A Associação Protetora Amigos dos Animais (APAA) de Lençóis Paulista procurou o Jornal da Cidade para se manifestar sobre a matéria publicada no último dia 27 de outubro, que falou sobre o uso de cães em um experimento odontológico que termina com os animais eutanasiados, em Bauru.
Na reportagem, o professor Carlos dos Reis Pereira de Araújo, responsável pela pesquisa realizada por um grupo da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOB/USP), relatou o dilema dos pesquisadores frente às dificuldades por conta da interrupção no fornecimento de cães pelo Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) das cidades de Bauru e de Lençóis Paulista.
Na oportunidade, ele informou que o impasse para a liberação dos animais resultava na interrupção da pesquisa, que entre outros objetivos, pretende diminuir o tempo e minimizar os procedimentos cirúrgicos na área de implantes dentários em humanos.
Na ocasião, a reportagem apurou junto ao CCZ do município vizinho que os animais estariam à disposição do estudo, bastando para isso a liberação da APAA, responsável pela fiscalização do canil da cidade desde 2010. No entanto, na ocasião o JC não conseguiu entrar em contato com a associação.
Sobre o assunto, a APAA se manifestou nesta semana dizendo entender a relevância do estudo e se posicionando a favor das pesquisas, mas condenou o uso de animais nos experimentos, especialmente os cães.
“É inconcebível que ao longo da história, com o estrondoso avanço da tecnologia, o homem ainda insista em utilizar seres vivos como cobaias. Essa associação jamais permitirá que os cães, abrigados no canil sob sua responsabilidade, sejam colocados à disposição do estudo para servirem de cobaias”, diz a associação em manifesto.
Em seu pronunciamento, a entidade também frisa que desde quando assumiu o papel de agente fiscalizadora das atividades no canil municipal, nenhum animal foi doado para servir como experimento.
Além do manifesto da associação, o JC recebeu diversos comentários de leitores indignados com a pesquisa, mas nas cartas, parte das pessoas se referia à técnica da vivissecção, o que foi descartado pelo pesquisador Carlos Araújo.
“Cruel e desumano”
Ainda na carta de manifesto enviada ao JC, a Associação Protetora Amigos dos Animais (APAA) taxa de cruéis e desumanos os procedimentos relatados pelo pesquisador da USP. Para a presidente da APAA, Tânia Maria Mazetto, “é inaceitável que o melhor amigo do homem, considerado por muitos como um integrante da família, tenha que passar por esse calvário”.
Conforme ela, um convênio firmado neste ano entre a Prefeitura Municipal de Lençóis Paulista e a associação garantiu um repasse mínimo de verbas que, atualmente, é destinado para parte da castração dos animais na cidade, visando o bem-estar dos animais e da população.
“Nosso trabalho é todo voluntário. Vendemos desde calendários a chaveiros para arrecadar fundos para pagar vermífugos e remédios no tratamento. Não é justo deixar que os cães passem por esse sofrimento”, frisa a presidente da associação explicando que, todos os dias, ao menos um voluntário visita o CCZ para fiscalizar os animais abrigados.
A pesquisa
De acordo com o professor da FOB/USP Carlos dos Reis Pereira de Araújo, a pesquisa com os cachorros acontece por um período de oito meses, em média. Primeiramente, os cães recebem cuidados para tornarem-se resistentes. Após três ou quatro meses, têm início as cirurgias de implante dentário. Durante este período, os animais recebem uma dieta especial com alimentos triturados.
Ao longo da experimentação é verificada a condição dos implantes, com foco na velocidade de cicatrização da cirurgia em uma única etapa. Com o término da aplicação prática, os animais são submetidos à eutanásia para que não sofram com a remoção da mandíbula, bloco de osso onde encontram-se os implantes.
A pesquisa teve início em 2007 e até hoje dois estudos foram concluídos, um em 2009 e outro em 2011, com a utilização de 12 cachorros. Com o estudo, o professor explica que o grupo busca desenvolver o projeto de um implante dentário que dure ao menos 40 anos intacto, em vista do implante tradicional, que começa a apresentar sinais de degaste com menos de 10 anos de uso.
Além disso, a pesquisa também visa diminuir o tempo e minimizar os procedimentos cirúrgicos na área de implantes e melhorar as técnicas de enxerto e substituição óssea com materiais sintéticos para pacientes vítimas de acidentes.