08 de julho de 2026
Geral

Aumentam acidentes com escorpiões

Tisa Moraes com redação
| Tempo de leitura: 5 min

Embaixo do entulho, na fresta de uma porta, em meio ao jardim. Os animais peçonhentos se escondem por toda parte e fazem, a cada dois dias, pelo menos uma vítima em Bauru.

Segundo levantamento da Secretaria Municipal de Saúde, somente neste ano foram contabilizados 171 acidentes com bichos como escorpiões, cobras, aranhas, abelhas e lagartas na cidade. Felizmente, em nenhum dos casos, houve registro de morte.

Se a incidência, por si só, já é elevada, a apreensão aumenta com a chegada das estações quentes do ano. Isso porque, segundo o Instituto Butantan, o número de acidentes chega a aumentar 80% entre novembro e março.

Dados do Ministério da Saúde também revelam outro dado preocupante. Nos últimos 10 anos, o crescimento no número de notificações em todo o Brasil foi de 157%. Somente no ano passado, foram mais de 139 mil acidentes, com 293 óbitos.

Especialistas apontam inúmeras causas para esta realidade, entre eles o desequilíbrio ecológico, as chuvas que desalojam os animais entocados e o período que coincide com a fase reprodutiva de algumas dessas espécies. O médico veterinário da Divisão de Vigilância Ambiental de Bauru, Mário Ramos, explica ainda que o calor aumenta o metabolismo de espécies como cobras e escorpiões, o que os mobilizam a procurar alimentos.

“Os animais saem em busca de abrigo em locais secos, muitas vezes dentro de residências, o que aumenta a chance de ocorrência de acidentes”, explica. O mesmo processo ocorre com algumas presas destes predadores, como baratas e outros insetos.  “E, obviamente, é atrás deles que estes predadores irão”, completa Ramos. Ainda de acordo com o veterinário, o risco de contato com humanos aumenta no verão porque as pessoas, nesta época, ficam com grande parte do corpo exposta e fazem mais atividades ao ar livre, como passeios em trilhas.

 

‘Dor terrível’

Moradora dos Altos da Cidade há mais de 30 anos, Maria Luísa Siqueira Moreno conta que perdeu as contas de quantos escorpiões já capturou em seu quintal. Da última vez, há 15 dias, um deles entrou na cozinha da casa e picou seu pé.

“Estava de chinelo e senti uma dor terrível. Parecia que eu tinha enfiado um prego no pé. Queimava, latejava. Fiquei desesperada”, relembra ela, que ainda conseguiu matar o animal. Depois de procurar atendimento médico, os sintomas foram minimizados e, no dia seguinte, Maria Luísa já estava fora de perigo.

E é o bicho que a picou, o escorpião, o animal peçonhento que mais provoca acidentes em Bauru, de acordo com Ramos. O veterinário explica que os registros não ficam concentrados em bairros específicos, embora a incidência costume ser maior nos arredores de cemitérios.

“São os locais onde existe um grande número de baratas, principais presas dos escorpiões. Depois deles, o maior volume de acidentes ocorre com cobras, no meio rural, e aranhas. Abelhas e lagartas são mais incomuns”, detalha.

Além da maior produção de lixo e entulho em uma economia em crescimento e que estimula o consumo, a degradação dos habitats naturais de algumas espécies também favoreceu sua migração para o ambiente urbano. “Com o desmatamento, elas acabam se adaptando a terrenos baldios e fundos de quintais. Mas vale lembrar que a estruturação do sistema de notificações também colabora para o aumento dos registros”, frisa.

 

Vítima reclama de atendimento

Vítima de uma picada de escorpião há cerca de 15 dias, a corretora de imóveis Maria Luísa Siqueira Moreno conta que enfrentou dificuldades ao procurar atendimento médico no Pronto-Socorro Central (PSC). No local, recebeu a informação de que o soro só poderia ser administrado em crianças com menos de 13 anos de idade e, eventualmente, em pessoas idosas.

“Havia o risco de eu sofrer um choque anafilático e entrei em desespero. Ninguém me explicou porque eu não podia tomar o soro e me deram apenas uma injeção de contenção do veneno”, afirma.

Maria Luísa conta que teve hipertensão, diarreia e calafrios. Ficou em observação até a pressão arterial normalizar e foi para casa. Somente no dia seguinte, ao retornar ao PSC, conseguiu se tranquilizar. “Fui atendida por uma médica muito boa e ela disse que eu estava fora de perigo”, comenta.

Consultada, a diretoria de Urgência e Unidades de Pronto-Atendimento informou que o soro para animais peçonhentos é aplicado em pessoas de todas as idades. Já o soro para picada de escorpião é administrado em crianças, uma vez que, para elas, o veneno pode ser letal, diferentemente das vítimas adultas, que possuem o sistema imunológico mais resistente.

 

Atitudes simples podem prevenir acidente grave, ensina veterinário

Algumas atitudes e mudanças simples no dia a dia podem evitar acidentes graves com animais peçonhentos.

Como regra geral, o importante é exterminar o abrigo, o acesso e a fonte de alimento dessas espécies, conforme ensina o médico veterinário Mário Ramos.

Entre principais medidas preventivas, está usar calçados e luvas nas atividades rurais e de jardinagem; examinar calçados e roupas pessoais, de cama e banho, antes de usá-las; vedar frestas e buracos em paredes, assoalhos, forros e rodapés; utilizar telas, vedantes ou sacos de areia em portas, janelas e ralos; preservar predadores naturais como seriemas, corujas, sapos, lagartixas e galinhas; limpar terrenos baldios pelo menos na faixa de um a dois metros junto ao muro ou cercas.

Em caso de acidente, a pessoa deve procurar o mais rápido possível o Pronto-Socorro Central (PSC), que centraliza a administração gratuita de soros contra o veneno de animais peçonhentos. Durante o socorro, ela deve se mover o mínimo possível.

A região atingida deve ser colocada numa posição mais elevada em relação ao corpo e o local da picada pode ser lavado apenas com água e sabão.

Em nenhuma circunstância, é recomendado aplicar outras substâncias como urina, cachaça ou borra de café, que podem provocar um quadro de infecção.