09 de julho de 2026
Política

Com debate restrito, Internet ainda não influencia a eleição

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Levantamentos realizados pelo Ibope apontam que, entre 2008 e 2010, a Internet saltou do último para o segundo meio que mais influencia os eleitores brasileiros na hora do voto. Apesar disso, na maioria das disputas municipais, inclusive em Bauru, os debates políticos nas redes sociais não afetaram os resultados das urnas.

A avaliação é do especialista em Direito Digital José Antônio Milagre. Segundo ele, as eleições disputadas em âmbito nacional e estadual estão mais sujeitas a este tipo de fenômenos. Em 2010, o papel das redes sociais e da blogosfera já foi importante, mas, em 2014, deve tomar proporções ainda maiores. “No pleito municipal, os candidatos estão mais próximos das pessoas e isso influencia bastante”, argumenta.

O principal ponto que reduz a interferência das discussões na rede no processo eleitoral de falta é a restrição do público disposto a participar deste tipo de debate. Segundo milagre, em regra geral, participam da eleição na Internet pessoas com interesse prévio na política, chamadas pelo advogado de formadores de opinião.

“Em um dos grupos que discutia as eleições em Bauru, havia 3 mil pessoas: número pequeno se comparado aos mais de 248 mil eleitores da cidade. Em outros locais, como Ribeirão Preto, um grupo do mesmo do mesmo perfil tinha participação de 30 mil internautas”, pontua Milagre, que prestou serviço de assessoria a campanhas majoritárias de quatro municípios.

Ele admite que os candidatos a prefeito de Bauru não ignoraram as redes sociais. “Pelo contrário: as principais três campanhas se preocuparam em movimentas seus perfis, suas páginas”.

Milagre, no entanto, diz que os partidos ainda não discutiram a importância de formar militância para fomentar os debates no espaço virtual. “Apoiadores não têm mais que estar só na feira. Em outras cidades, os próprios candidatos chamavam o eleitorado para acompanharem a campanha na internet”, conta.

Além disso, alguns candidatos tropeçaram na relação com as mídias sociais. Frequentador assíduo delas, Clodoaldo Gazzetta (PV) anunciou em sua página que estaria mais distante da rede em razão da campanha eleitoral, no dia em que a propaganda política foi liberada. “Um erro de avaliação, na contramão do que está acontecendo”. O candidato, porém, manteve o diálogo com os internautas.

Na eleição paulistana, equívocos também foram cometidos pelos candidatos. Milagre conta que as campanhas de José Serra (PSDB) e Fernando Haddad (PT) retiraram seus sites do ar 48 horas antes do pleito. “Pura desinformação. Isso não é mais obrigatório desde 2009”.

 

Acirramento na web

Exemplo de que a discussão eleitoral na Internet não reflete o cenário é, justamente, o acirramento da disputa no Facebook, bem diferente do processo tranquilo e apático do ‘mundo real’.

José Antônio Milagre cita as mobilizações por segundo turno de apoiadores dos adversários de Rodrigo Agostinho (PMDB) e, até mesmo, a disputa pela Câmara Municipal. “Criei uma enquete para avaliar a atual legislatura e 90% classificou seu desempenho como negativo. Mas as urnas mostraram o contrário e nove se reelegeram. É um público com maior senso crítico o da Internet”, comenta.


Grana

Outro ponto não explorado pelos candidatos em 2012 foi a arrecadação pela Internet. José Milagre diz que as ferramentas para isso já estão disponíveis no País há tempos, não custam caro, mas os partidos têm receio de utilizá-las. O maior exemplo da prática foi a campanha que elegeu Barack Obama presidente dos Estados Unidos, há quatro anos.

 

Partidos fortes fazem a diferença

Para o cientista político e doutorando da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Bruno Pasquarelli, a Internet tem maior peso no processo eleitoral em grandes cidades, como a Capital paulista, em razão do fortalecimento dos partidos nesses locais. Ele explica que as legendas contam com maior apoio de militantes propagando suas ideias na rede.

Pasquarelli aponta que os internautas tiveram papel fundamental na reverberação dos ataques a Celso Russomano, que liderava as pesquisas de intenção de votos, se tornou alvo dos demais adversários e ficou fora, até mesmo, do segundo turno. Pasquarelli entende a Internet como ferramenta importante para o debate político, não apenas no processo eleitoral. “O uso dela vai ser cada vez mais ampliado. É uma possibilidade também de acompanhar o mandato e as ações dos eleitos”.

Em um cenário como o de Bauru, com apenas quatro dos 17 vereadores eleitos em partidos de oposição, o cientista político acredita que as mídias sociais podem ser um caminho para que estes parlamentares deem projeção para o discurso crítico à próxima administração de Rodrigo Agostinho (PMDB).


Brincadeiras ou ofensas?

Uma característica da campanha eleitoral na Internet foi o bom humor. Nos últimos três meses, foram muitas as brincadeiras e montagens produzidas utilizando a imagem dos candidatos. A primeira delas, que causou grande impacto, foi a transformação dos prefeituráveis no personagem dos Trapalhões, Mussum.

José Antônio Milagre afirma, porém, que, na reta final da campanha, o tom das cutucadas foi elevado. “Diferentemente de outras cidades, esses casos não foram levados à Justiça. Foi muito grave, por exemplo, a acusação de que um candidato é contra a Parada da Diversidade”.

Diferentemente de outras cidades, porém, os candidatos não levaram as polêmicas da Internet para a Justiça Eleitoral. Milagre lembra que, mesmo depois do fim do processo, autores de ofensas podem responder criminalmente.

 

Não pegou

Bruno Pasquarelli diverge da ideia de que o julgamento da Mensalão não tenha influenciado no resultado das eleições municipais por falta de tempo suficiente para repercussão do caso. Segundo ele, a população descolou a imagem de condenados como José Dirceu (PT), das principais lideranças petistas, como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da presidente Dilma Rousseff. “Apenas 10% do eleitorado disse que não votaria no Fernando Haddad por conta do caso”.

O cientista político lembra que o mesmo fenômeno já ocorrera na reeleição de 2006, quando o cenário era marcado pelo auge das denúncias. No entanto, Pasquarelli pontua que a boa avaliação do governo Dilma também tem influência no comportamento do eleitor.