08 de julho de 2026
Geral

Centrinho não terá hospital geral

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

Neide Carlos

Homenagem - Busto de Tio Gastão foi descerrado no jardim do Centrinho. Sem visão por causa de uma doença, ele não compareceu. “Ele disse: por que haveria de ir, se não vou poder olhar nos olhos dos meus funcionários e dos meus pacientes?”, relatou, comovida, a filha dele, Patrícia Zambonato, presente no evento. 

O novo prédio do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (Centrinho/USP), conhecido como “Predião”, não funcionará mais como hospital geral. O anúncio foi feito na tarde de ontem pela superintendência do Centrinho, após o descerramento do busto em homenagem a José Alberto de Souza Freitas, o tio Gastão, um dos fundadores da unidade.

A notícia foi divulgada na mesma semana em que a Secretaria de Estado da Saúde informou que a Fundação para o Desenvolvimento Médico Hospitalar (Famesp), de Botucatu, irá assumir a gestão do Hospital de Base (HB). Segundo a diretora da Divisão Regional de Saúde de Bauru (DRS-6), Doroti da Conceição Vieira Alves Ferreira, a secretaria decidiu investir no HB para que seja mantido como hospital geral de “porta aberta” e, por este motivo, o plano de gerir o novo prédio do Centrinho foi abortado.

Mas, de acordo com o deputado estadual Pedro Tobias, a desistência também foi uma iniciativa da própria USP. “As negociações não caminharam e o reitor da universidade não quis mais passar o prédio para o Estado”, frisa.

Em março deste ano, a Secretaria de Estado da Saúde chegou a confirmar  que o “Predião” seria administrado pela fundação da Faculdade de Medicina da USP e, para que o Estado pudesse repassar recursos para equipar e custear o funcionamento do hospital, a secretaria receberia permissão de uso do local. Mas, com a mudança de planos, a nova unidade voltará à sua finalidade de origem, que é atender as demandas próprias do Centrinho.

As obras do “Predião” já foram concluídas e, de acordo com a superintendente do Centrinho, Regina Célia Bortoleto Amantini - que assumiu oficialmente a função no lugar de tio Gastão em maio de 2012 -, a previsão é de que o primeiro serviço deva começar a funcionar já no mês que vem. “Seria o Centro de Pesquisas Audiológicas, da área de implante coclear, que funciona hoje em um prédio emprestado pela Faculdade de Odontologia”, frisa.

 

Remanejamento

Da mesma forma, nos próximos meses, outras unidades que funcionam fora do Centrinho - como a Divisão de Saúde Auditiva, o almoxarifado, o Centro Educacional do Deficiente Auditivo (Cedau) e o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (Nirh) - serão remanejadas. “Provavelmente, elas serão trazidas para as instalações antigas do Centrinho, que serão esvaziadas com a transferência de alguns setores para o novo hospital”, completa.

Segundo Regina, o novo prédio, que ainda não tem data oficial para ser inaugurado, é a realização de um sonho de tio Gastão e de todos os funcionários do Centrinho. As obras foram retomadas em 2008, depois de oito anos paralisadas.

Mas, até o momento, não há definição sobre como os onze andares do imóvel serão ocupados, embora suas funções gerais já tenham sido determinadas. “Estamos fazendo um planejamento e a distribuição ocorrerá conforme a nossa necessidade. Já temos uma comissão para fazer este estudo, mas tudo será feito de maneira gradativa”, salienta.

 

Estrutura

O novo hospital do Centrinho possui 11 pavimentos, incluindo o andar térreo. No primeiro andar, devem funcionar a recepção e o ambulatório. No segundo, atendimentos ambulatoriais e seção de implante coclear. Do terceiro ao quinto andar, ficarão instaladas as enfermarias de internação, com oito salas em cada pavimento, sendo cada uma com até seis leitos.

Já no sexto andar deve ficar o setor de internação individual, com 28 apartamentos, sendo dois de isolamento. No sétimo pavimento, a previsão é de que fiquem instalados os laboratórios de genética e análises clínicas. As UTIs - com 23 leitos de unidade intensiva e nove de unidade semi-intensiva - ficariam no oitavo andar. No nono, o centro cirúrgico com oito salas cirúrgicas, 14 leitos de pré-anestésico e 24 leitos de pós-anestésicos. No último e décimo andar, o setor de esterilização.

 

Tio Gastão ganha busto em homenagem

Em uma emocionada homenagem, a Superintendência Centrinho-USP lançou, na tarde de ontem, o busto de José Alberto de Souza Freitas, o tio Gastão, um dos fundadores do hospital e que ficou no comando da unidade por 45 anos. O local escolhido para a fixação da obra, esculpida pelo artista plástico campineiro Otávio Teixeira Mendes Neto, foi o jardim do pátio interno do Centrinho, local que tio Gastão costumava frequentar diariamente para conversar com mães e pacientes, até sua aposentadoria em maio deste ano, às vésperas de completar 70 anos.

Além de funcionários e pacientes do Centrinho, parentes e amigos do ex-superintendente, dezenas de autoridades compareceram à solenidade, que contou com missa celebrada pelo padre Enedir Gonçalves Moreira e apresentações do Coral do Centro Educacional do Deficiente Auditivo (Cedau) e do conjunto musical Sônia Berriel. Sob um calor que beirava os 35 graus, os presentes se emocionaram diversas vezes ao relembrar histórias e o grandioso trabalho realizado por tio Gastão, que não pôde estar presente por conta da doença que lhe tirou a visão.

“Ele disse: por que eu haveria ir, se não vou poder olhar nos olhos dos meus funcionários e dos meus pacientes?”, relata a filha Patrícia Zambonato, extremamente comovida (leia mais ao lado). A ausência de tio Gastão conferiu maior emoção à cerimônia, mas não diminuiu a alegria e carinho com que servidores e familiares se referiam a ele.

“Ele é o maior responsável pela dimensão tomada por esta obra chamada Centrinho. A homenagem é singela, porque nada do que fizéssemos estaria à altura do que ele próprio fez ao longo de 45 anos”, comentou a nova superintendente do Centrinho, Regina Célia Bortoleto Amantini, referindo-se ao Centrinho, que começou timidamente em 1967 e se transformou em um dos maiores hospitais públicos especializados em anomalias craniofaciais e deficiências auditivas.

A humildade, o carisma, a dedicação e obstinação de tio Gastão foram destacadas em todos os discursos durante a solenidade. Entre lágrimas, funcionários entregaram placas e presentes à esposa do ex-superintendente, Sueli Zambonato Freitas, e sua filha Patrícia, para que fossem levados às mãos do homenageado.

“A atitude dele transformou a vida de muitas pessoas, e não apenas de pacientes, mas também dos profissionais que tiveram a oportunidade de trabalhar com ele. O paciente sempre foi o combustível, a inspiração de seu trabalho, e essa dedicação também nos inspirava”, relatou a chefe do Departamento Hospitalar do Centrinho, Maria Irene Bachega, que se pronunciou em nome dos funcionários.

Representando todos os pais de pacientes que já foram atendidos pelo hospital, Antonio Carlos Marar contou que se transformou em uma pessoa melhor desde que seu filho, Gabriel, realizou o implante coclear para voltar a ouvir, há sete anos. “O tio Gastão tinha a capacidade de fortalecer os pais para enfrentar qualquer obstáculo. É um homem que deixa um enorme legado de sabedoria e dever cumprido”, comenta.

Pró-reitor de pós-graduação da USP, Vahan Agopyan ressaltou a grandeza da obra desenvolvida por tio Gastão, com a ajuda de colaboradores, lembrando que o Centrinho se transformou em uma instituição de reconhecimento internacional e que presta um serviço de referência em todo o Brasil. “Ele transformou o Centrinho não apenas em um hospital, mas em uma família. A gente só tem a agradecer por tudo o que ele fez para minimizar o sofrimento dos pacientes e seus familiares”, considera.

Representando o secretário de Estado da Saúde Giovanni Guido Cerri, José Carlos Seixas contou “causos” que ele viveu junto ao tio Gastão e elogiou o amor incondicional com que o ex-superintendente desempenhava sua missão. “Ele é daqueles que souberam amar na dimensão sobrenatural e, por isso, está acima de nós, que vivemos em um mundo em que as pessoas agem sempre na expectativa de receber algo em troca. O tio Gastão fazia por amor, sem esperar recompensa ou reconhecimento”, conclui.

 

‘Estamos sofrendo e rezando’

Em agosto deste ano, José Alberto de Souza Freitas, o tio Gastão, tornou público seu drama. Em uma mensagem postada no Facebook, ele revelou que estava deixando gradativamente de enxergar. Por conta da doença, ele não compareceu, ontem, ao lançamento do busto em sua homenagem, instalado no jardim do pátio interno do Centrinho.

Em um depoimento que emocionou a todos, sua esposa, Sueli Zambonato Freitas, revelou que, apesar da tristeza e da necessidade de adaptação para o cumprimento das atividades básicas do dia a dia, tio Gastão não se queixa ou esbraveja diante de sua nova condição. “Ele está calmo e lúcido. Em nenhum dia sequer ele disse uma palavra negativa. Mesmo quando ele derruba um copo, a gente socorre e resolve com tranquilidade”, destaca.

Sueli também conta que toda a família vem tendo, agora, a oportunidade de dedicar a ele todo o amor com que ele sempre tratou seus entes dentro de casa e no trabalho. “Estamos em uma comunhão de amor. Ele não nos vê chorar ou sofrer, embora a gente esteja sofrendo e chorando. Mas estamos rezando, tendo fé e esperança. E, se Deus ajudar, ele vai voltar a enxergar um pouquinho”, declarou, bastante comovida.

Patrícia, uma das filhas do tio Gastão, disse que levaria para o pai todo o amor, carinho, respeito e admiração emanado durante a homenagem. “Falaremos sobre todos os momentos que vivemos hoje e também da saudade que ele deixou em cada um”, comenta.

A jovem também fez um apelo a amigos e funcionários para que não deixem de fazer contato com o ex-superintendente. “Ele está na escuridão, mas está ótimo e ativo. Ele precisa de amigos e de pessoas que o apoiem neste momento. É algo que faz bem a ele”, completa.