09 de julho de 2026
Cultura

Uma guerreira dos pincéis

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 3 min

João Rosan

Daniela Caburro e suas telas foram uma das principais atrações do primeiro dia da Mostra de Arte Sem Barreiras

Olhares adultos e infantis, todos curiosos, fascinados e voltados para a demonstração de pintura da artista plástica Daniela Caburro, prova viva de que a arte supera qualquer barreira, como as limitações físicas de movimentos. Detalhe: ela pinta com a boca! Esse foi um dos cenários marcantes da abertura oficial da 18ª Mostra de Arte Sem Barreiras, ontem, no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”, em Bauru. As atrações seguem até o próximo dia 28, a exemplo da exposição de Caburro, que poderá ser apreciada até esta data na Galeria Angelina W. Messenberg (confira a programação completa no quadro).

Figuras humanas, paisagens e cavalos fazem parte do repertório que encantam e inspiram a artista e estão à mostra na exposição. “Gosto do movimento, dos olhares e das expressões da figura humana. Já quando pinto cavalos, a sensação que tenho é de liberdade. É como se eu estivesse cavalgando”, relata.

Para Caburro, a arte é a maior realização de sua vida. “Tive pessoas que acreditaram e que acreditam em mim, principalmente minha família e minha professora Mara Toledo. Jamais imaginei que pudesse ir tão longe. E quero mais”. A artista também ministra oficinas e workshops.

Além de pintora, ela também é webdesigner do seu próprio site, www.danielacaburro.com.br, e de outros quatro sites que administra. Ela tem alguns de seus trabalhos reproduzidos em cartões e calendários do Brasil e exterior.

 

Transformação

Daniela Caburro nasceu em 1971 em São Carlos, cidade em que ainda reside. Por volta dos oito meses de vida, mesmo tendo tomado as vacinas, teve uma febre muito alta causada pela poliomielite, doença também conhecida como paralisia infantil, que a deixou tetraplégica. “Entretanto, meus pais, com muita fé em Deus, fizeram com que minha vida fosse feliz, livre de preconceitos e cheia de sonhos”, lembra.

A menina que nunca parou de sonhar estudou somente até a 5ª série porque sentia dores terríveis por ficar muito tempo sentada na mesma posição durante as aulas. Mas ela nunca se conformou por ter parado de estudar e retomou os estudos através do Telecurso.

“Um sonho que sempre me acompanhou foi o de pintar quadros e, por meio deles, colocar para fora o que tenho de mais bonito”, confessa. Sonho este que foi realizado em 1995 com as aulas gratuitas de pintura oferecidas pela professora Mara Toledo. “Ela confiou em mim e não viu a minha deficiência”.

De lá para cá, foram dezenas e dezenas de quadros pintados, expostos e vendidos, inclusive em seu site. “A pintura mudou minha vida. Embora não seja fácil viver da arte, hoje eu consigo manter as minhas coisas e até ajudar a minha família”.

Caburro pinta até três quadros paisagísticos em menos de três meses. Já um retrato humano pode levar de quatro a cinco meses para ficar pronto. Diariamente, ela passa quatro horas pintando. No início, o pincel era preso com os dentes, mas hoje ela usa um dispositivo que evita as dores causadas por aquele método. 

 

APBP

A artista plástica é integrante da Associação dos Pintores com a Boca e com os Pés (APBP), associação internacional que apoia os artistas com deficiência física proporcionando bolsas de estudos. O site da APBP é o www.apbp.com.br.

 

Contatos com Daniela Caburro podem ser feitos pelos telefones (16) 3307-1497 e (16) 9216-3357 e e-mail dani@danielacaburro.com.br.

 

‘Menina de Arte’

O exemplo de superação de Caburro é tamanho que ela recebeu o título de Cidadã Benemérita de São Carlos e teve sua biografia publicada pela jornalista Hebe Rios do Carmo. Através do livro lançado pela Editora da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), a artista pretende ver uma peça teatral montada. “Também quero conhecer a Europa e pular de paraquedas, que é um outro sonho”, finaliza com bom humor.