Na versão do acusado, ele estaria com Vitória Graziela de carro quando ela falou ao telefone. A garota teria dito a Renato que seu pai mandou avisar que iria matá-lo. Foi quando o acusado surtou, espancou a criança e a sufocou.


Na história de ontem, ele diz ainda que pediu ajuda a um pai de santo. Esse homem teria ajudado a ocultar o cadáver. “Esse pai de santo foi investigado e nada foi constatado. As investigações não apontam isso”, rebate o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja.

 

Após agressão, tentativa de homicídio será apurada

Uma auxiliar de limpeza de 48 anos, - que teve a identidade preservada bem como as outras partes -, foi presa em flagrante na tarde de anteontem após agredir seu ex-companheiro, um pedreiro de 46 anos, com um galho, no Centro de Bauru. Com um vasto histórico de supostas autorias de ameaças, na noite deste domingo ela tirou a arma do coldre de um policial e apertou o gatilho. O tiro foi a esmo (leia mais ao lado).

Segundo informações do boletim de ocorrência (BO), era por volta das 17h30 quando policiais militares realizavam patrulhamento de rotina e foram acionados para atender  uma ocorrência de agressão no cruzamento das ruas Araújo Leite e Inconfidência. Quando chegaram ao local, avistaram a vítima caída, toda ensanguentada. A mulher estava do outro lado da calçada.

Indagada pelos policiais sobre o motivo da agressão, a auxiliar de limpeza disse que, recentemente, ficou sabendo que o pedreiro havia estuprado sua filha. No entanto, esse fato teria ocorrido há aproximadamente oito anos.

Por isso, conforme seu relato, na ocasião, ela desceu do ônibus e, quando avistou a vítima, pegou um pedaço de galho que estava no chão e desferiu golpes contra o ex-companheiro, com quem teria mantido um relacionamento estável há algum tempo.

A vítima foi levada ao Pronto-Socorro Central (PSC) com graves ferimentos na face, em decorrência da agressão. O médico que o atendeu na unidade de saúde informou aos policiais, conforme apurado junto ao BO, que o pedreiro sofreu quatro cortes na cabeça, fraturas no rosto, nos ossos da face, nos braços e lesões gerais por todo o corpo.

 

Julgamento

Presa em flagrante por tentativa de homicídio qualificado, a mulher foi apresentada ao Plantão Policial de Bauru, onde a autoridade plantonista ratificou o flagrante delito. Posteriormente ela foi encaminhada à Cadeia Feminina de Pirajuí, onde deve permanecer até segunda decisão judicial. O caso foi encaminhado ao 2º Distrito Policial (DP) de Bauru mas, como se trata de flagrante, a denúncia já foi apresentada à Justiça.

“Ela tem históricos como sendo autora de ameaças, mas este é outro caso. O que será apurado agora é a tentativa de homicídio. Como se trata de um flagrante, não será instaurado inquérito e ela irá para julgamento. Até o momento ela segue presa”, explicou o delegado titular do 2º DP, Silberto Sevilha.

Com relação ao possível estupro da filha, o delegado explica que isso será decidido no julgamento. “Todos são motivos de agravantes, até porque se nós imaginarmos que ele realmente teria cometido esse delito cabe à Justiça a aplicação da pena. Vamos imaginar que, em tese, o estupro realmente aconteceu. Para nós, nesta fase, não importa. O inquérito tende a apurar a conduta do agente. Não compete a nós provarmos que foi essa a motivação dela”, esclareceu Sevilha.

No final da tarde de ontem, o JC apurou junto ao Hospital de Base que a vítima foi atendida apenas no PSC e liberada em seguida.

 

Com a arma da PM

Na noite deste domingo, antes da agressão, a auxiliar de limpeza acionou a Polícia Militar (PM) porque, apesar de estarem separados, ela e o seu ex-companheiro, o mesmo agredido por ela ontem, já estariam em conflito. No momento em que os policiais abordaram os dois com o objetivo de pacificá-los, inesperadamente a mulher sacou a arma do coldre de um dos policiais.

Ela teria oferecido resistência para soltar o revólver. O policial tentou evitar que ela disparasse a arma, mas a mulher acabou apertando o gatilho. Por sorte, o tiro foi a esmo e ninguém se feriu.

O crime de disparo de arma de fogo teve fiança arbitrada pela autoridade plantonista, segundo o BO, tendo em vista que o fato ocorreu dentro do período de 48 horas depois do encerramento da eleição, o que teria tornado o crime afiançável. Por isso a mulher não foi presa na ocasião.

Conforme o artigo 236 do Código Eleitoral, nenhuma autoridade pode, desde cinco dias antes até 48 horas depois do encerramento da eleição, prender ou deter qualquer eleitor, salvo em flagrante delito ou em virtude de sentença criminal condenatória por crime inafiançável.

O delegado titular do 2º DP, Silberto Sevilha, explica que os dois boletins de ocorrência foram anexados em um mesmo relatório, que será encaminhado à Justiça.