08 de julho de 2026
Geral

Educador questiona o igualitarismo

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 4 min

Educador e psicólogo francês naturalizado brasileiro, Yves de La Taille é professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) e esteve em Bauru na noite de 25 de outubro para ministrar palestra “Moral, ética e senso de humor: dimensões educacionais”.

O evento, promovido pela escola FourC em comemoração ao seu quarto aniversário, buscou incentivar a reflexão sobre ética e cidadania no contexto de integração entre pais, alunos e professores. Confira: 

 

JC - De que forma a falta de referenciais éticos no Brasil influencia a formação das novas gerações?

Yves - Influencia diretamente. As novas gerações são formadas pelas gerações mais velhas, os adultos. Se houver um diagnóstico de que faltam parâmetros éticos na sociedade brasileira, isso evidentemente tem uma influência direta nos jovens. Quando eu digo direta, não quer dizer mecânica, é uma coisa mais complexa do que simplesmente uma coisa determinar a outra. Mas uma influência, tem.

Uma das provas disso é que, na educação em geral, o tema da ética e da moral acabou. Antes existia a educação moral e cívica, que acabou, o que foi ótimo porque a proposta era, além de ruim, de origens obscuras. Mas não se colocou nada no lugar. Nos parâmetros curriculares colocaram, mas não tiveram a repercussão que se esperava. Então essa ausência de uma discussão, de uma instrumentalização do ponto de vista moral e ético, é uma das provas de que os adultos não estão muito preocupados com isso.

Em compensação, estão muito preocupados em vender tecnologia e até o Ministério da Educação resolve que todo o professor vai ter um Ipad, ou algo assim.

JC - Como podemos ter uma sociedade mais igualitária num contexto em que os governos não conseguem oferecer serviços públicos básicos de qualidade, especialmente em saúde e segurança?

Yves - Impossível. Ou seja: nenhuma sociedade vai ser igualitária se a vida das pessoas não o é. Se você tem uma sociedade claramente dividida, em que uns têm absolutamente tudo e outros têm praticamente nada - do ponto de vista da educação, saúde, segurança e outras áreas -, isso tende a realimentar a desigualdade. Agora, em geral, a igualdade é um dos bons frutos da democracia, mas a democracia é um processo lento.

O Brasil é democrático desde 1988, é pouco tempo. E deu pra ver que o país tem melhorado do ponto de vista da consciência democrática, é só ver as coisas juridicamente julgadas como o mensalão, por exemplo. Claro, sem nenhum juízo de valor, mas o fato disso ser um tema, sem dúvida é positivo. Mas em uma sociedade em que as pessoas ainda vivem muito mal, isso evidentemente é um empecilho à ideia de igualdade. Aí são os políticos que têm que ter a vergonha na cara e realmente fazer algo decente. 

 

JC - Como as relações familiares e de amizade, à luz da era da internet e suas imediatas influências, podem contribuir para forjar cidadãos mais participativos, conscientes e empenhados no foco do bem comum?

Yves - A internet é uma coisa recente, muda a toda hora - Orkut, Facebook, redes sociais etc -, é uma selva de certa forma. Acho que a internet frequentemente tem influenciado relações superficiais. Por outro lado, se pegarmos a experiência que se chamou de primavera árabe, pelo que dizem foi graças à internet que essas pessoas conseguiram se organizar e fazer as ações que conhecemos. A internet depende da forma como você a usa e pode dar bons resultados, mas provavelmente a Al Qaeda também a usa para fazer seus atentados. Está muito difícil visualizar essas relações.

JC - A história é feita de ciclos. Neste momento, na sua avaliação, a sociedade ocidental (e a brasileira, em particular) vive uma fase moralista ou de descrença nos chamados valores morais, como os que conhecemos?

Yves - É mais uma descrença em relação aos valores morais. Um exemplo é o aborto: um discurso brasileiro, em geral contraditório, contra o aborto, criminalizando-o, mas se faz aborto no Brasil. Há uma crise de valores, uma falta de confiança. Costumo perguntar em palestras: você está andando à noite e ouve passos: qual a sua reação?

A maioria fala em medo. Medo do quê? Medo de que o outro não tenha senso moral porque, se tivesse, não cometeria nenhum tipo de violência porque iria respeitar o outro. E a descrença sobre valores morais ocorre não apenas no Brasil, mas na Europa também.