08 de julho de 2026
Geral

Túnel: coincidência ou mesmo bando?

Vitor Oshiro com Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Qual a ligação entre dois crimes separados por mais de 300 quilômetros de distância? É a pergunta que a polícia passou a fazer após um sofisticado assalto frustrado na Capital anteontem e que terminou com três mortos. Tanto o modo de operação quanto o alvo dos bandidos eram os mesmos do túnel criminoso cavado sob a Nações Unidas, em Bauru, no início do ano passado.

O crime daqui é um dos mais misteriosos dos últimos tempos. Por meio de galerias, os ladrões fizeram dois túneis para invadir a empresa de segurança e transporte de valores Protege. Por sorte, os acessos foram descobertos em fevereiro de 2011 antes da ação. Mesmo assim, ninguém foi identificado ou preso até hoje (leia mais ao lado).

Neste fim de semana, um crime muito semelhante foi registrado em Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo. Uma quadrilha armada tentou invadir a mesma empresa de segurança. A ação, frustrada pela Polícia Militar (PM), terminou com três bandidos mortos e um preso.

Vários pontos convergem entre os dois casos. Além de o alvo ser exatamente o mesmo, os bandidos usaram galerias para completar as escavações subterrâneas. “É muito prematuro afirmar algo. Porém, o modo de operação é semelhante. Não descartamos nada, mas, também não podemos fazer qualquer afirmação”, pondera o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja, responsável pelo caso em Bauru.

Nas duas escavações, a estrutura sofisticada com esquemas de oxigênio e de iluminação surpreendeu os policiais. “É algo de pessoas que sabem o que estão fazendo”, complementa Granja.

Ontem, a DIG de Bauru levantou as fotografias dos envolvidos no crime da Capital. O próximo passo é tentar um reconhecimento fotográfico de moradores próximos da casa onde funcionava o “Quartel-General” do bando, uma residência localizada na rua Doutor Enéas de Carvalho Aguiar, 1-75.

 

Em comum

A Delegacia de Roubos a Bancos do Departamento de Investigações sobre Crime Organizado (Deic), da Polícia Civil, é quem vai investigar o crime ocorrido em São Paulo. Ontem, porém, os responsáveis pela apuração não puderam afirmar se haveria qualquer hipótese que ligava o caso com o túnel criminoso da Nações Unidas, em Bauru.

De acordo com o que a reportagem apurou, o único suspeito capturado vivo teria envolvimento com outro roubo à empresa de valores. Os indícios preliminares eram de que a ação da quadrilha seria na Capital e na grande São Paulo.

O delegado seccional de Bauru, Marcos Mourão, foi convergente às ponderações da DIG. Para ele, uma relação não pode ser descartada, porém, por conta da prematuridade, é necessário haver cuidado.

“Não há nada de concreto, entretanto, é uma hipótese que devemos considerar. É uma situação nova. Não podemos dar detalhes dessa investigação, entretanto, o que posso dizer é que é algo novo a ser apurado”, conclui Mourão.

 

Crime cá...

A investigação do caso em Bauru começou em 3 de fevereiro. Na ocasião, funcionários da prefeitura, ao consertar um buraco, localizaram na quadra 3 da avenida Nações Unidas um túnel com 30 metros de extensão. A obra foi feita por criminosos e partia da galeria pluvial abaixo do canteiro central, terminando na empresa de segurança e transporte de valores Protege.

A polícia informou que havia várias entradas públicas possíveis para a galeria, como a do próprio rio Bauru, localizada na avenida Nuno de Assis. Entretanto, no dia 17 foi descoberto um segundo túnel. Dessa vez, a obra partia de uma casa e terminava na quadra 2 da Nações Unidas, a cerca de 150 metros de distância da Protege. Pelas posições das travas, foi possível saber que essa era a rota pela qual os bandidos acessavam a galeria.

No dia seguinte, ao percorrer essa nova escavação de aproximadamente 150 metros de comprimento, foi localizado o imóvel utilizado pelos bandidos como ponto de origem do túnel: uma casa construída pelos criminosos e que funcionava como “Quartel-General” dos bandidos.

Além de ninguém ter sido preso até agora, outro problema é que o túnel nunca foi tapado. Em agosto do ano passado, o JC revelou, com exclusividade, que o laudo da Polícia Científica apontou riscos de desabamentos nas residências que estão sobre as escavações.

 

...crime lá

Em São Paulo, o crime foi descoberto com os bandidos já dentro do cofre da Protege. Os funcionários notaram a ação criminosa e acionaram a polícia. As Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota) e o Comando de Operações Especiais (COE) surpreenderam a quadrilha.

Os bandidos trajavam roupas de mergulho para cometer o crime. Eles transportaram o dinheiro em botes e tentariam fugir em um ônibus, que estava estacionado sobre um bueiro nas proximidades.

Ao chegarem, as tropas especializadas da Polícia Militar (PM) entraram em confronto com os bandidos. Ricardo Pereira dos Santos, 36 anos, e Marcos Oliveira Amaro morreram na troca de tiros com os policiais. Na tentativa de fuga, outro bandido foi atropelado pelo ônibus.

Marcelo Adelino Moura foi o único detido com vida. Porém, a polícia informa que, ao todo, o bando era composto por cerca de 15 a 20 homens.

Os bandidos estavam fugindo com aproximadamente R$ 14 milhões. A quantia foi recuperada pela polícia.

 

Polícia cogita um ‘know-how’ criminoso

Apesar de todas as semelhanças, a Polícia Civil de Bauru é bastante cautelosa em fazer qualquer ligação entre os dois crimes. Para o titular da DIG, Kleber Granja, um “know-how” pode explicar o motivo de tantas convergências.

“Nos dois casos, as ações são bem sofisticadas. É coisa de especialista. Porém, não é possível liga-los nesse momento. Pode ter havido um ‘know-how’ criminoso para esse tipo de crime”, aponta o delegado.

Segundo a polícia, o bando que agiu este fim de semana na Capital é ligado aos mesmos ladrões que furtaram R$ 164,7 milhões do Banco Central de Fortaleza, em 2005, e que planejaram o roubo às agências do Banrisul e da Caixa Econômica Federal de Porto Alegre em 2006. Sobre Bauru, nada foi dito.

A Protege foi acionada para comentar a ligação entre os dois casos que tinham como alvo a empresa. Porém, a assessoria de comunicação afirmou que, como a investigação policial ainda está em curso, não teria essa informação.