Com todo o respeito ao prof. Zarcillo Barbosa, endereçamos esta carta para declarar que não compactuamos com a ideia de que os santinhos utilizados nas campanhas eleitorais sobrevivam por muito mais tempo, segundo opinião expressa por ele no JC, em 14/10. Além do desperdício de recursos e transtornos que causam à circulação de pessoas e à limpeza urbana, esse tipo de mídia foi inclusive responsável pela morte de uma eleitora em Bauru. Segundo o professor Zarcillo, o fator "ecológico" e questões como "sustentabilidade" são argumentos bons enquanto slogans, mas não garantem votações expressivas. Curiosamente, a distribuição de santinhos também não. Haja vista a enorme quantidade de santinhos de determinados candidatos, fartamente distribuída de forma criminosa em inúmeras zonas eleitorais, cujos resultados redundaram aos mesmos em pífia votação.
Em Bauru, nossa agência deflagrou campanhas via SMS para dois candidatos. Ambos eleitos e cientes de que o papel dessa mídia foi decisivo. Aliás, não podemos deixar de mencionar que até mesmo o candidato proprietário de empresa de distribuição de panfletos teve votação irrisória, bem como a candidata proprietária de uma gráfica. Importante enfatizar que, ao contrário do derrame criminoso dos santinhos de papel nos locais de votação, as campanhas via SMS são absolutamente legais. Para quem pesquisa as novas tecnologias da informação e da comunicação e suas possibilidades publicitárias, é importante reconhecer que os santinhos digitais encontram um público novo e aficionado por novas tecnologias, em um mercado de 257,9 milhões de celulares, segundo dados de agosto de 2012, divulgados pela Teleco. Campanhas via celular já estão sendo utilizadas para ações de marketing promocional, institucional e político, por meio de SMS, MMS, mobile pages ou QR-Codes.
Diante do triste episódio ocorrido em Bauru, lembremos que tanto em Osasco como em Ribeirão Preto os próprios eleitores recolheram o lixo das campanhas. Em Osasco, toneladas de santinhos recolhidos foram depositadas em frente à câmara municipal em protesto contra a sujeira e em Ribeirão Preto estudantes de Direito acionaram o Ministério Público, solicitando providências diante do ilícito. Para os futuros candidatos, portanto, quer o termo "sustentabilidade" ou a expressão "ecologicamente correto" encontre ressonância no repertório ideológico dos mesmos, ou não, mais prudente seria pensar seriamente sobre isso. Ousamos dizer que as novas gerações estão seriamente preocupadas com a saúde do meio ambiente e com os recursos que terão para sobreviver, enquanto que a geração que a antecede, lamentavelmente, se ocupa em cristalizar práticas predatórias, sem se dar ao trabalho da reflexão consequente.
Esperançosos de que esse quadro se transforme, lembramos ainda que o país se prepara para implementar a Nova Política Nacional de Resíduos Sólidos. A mesma determina que o poluidor é o responsável pelo lixo que produz. Será que essa será apenas mais uma lei que "não vai pegar", no país do "jeitinho"? Optaremos, então, por transformar o país dos mais valiosos e numerosos recursos naturais e biodiversidade do planeta em um gigantesco aterro sanitário, somente? É preciso rever nossas práticas continuamente e exigir que ideias mais ventiladas passem a fazer parte das plataformas daqueles que nos representam, pois compactuar com o novo implica em abandonar, definitivamente, aquilo que para a coletividade só causa prejuízos. Compactuar com o novo implica, portanto, observar e exigir o cumprimento da lei neste caso, regra básica e fundamental para o exercício da cidadania.
Jorge Luiz Maskalenka