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Neide Carlos |
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Docente da Universidade de Guadalajara, Rogelio Alvarez em visita ao JC, ontem: avaliações |
Crimes com extrema violência que são apenas a superfície de uma guerra entre a polícia e bandidos e cujo estopim foi a intensa fiscalização ao narcotráfico. Nessa situação, o Estado investe na repressão e “esquece” de políticas de educação que tirariam os jovens do mundo do crime. Trata-se do Brasil? Por incrível que pareça, tal contexto conturbado se refere ao México.
A criminalidade mexicana foi debatida por Rogelio Barba Alvarez, que é docente na Universidade de Guadalajara e especialista no tema. O professor, que é pós-doutor pela Universidade de Florência, Itália, proferiu a palestra “Política Criminal X Delinquência Organizada no México” ontem nas Faculdades Integradas de Bauru (FIB).
Em visita ao JC, o especialista contou que o México convive com uma criminalidade gritante. “Hoje, o narcotraficante mudou seu perfil. Não é aquele homem de bigode grande e sombreiro que assusta. O narcotraficante tem entre 18 e 30 anos”, aponta Alvarez.
Em sua visão, a “guerra” no país é combatida de maneira errônea. “Investe-se em aumentar as penas. Há Estados (no México, as penas variam de acordo com cada Estado) em que o sequestro é punido com 70 anos. E isso não reflete na diminuição da criminalidade. Ou seja, aumentar a punição não diminui o crime”.
O professor afirma que o necessário no país seria, assim como no Brasil, investir em educação. “Para mudar esse quadro de criminalidade, seria preciso um programa integral, que envolvesse educação, família, religião, entre outros. É preciso investir na educação. Isso mudaria tanto a delinquência organizada como a que chamamos de comum”.
Questionado sobre a situação do narcotráfico, Rogelio Alvarez explica que o México não se destaca como um país produtor de entorpecentes, como muitos imaginam. “Além de consumidor, o país se tornou uma rota do tráfico transnacional”.
Cartéis
Algo que ainda não mudou é a violência dos cartéis de drogas. “Eles são extremamente violentos. No Méximo, você vê caminhões lotados de corpos decapitados. Muitos são inocentes que são pegos de exemplo mesmo”, destaca o professor.
Segundo ele, os cartéis mais violentos estão concentrados na área do Golfo do México. “Hoje, eles estão espalhados no país todo”, dando dimensão da criminalidade instalada por todo o território.
Até as terminologias são parecidas. Enquanto no Brasil se fala em crime organizado, no México, cita-se a delinquência organizada.
Lá, há mais uma semelhança desagradável com o Brasil. “E tudo é muito atrapalhado pela corrupção. Por conta dessa corrupção, não adianta aumentar a pena. Têm casos de homicídio, em que o corpo é removido do local, por exemplo. Como aplicar a lei ali onde há corrupção?” questiona o professor Rogelio Barba Alvarez.
Direitos fundamentais
O professor Rogelio Barba Alvarez ainda problematizou a questão dos direitos fundamentais. Ou melhor, a falta deles. Segundo o especialista, no México, esses direitos são “atropelados” pela própria polícia.
“O que ocorre é que muitas pessoas são vítimas e nem denunciam os crimes para a polícia. Elas acabam com medo dos próprios policiais. Por isso, é difícil até traçar um mapa de crimes pelo país. Muitos dessas ocorrências estão em um limbo sem terem sido denunciadas”, completa o professor.
Policial: ‘Não querem ter amigos PM por perto’
Apesar de Bauru estar longe da realidade mexicana e não ter tido qualquer registro que possa ser relacionado à onda de violência da Capital, policiais militares vivem em estado de alerta na cidade. Por alerta, pode-se entender tensão. Um deles conversou com o JC e contou como é viver em uma situação na qual “tudo vira ameaça”.
JC - Mesmo aqui em Bauru, vocês se sentem ameaçados?
Policial - Sim. É uma preocupação muito grande. Imagine alguém dizer que você vai morrer? Mudamos nossa rotina e da nossa família. Como vamos a um shopping? Como vamos dar uma volta no Calçadão? Não dá.
JC - Mas aqui em Bauru ainda não teve nada...
Policial - Não mesmo. Mas, acredito que, mais cedo ou mais tarde, vai chegar por aqui. A diferença de 2006 (quando houve ataques em massa do Primeiro Comando da Capital, o PCC, por todo o Estado) foi essa velocidade. Naquele ano, chegou tudo mais rápido aqui.
JC - Qual a situação do PCC em Bauru?
Policial - Na cidade, existem cerca de quinze pessoas da facção. Mas o maior problema são as unidades prisionais do semiaberto. Lá, tem muita gente da organização. E eles saem para trabalhar, na saidinha... esse é o maior perigo.
JC - Você acha que a realidade é passada pela polícia?
Policial - Não. Eles nunca vão falar que perderam o controle. Aqui em Bauru ainda não teve nada. Mas, o que os policiais ‘lá de cima’ dizem não é o mesmo que nós passamos. Nós vivemos todo dia na rua. Sabemos que o risco existe.
JC - A conduta do policial o torna um alvo em potencial?
Policial - Sim. O bandido que mata um policial importante ganha mais notoriedade. Mas, eles querem mesmo é fazer número. Com isso, não importa a conduta do policial e nem se ele está na ativa ou aposentado. Qualquer um que morre vira número.
JC - Você conhece algum policial na Capital?
Policial - Tenho familiares que trabalham na polícia em São Paulo. A situação está realmente muito mais preocupante por lá. Para você ter uma ideia, tem policial que dorme no quartel e só vai para casa no dia seguinte.
JC - Para finalizar, o que é pior para vocês nesse período?
Policial - O pior realmente é esse clima de tensão. Hoje, as pessoas não querem nem ter amigos PM por medo. Eu escuto um barulho mais forte de escapamento e já encosto a moto. Não é fácil.