08 de julho de 2026
Articulistas

As manhãs dos inocentes

Munir Zalaf
| Tempo de leitura: 2 min

Com a mochila nos ombros, o homem sobe a escada tortuosa sem vislumbrar o último degrau. Sequer atina o que o espera. Subindo. O desafio a incitá-lo. A ânsia incontida da conquista o embriaga. O caçador e a caça. No auge da escada, a ilusória arca da fortuna. A babar como um cão danado delira asfixiado a galgar frenético. O cobiça lhe dá forças. O sonho do poder maciço o engrandece a lhe cegar a espiritualidade. A ética não habita seu mundinho. Tudo é válido para alcançar o sonho do domínio por meio de bens materiais. Independente dos recursos aplicados para possuí-los. "Eu tenho o poder na cor do ouro das minhas mãos!". Subindo. Degrau a degrau. Sem viver que em cada lance a sua dignidade se despedaça. Matéria e espírito a se confrontar. A violência de um vulcão e a paz n?alma. Magmas, pó e cinzas demoníacas. Reflexão da lógica desequilibrada. O homem vencendo a escada sem corrimão. A fadiga dobra-lhe as pernas. Não importa. De joelhos. Subindo. Alcançar e se apoderar do baú.

O bornal se esvazia da água e do pão. Ao retorno, abarrotado com o conteúdo da sonhada arca. Joelhos sangrando não importam. A ideia do regresso sob aplauso amaina os ferimentos. O discurso a enaltecer a conquista. A palavra. O poder de propor a escalada aos estúpidos. Alcançado o cume. Ao seu olhar vasta área deserta branca como o leite. Vazia e tosca como o seu coração. Aridez a castigar o espírito. Aguça a vista buscando localizar uma referência. A arca! Não lhe era visível! Poderia ser branca como branco era o espaço estranho. Sequer via seu tênis cândido naquele alvejado total. Rolou no piso com os braços e as pernas abertas na tentativa de tocar a arca possivelmente abrigada no esbranquiçado que quase o cegava. Exaurido pelas inúmeras tentativas, entendeu que jamais encontraria a urna. Existia? Fantasia da sua ganância? O vulcão explodiu no centro da consciência. Línguas de fogo a queimar pelo malogro. Até onde o egoísmo o levara? Regressar derrotado. Não há mais escada. Não há mais degraus para a descida. Rampa sem proteção. Tobogã para o resto dos covardes. O espírito é invencível, eterno. Sábio, corajoso, ciente que a compunção o ressuscitará. O homem entrega-se à queda vertiginosa na rampa dos fracos até o lodaçal do desgraçado egoísmo. Desde a sua existência, o poder e o ter continuam a impedir que as criaturas se tornem humanas. Os noticiários ferem as manhãs dos inocentes.

O autor, Munir Zalaf, é escritor e palestrante voluntário, membro da ABLetras