08 de julho de 2026
Articulistas

Sem surpresa

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

A leitura da Ata da última reunião do Copom, em que foi decidido baixar a Selic para 7.25% ao ano, permite concluir que, mais uma vez, o Banco Central analisou com muito cuidado a situação da economia mundial, antes de aproveitar o espaço mínimo que se apresentou para trazer a taxa de juro real para o nível mais próximo de 2% ao ano, objetivo que perseguiu cuidadosamente nos 12 meses recentes.

Um gráfico que apresenta as variações da taxa Selic entre março de 1999 e outubro de 2012 produzido com dados do Banco Central e divulgado na internet e na mídia impressa nesta quinta-feira, reproduz períodos selecionados da impressionante trajetória do juro básico, de 45% aa aos atuais 7.5%. As taxas percorreram picos e vales ao longo de 12 anos e só passam a obedecer a uma sequência harmoniosa de cortes a partir do dia 31 de agosto de 2011, quando era de 12.5%.

Um importante canal de notícias divulgou na internet um ranking abrangendo 40 países, feito em São Paulo por dois economistas ? Jason Vieira e Thiago Davino ? projetando para o Brasil um juro real de 1,7% ao ano (Selic 7.5% - Inflação de 5.8%), o que sinalizaria um quarto lugar entre os maiores juros dentre economias consideradas importantes, abaixo apenas da Austrália (2.0 % aa), de Chile (2.3% aa) e da China (3,9%).

O fato relevante é que o Banco Central, na gestão Tombini, em especial, soube avaliar muito melhor a evolução da crise financeira mundial e principalmente as condições próprias da economia brasileira, com muito mais critério que a maioria dos analistas dos mercados financeiros. É evidente que a situação no mundo continua muito complicada, o que dificulta compreender as dificuldades externas e afastar a insegurança interna. Basta ver que não foi unânime a última decisão do Copom, como as anteriores, mas o tratamento desse processo pelo Banco Central me leva a conclusão que ao cuidar do assunto eles mediram criteriosamente as vantagens e desvantagens e no final a maioria concluiu que outros 0.25% de corte na taxa eram adequados.

Deve-se esperar, mais adiante, para ver os resultados de das medidas tomadas pelo governo: quais os efeitos das reduções de impostos, os subsídios concedidos a diversos setores, os cortes provisórios de alíquotas na indústria automobilística, etc. Já estamos começando a sentir um começo de recuperação na atividade econômica, a atividade se aquecendo, já tivemos um crescimento no terceiro trimestre em relação ao segundo trimestre, talvez 1.1% ou 1.2%, um pouquinho mais, um pouquinho menos o que já é muito significativo... Essa reação deve continuar: a taxa de crescimento do PIB em 2012 vai ser de 1.6% ou 1.7% , mas no final do ano, ao se comparar com o final do ano passado, vamos sentir uma recuperação importante, a economia do país vai estar rodando aí uns 3.5% a 4%, e depois os efeitos desses programas deverão continuar a se fazer sentir, de forma que há esperança, sim, de que V. volte a entrar no ritmo de crescimento de 4% e até um pouco mais em 2013 e nos anos seguintes.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC