Relendo o histórico da inflação brasileira podemos afirmar que nos dias atuais estamos no céu. A chamada inflação crônica, causada basicamente pelo financiamento do setor público com emissão de moeda, fez com que os preços não parassem de subir por anos a fio. Isso potencializado pelo fenômeno da indexação dos preços, em que altas verificadas no passado eram automaticamente repassadas para o futuro. Índices que batiam a casa dos 40% a 50% ao mês, tendo como ápice os 70% um pouco antes de o Collor assumir a presidência no início dos 1990. Importante salientar: 70% ao mês atingindo mais de 58.000% ao ano. É isso mesmo. Algo inimaginável.
É curioso analisar estes números agora. É inacreditável como a população conseguia combinar baixa renda com elevados preços. Confesso que na universidade, ministrando aulas a jovens na casa dos 20 anos, está cada vez mais difícil relatar esta época. Como explicar, por exemplo, que os supermercados viravam a noite remarcando os preços dos produtos. Isso sem falar da corrida as compras quando os salários eram recebidos, na tentativa de não deixar o dinheiro recebido perder valor, no bolso.
Depois do Plano Real passamos a trabalhar com inflação de um dígito. Atualmente a meta anual é de 4,5%, com tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Observem a mudança: de 40% a 50% ao mês, para 4,5% ao ano.
Acostumamos a este nível baixo de inflação e isso é muito bom, sendo que as estratégias para segurar os preços foram a desindexação, um maior rigor fiscal e ainda a política monetária restritiva, notadamente no que se refere as taxas de juros básicos.
O atual governo aproveitou a queda no nível de atividade, fruto da crise internacional, e deu início ao processo afrouxamento monetário, ou seja, uma tentativa de monitorar os preços, mas sem a pressão dos juros. Neste momento há forte pressão por reajustes de preços. As commodities alimentícias estão em alta, muitas categorias profissionais conseguiram reajustes salariais acima da inflação, repassados a preços, e o país ainda convive com forte concentração em setores importantes da economia, o que retira a possibilidade de reduções de preços via concorrência.
Observem que o sinal de alerta atual está ainda na casa do um dígito, ou seja, estamos falando de uma inflação desgarrando dos 4,5% ao ano, para 5,5% ou 6% ao ano. Evidentemente que os agentes econômicos, assim como meus alunos na universidade, não estão mais considerando o passado de inflação galopante. Operam em níveis muito baixos, cuja tolerância é muito menor do que naquela época.
Pessoalmente não tenho uma visão pessimista quanto a inflação, mas entendo que é preciso sair da zona de conforto. Não há mais espaço para utilizar a política monetária como única forma de controle de preços, mas avalio que o governo não pode ficar inerte. Tem que agir na oferta de produtos, no controle dos estoques e no monitoramente de perto dos setores que mais pressionam os preços. E evidentemente que em longo prazo o desafio é tornar o mercado interno mais competitivo, com atração forte por investimentos produtivos, com ampliação efetiva da oferta de produtos e serviços.
Se a história em relação a inflação nos condena, não há mais espaço, e como aqui colocado, memória que permitam aceitar qualquer deslize na manutenção da inflação em níveis baixos. Muita atenção neste momento.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, presidente da Acib, diretor do Corecon e articulista do JC