08 de julho de 2026
Política

Presídio interfere na rede e seca distrito

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 4 min

Qual o prejuízo de empresas que são submetidas a dias e dias sem água? Cerca de oito delas, instaladas na parte mais alta do Distrito Industrial 3, terão que fazer essas contas. Desde a semana passada, elas tiveram o abastecimento prejudicado por conta de manobras na rede de água. De acordo com o Departamento de Água e Esgoto (DAE), essas intervenções foram feitas sem autorização pelo Centro de Detenção Provisória (CDP).

Representantes da unidade penitenciária teriam fechado registros da rede que liga o poço da autarquia, localizado na Fazenda do Pires, aos poços do CDP e do Centro de Progressão Penitenciária 3 (CPP 3), antigo Instituto Penal Agrícola (IPA).

A atitude teria sido motivada por problemas no poço do CDP e o objetivo era levar para sua unidade a água produzida no IPA. Acontece que, como o sistema é integrado, essa água poderia cair antes no ramal do Distrito Industrial 3. Por isso, o fechamento do primeiro registro.

Essa mesma água poderia continuar o fluxo no sentido da adutora principal, em direção ao poço do DAE, levando o CDP a fechar o segundo registro, bloqueando, completamente, a entrada de água no encanamento que chega ao distrito. (Veja no infográfico abaixo)

Essa rede integrada foi construída em 2009, quando o poço do DAE sofreu problemas e a autarquia formalizou convênio com o Estado para abastecer o distrito com a água produzida no antigo IPA. Com a pendência do poço municipal solucionada, as empresas deixaram de receber água da penitenciária e a interligação da rede passou a ser utilizada para casos de emergência.

O diretor de Abastecimento e Reservação da autarquia, Igor Fournier, afirma que o DAE e as unidades costumam agir em parceria nesse sentido. No entanto, confirma que o CDP não poderia, sem autorização prévia, fazer manobras na rede de água, construída e de propriedade da autarquia. Apesar disso, admite que a prática é recorrente.

 

Prejuízos

Indignado com a falta de água, que começou na semana passada e se estendeu até ontem, o proprietário de uma empresa de Comunicação Visual, Jurandir Sérgio Posca, solicitou a visita do diretor da Divisão Técnica do DAE, Manuelino Câmara Filho, ao Distrito Industrial 3.

Como a produção de água do poço estava normalizada, os registros da ligação da rede foram verificados, constatando-se, assim, o problema. O empresário estava indignado por acreditar que o CDP estivesse usando a mesma água que deveria abastecer o distrito. A informação, porém, é veementemente negada pelo DAE.

“Desde que cheguei aqui, tínhamos problema com água. Mas à noite ela chegava e enchia a caixa. Agora nem isso. São sete dias vivendo neste absurdo. E foi só abrir o registro que tudo voltou ao normal”, conta Jurandir, que teve acesso ao mapa da rede por intermédio do diretor da autarquia.

O empresário diz que, nos últimos dias, dispensou muitos de seus 50 funcionários do serviço, como as faxineiras e outros de determinadores setores produtivos em que a água é essencial. Ele relata ainda que uma lanchonete que funciona na região também foi forçada a fechar as portas desde a semana passada.

 

DAE admite ‘falha na comunicação’

Igor Fournir explica que há cerca de três meses parte da água produzida pelo poço na Fazenda do Pires vinha sendo levada à parte mais elevada do Distrito Industrial 3 pela adutora construída em 2009. Isso porque essa região sofria, cronicamente, problemas com o fornecimento do produto, que seguia, incialmente para o poço Nove de Julho e era bombeado ao Distrito Industrial. A pressão para isso, porém, era insuficiente, fazendo com que a água só chegasse a algumas empresas no período noturno.

“A intervenção foi para solucionar a falta de pressão, reclamada pelos empresários há muito tempo. Antes dela, quando eles mexiam naquela rede, não havia interferência. A falha do DAE foi não ter comunicado essa nossa intervenção ao CDP e ao IPA”, afirma o diretor.

A Secretaria da Administração Penitenciária (SAP), responsável pelas unidades prisionais, confirmou a relação de socorro mútuo junto ao DAE por conta dos problemas de abastecimento.

“Já quanto à necessidade de água do CDP de Bauru, realmente, na quinta-feira (11), houve solicitação daquela direção, de modo que foi autorizado que realizassem remanejamento na rede interna”, informou a assessoria de imprensa, sem especificar se a solicitação foi dirigida à autarquia responsável pelo encanamento.

Por fim, a SAP alegou desconhecer problemas no Distrito Industrial 3.

 

Nova ligação

Para solucionar o problema criado, a Divisão Técnica do DAE apresentou à presidência projeto para a construção de uma nova rede que ligue os poços do CDP e do antigo IPA, sem qualquer ligação com a tubulação que leva água ao Distrito Industrial 3.

Além disso, ainda ontem, a abertura dos registros foi regularizada pela autarquia, normalizando o abastecimento das empresas afetadas. É preciso saber, no entanto, como ficará o abastecimento do CDP após a normalização das interferências na rede.