08 de julho de 2026
Articulistas

A Dilma pode ser o cara

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 4 min

Criticar os erros do Governo Federal é fundamental. Mas também devemos ficar atentos aos acertos. Muita gente ainda confunde o governo com o Congresso e acaba atribuindo ao primeiro a culpa de procedimentos realizados pelo segundo. Hoje o câncer que teima em nos molestar não mora no Palácio da Alvorada, mas trabalha ali perto - uns três dias por semana -, na Câmara dos Deputados e no Senado. Dilma já demonstrou suas intenções e elas são boas.

Concordo que isso é algo difícil de enxergar, levando-se em conta que o governo tem a maioria dos parlamentares em sua base aliada. Mas quase tudo na política brasileira é singular. Caímos em uma estrutura em que o grande embate diário da presidente não é contra a oposição (como seria o esperado) e sim contra a sua própria base. Por conta disso, Dilma teve que enfrentar o oligárquico PMDB no primeiro semestre deste ano. Também vetou nove pontos do novo Código Florestal, do hoje Ministro Aldo Rebelo, seu aliado político. Aldo Rebelo é do PC do B, o que faz do Brasil o único caso do mundo onde um comunista e a bancada ruralista (os grandes proprietários) querem a mesma coisa. Os pontos vetados do novo código beneficiariam os ruralistas, mas prejudicariam o meio ambiente.

Na semana passada, o governo tentou mais uma ação essencial para o desenvolvimento do país: destinar 100% das novas rendas obtidas com royalties do petróleo para a educação. O texto inicial já havia sido aprovado pelo Senado, mas sem os royalties para a educação. Por isso o governo fez um acordo com os deputados para que votassem o texto com uma alteração que destinava o dinheiro para o ensino. Estava tudo certo, mas... os deputados aprovaram o texto antigo, deixando o governo e o ensino a verem navios. Por favor, entendam que não temos motivo para elogiar o PT - no governo Lula, Cristóvam Buarque foi demitido por telefone do Ministério da Educação, porque tentara emplacar uma reforma muito ambiciosa (e cara) nessa área -, mas Dilma está se sobressaindo no meio da lama que nos cerca.

E não é um trabalho fácil. Os vícios de nossa política estão encravados de tal maneira no quotidiano e na cultura do Brasil, que quando Dilma trocou o líder do governo no Senado, irritando uma ala do PMDB (o Senador Romero Jucá, amigão de Sarney, havia perdido a liderança), muitos especialistas disseram que ela estava cometendo um erro ao "enquadrar" o partido, pois poderia perder sua base de sustentação e chegar à ingovernabilidade - ou seja, para eles é melhor que continuemos reféns do velho coronelismo. Na época, Fernando Collor apareceu na TV, falando que se Dilma não se acertasse com o PMDB, poderia acontecer com ela o que aconteceu com ele: o impeachment. É assombroso como Collor consegue ameaçar a presidente e posar de vítima ao mesmo tempo.

Outro ponto importante é o Bolsa Família (e as outras bolsas que muita gente critica). Li na internet o exemplo de um acontecimento no Ceará, quando diversas costureiras não quiseram trabalhar registradas, para não perder a ajuda pública. Também são constantes as críticas do tipo "o Bolsa Família só serve pra sustentar vagabundo que gasta tudo em pinga". Mas se uma parte dos beneficiados vê os programas sociais como uma muleta para se encostar, o erro não é do governo. Os programas têm que existir. E há bons exemplos dos seus efeitos a todo momento. Este ano eu convidei uma estudante que cursa engenharia sucro-alcooleira na USC para fazer um trabalho comigo e ela teve que recusar: "Sou bolsista do Pró-Uni, preciso ter mais de 75% de presença e não posso tirar notas vermelhas, senão o governo corta o benefício", disse ela. Então não há só vagabundos se aproveitando, tem gente que está se qualificando com o financiamento público. O mercado e a ciência do país agradecerão por isso.

Quando os jornais soltaram a manchete sobre a não aprovação dos 100% do petróleo para a educação, li o que uma amiga comentou em uma mídia social: "Este governo nunca se preocupou com educação!" Seria justo cobrar dos deputados.


O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião