A entrada principal da Biblioteca Pública de Nova York, na movimentada 5ª. Avenida, é guardada por dois leões de pedra. Diz a lenda que os leões vão rugir no dia em que uma virgem passar diante deles. Há ainda quem dê importância a um hímen sem nenhuma função orgânica no corpo feminino. Nelson Rodrigues sentenciava que "só as putas sabem o valor da virgindade". Nas últimas décadas o assunto "leilão da virgindade" é recorrente. O tema foi abordado na telenovela "O Dono do Mundo"(1991-1992), de Gilberto Braga, quando encenou-se o leilão da virgindade da personagem Márcia, interpretada por Malu Mader. A reação do público foi negativa. Aumentou a audiência, que é o que interessa. Também à procura de bilheteria o cineasta australiano Justin Sisely promoveu um concurso mundial para escolher a jovem que iria leiloar a sua virgindade, como parte de um documentário que conta a história de dois jovens prestes a ter a primeira relação. A eleita foi a catarinense Catarina Migliorini, de 20 anos, que já tem data marcada para ter a sua primeira vez: dia 25, quinta-feira próxima. Ela está na Indonésia, gravando. Catarina irá perder a virgindade durante um voo que vai da Austrália aos Estados Unidos ? para que não haja problemas com legislação de país algum. Até o momento, o valor mais alto oferecido no leilão equivale a R$340 mil. O imposto de renda norte-americano vai esperá-la no desembarque, para cobrar a "parte do leão". A garota de Santa Catarina diz que vai doar o dinheiro para construção de casas populares.
Os motivos são sempre altruísticos: custear a universidade, comprar remédios para a mãe doente. No caso da jovem norte-americana de 22 anos, Natalie Dylan, o lance maior chegou a 3,8 milhões de dólares, que ela preferiu guardar para o seu próprio futuro. Recebeu elogios de um dono de bordel que achou uma tremenda ideia. "Afinal, por que perder a virgindade para algum cara no banco de trás do carro, se é possível garantir-se pelo resto da vida?" Como observou o escritor surrealista Campos de Carvalho, a torre de Pisa é que está certa. A humanidade anda torta. Sexo na praia, no Rio ou em qualquer outro lugar, sempre houve. Hoje, dá manchete porque tem imagem, graças aos celulares munidos de máquina fotográfica. A turista estrangeira nadou pelada no Leme. Atentado ao pudor. Mas, todos os jornais publicaram suas belas formas para o mundo aprecia-las. Quando criança, matava rolinha com estilingue sem ser incomodado. Deflorar a namorada dava cadeia, crime só perdoado pelo casamento. Hoje, a virgindade deixou de ser um bem jurídico tutelado pelo Estado. Matar passarinho é crime inafiançável. Matar gente permite espera do julgamento em liberdade. É possível conviver com a ausência do hímen, porém não é mais possível sobreviver em um mundo sem rolinhas, ou poluído. O maior fenômeno sociológico-editorial é o livro "Cinquenta tons de cinza", escrito por uma mulher, E. L. James. A personagem perde sua virgindade para um jovem muito rico. Na sequência dos capítulos o casal pratica todas as posições do Kama Sutra. A obra está no terceiro volume e 40 milhões de leitores - a maioria mulheres. Disse um crítico que se trata de "pornografia para mamães".
Apesar de muitos homens ainda preferirem mulheres sem experiências sexuais, a sociedade já está conscientizada da atual condição feminina, cobrada apenas quando o seu comportamento se torna vulgar. Virgindade não é sinônimo de caráter. Neste sentido, a castidade é uma etapa na vida da mulher saudável, onde o sexo não é primordial, mas sim a consequência. Todo sujeito é único e singular em seu tempo e em seu espaço. Hoje, os valores e princípios sociais permitem à mulher ser responsável pelos seus atos, donas de seus desejos e do seu corpo. Lastime-se que muitos homens ainda tenham aquela postura machista enrustida, como a querer definir a condição feminina. A mulher para casar e para se aventurar.
Visitei no Sesc uma exposição-alegórica em homenagem a um dos maiores poetas brasileiros, o mato-grossense Manoel de Barros, infelizmente desconhecido da maioria. Ele se revela preocupado com o trabalho de restituir a virgindade a certas palavras ou expressões. Elas estão morrendo cariadas, corroídas pelo uso de clichês. Os governos mais sábios deveriam contratar os poetas para esse trabalho de subverter a sintaxe até a castidade. "Um texto virgem que o tempo e o homem ainda não tenham "espolegado" (eis aí uma palavra virgem, inventada pelo poeta). Manoel de Barros tem toda razão: "Não bastam as licenças poéticas, é preciso ir até as licenciosidades".
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC