21 de junho de 2026
Articulistas

Cemitério: lugar sagrado?

Marcia Regina Nava Sobreira
| Tempo de leitura: 3 min

A maioria das civilizações presta culto aos antepassados. O local e a maneira pelos quais este culto é realizado diversificaram-se com o passar dos tempos. Apresentam-se as mudanças de postura diante da morte e concepção dela. Desde a Antiguidade até hoje, há quem considere o cemitério como um lugar sagrado. Ele é o local onde tradicionalmente se desenrola a última sequência do ritual fúnebre cristão e, geralmente, o túmulo torna-se o ponto de apoio do culto ao morto. Os cemitérios da Antiguidade eram sempre fora das cidades, ao longo das estradas. Isto devido ao medo que as pessoas tinham de que os mortos pudessem retornar para perturbar os vivos. Além da questão sanitária. No início, o cristianismo seguia os mesmos costumes dos pagãos, enterrando os seus mortos nas mesmas necrópoles que a deles. Depois ao lado, em cemitérios separados, sempre fora da cidade.

Aos poucos esta atitude pagã foi substituída pela cristã, deixando os vivos de terem medo dos mortos, havendo uma convivência entre vivos e mortos nos mesmos lugares até o século XVIII, isto em razão da fé na ressurreição dos mortos, associado ao culto dos mártires e de seus túmulos. Acreditava-se que só ressuscitariam no último dia os que tivessem recebido sepultura adequada e inviolada. Muitos queriam ser enterrados perto destes mártires.

As basílicas estavam cheios de mortos, já com pessoas comuns. As celebrações nos cemitérios permanecem habituais. Nas missas, os nomes dos mortos são lembrados pela comunidade cristã. Com o tempo, tornou-se um templo, um lugar sagrado, na Idade Média, onde se pode celebrar a liturgia e se erguer uma capela. Durante a segunda metade do século XIX e início do XX, a evolução na América em proveito da natureza e detrimento da Arte, os cemitérios passaram a ter mais a aparência de um jardim.

A concepção atual e oficial de cemitério continua sendo a de um lugar reservado ao sepultamento de seus mortos e de homenagem à sua memória. Os túmulos do século XX e XXI caracterizam-se pela simplicidade, podendo ter a forma de monte de terra, às vezes com cerca, ou receber a pedra sepulcral de mármore, de granito ou até concreto, buscando atingir um estado emocional de austeridade e não apenas a beleza estrutural. A Igreja Católica instituiu a festa para honrar todos os santos em 1º de novembro, pois não seria possível contemplar um a um durante o ano. Neste dia, os fiéis rogam pela intercessão dos bem-aventurados, com orações e súplicas. O dia 2 de novembro foi escolhido, no século X, para a devoção específica ao dia dos mortos.

A visita ao túmulo é uma maneira de manifestar que se lembra do espírito ausente. É a representação da memória. É a imagem que por meio da prece, santifica o ato da lembrança. Mas o que fazer quando este túmulo foi profanado por saqueadores de despojos ou partes do corpo? Um lugar que é um patrimônio público e muitas vezes até histórico e cultural é constantemente atacado. E há a necessidade de se colocar equipamentos de segurança cada vez mais sofisticados para se evitar que um lugar público com um caráter social onde o tumulo representa o sentimento de continuidade da família, da cidade e da humanidade, se torne um espaço de medo e sacrilégio. Até quando?

A autora, Marcia Regina Nava Sobreira, é historiadora e colaboradora de Opinião