09 de julho de 2026
Articulistas

A política no Facebook

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

O Facebook é uma mídia excelente para relacionamentos sociais. Mesmo que isto pareça um absurdo, às vezes é mais fácil conhecer uma pessoa visitando seu perfil no Facebook do que passando uma hora conversando com ela. Além disso, as páginas de relacionamento pessoal são importantes instrumentos de conscientização e debate sobre política, sociedade, meio ambiente e arte. Há algumas semanas, escrevi no JC sobre a derrota de Celso Russomano nas eleições municipais em São Paulo - que partiu de um movimento da sociedade paulistana composto, em grande parte, por usuários do Facebook. (Porém, além das ações positivas, sabemos que as páginas de relacionamento veiculam uma enxurrada de banalidades e pieguices na rede.)

São também muito frequentes no Face os usuários que costumam "pegar pesado", postando manifestações raivosas. Tem os torcedores fanáticos de futebol, os que são quase nazistas (só falta colocar a suástica), os defensores dos animais, os radicais de esquerda - do tipo que vai na porta do colégio onde o Zé Dirceu vota, para gritar o nome dele. Parte da antiga classe média abastada das décadas passadas (ou os filhos dela) forma outra dessas subdivisões. São pessoas que costumam ficar xingando por ter que dividir espaço com os pobres (que é como eles chamam a nova classe média) no shopping, ou esperar para sentar nos bons restaurantes.

No último domingo, assim que a imprensa publicou o resultado das eleições para a prefeitura de São Paulo, começaram os combates no Facebook. Os eleitores de Haddad postaram provocações, no que foram imediatamente rechaçados pelo grupo chamado de "as elites". O racionalismo político que governara o Facebook no primeiro turno, e que unira psdebistas e petistas contra Russomano, deu lugar àquela mentalidade tosca e bairrista que governa os fanáticos. No auge da emoção, alguns usuários passaram a escrever os posts em letras maiúsculas, o que deve corresponder a gritar na internet. Uma pessoa postou "chuuuuuuuppppaaaaaa Serra!", enquanto os serristas faziam xingamentos e desabafos aos berros (ou com letra maiúscula) contra o povo paulistano. Um deles escreveu que o paulistano seria "um povo que merece viver no meio da merda por ter votado no PT" - ou seja, quase assumindo que, no fundo, eles não são o povo.

O debate no Facebook poderia ser realizado em um ambiente mais cordial e elevado, mas mesmo quando as manifestações das mídias sociais adquirem essa postura radical, acabam sendo mais benéficas do que maléficas. O pior para o Brasil são aqueles que não se pronunciam, que não acham nada sobre coisa alguma, que não estão nem aí. Quem não se mete em política é facilmente manipulado e acaba sempre com uma visão entorpecida da realidade. Se os embates do Facebook conseguirem fugir da pura agressão mútua e a política continuar gravitando por mais um tempo em torno do PSDB e do PT, sairemos ganhando.

Ao que tudo indica, o julgamento do mensalão não vai acabar em pizza. Isso trará um combustível novo para que as pessoas se interessem por política e entrem no debate. Nenhum país evoluído tem um povo apático em relação à política, pois ter uma população consciente e que participa do jogo político é uma premissa da evolução social. O que podemos fazer, insisto, é melhorar o nível do debate. Diante das agressões mútuas de domingo, meu amigo Daniel Daibem postou o seguinte no Face:

"- Calma pessoal! Não é um campeonato onde se ganha ou se perde. É um processo onde se pleiteia um cargo no Executivo, onde o eleito (e não o vencedor) tem a incumbência de articular um time de pessoas que vai administrar a cidade por 4 anos. É uma bucha administrar uma cidade desse porte. Difícil imaginar que qualquer um desses senhores estivesse a passeio. Então, mais civilidade nas colocações. Todos nós estamos participando deste processo; "ganhadores" ou "perdedores". Um usuário respondeu que o PT transformaria a sofisticada Praça Buenos Aires em um camelódromo. Mas a maioria aplaudiu.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião