09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O tal do "ninguém governa sozinho"


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Li a entrevista com o prefeito eleito de Jaú, Rafael Agostini, concedida ao JC, e nela percebo a preocupação do futuro chefe do executivo com as nomeações impostas pelos partidos de sua base de sustentação para preenchimento das vagas nos cargos de chefia, principalmente os do secretariado. Lá ele tentará contornar o problema trabalhando com uma lista tríplice, fornecida pelos partidos e daí sairá o nome a ser empossado. Na eventualidade de nenhum ser o mais recomendado, recairá sobre si a escolha de outro nome, esse com qualidades e virtudes para resolver os problemas advindos do cargo a ser ocupado. Mas essa hipótese será sempre a mais remota, praticamente impossível.

Esse o grande problema do atual sistema eleitoral brasileiro. Ouvi muito falar dele durante os dois governos de Lula. "Ninguém se elege sozinho", apregoam os próceres partidários. Lula tentou duas vezes de forma isolada e tentaria outras tantas até descobrir precisar se unir a um leque de siglas, algumas delas não muito recomendadas para coligações. Dessa forma se elegeu por duas vezes seguidas e mesmo debaixo da saraivada de críticas, fez e muito por esse país. Mas faria muito mais se não fosse praticamente obrigado a manter desqualificados em alguns dos cargos chave de seu governo.

Desse mal não padeceu somente Lula. Todos os que hoje querem se eleger dentro do sistema vigente são obrigados a se vergarem a esse tipo de jogo. "Sem apoio não se governa", diz outro preceito, quase bíblico. E assim todos vão se comprometendo com o lado mais nefasto do atual sistema, no que se transformou a política nas condições atuais. Em Bauru a coisa se repete e também como farsa, uma mancha a atravancar o aceleramento governamental. O governo do Rodrigo patina e em alguns casos não sair do lugar, sendo obrigado até a andar de marcha à ré por causa da obrigatoriedade da manutenção de ineptos e também dos que usando de força (quase física), perpetuam-se nos cargos. O DAE, a COHAB, algumas secretarias, como a da Saúde, a do Esporte, vivenciam isso na prática.

Não pensem que isso acontece somente com os partidos que se submetem ao jogo político vigente. Até o PSOL, elegendo pela primeira vez um prefeito numa capital, lá em Macapá e dos que apregoavam "dessa água não beberei" já está propondo (e praticamente sendo obrigado) alianças nunca dantes imaginadas e até com gente ligada ao senador e manda chuva Sarney. Tudo para que consiga a tal da governabilidade. Não seria isso tudo um imenso retrocesso? Sim, mas enquanto perdurar esse regime político não existe outra forma. E a isso instituíram a nomenclatura de "democracia".

Finge-se que está tudo bem e mesmo que os ocupantes de cargo sejam os mais inoperantes possíveis, nada produzem, possuem peso e isso é decisivo, o que vale. Para mim esse peso é o que segura, amarra, como uma estaca fincada no chão a atravancar tudo. Pior que isso, só a perpetuação da predominância do estilo neoliberal de governar, mas isso já é outra história, tão longa quanto essa.

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História - www.mafuadohpa.blogspot.com