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Douglas Reis |
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Cortesia e respeito ao volante fazem toda a diferença na fluidez e nunca foram tão necessários |
Faça o teste por conta própria. Estacione (se conseguir vaga) em alguma das ruas mais movimentadas de Bauru. Em horários de pico, o experimento é ainda mais “eficiente”. Pare por alguns minutos. Tente retornar à rua. Não será nada fácil.
A verdade é que só com solidariedade alheia você deixa a vaga rapidamente. Caso contrário, terá que aguardar pacientemente por uma brecha no trânsito.
Cortesia e respeito ao volante fazem toda a diferença na fluidez e nunca foram tão necessários.
Chegou o momento de um pacto entre motoristas, assim como os paulistanos fizeram há muito tempo na Capital. A cada dia fica mais confuso, perigoso e lento o trânsito em Bauru, cidade cujo crescimento é geométrico, assim como o número de veículos em efetiva circulação.
Ou adotamos regras de convivência civilizada nas ruas e avenidas ou experimentaremos, em escala progressiva, e brevemente, uma agressividade que transformará o ato de dirigir em um dos piores problemas da cidade de quase 400 mil habitantes.
Casos práticos
Mesmo que se tente aplicar conceitos de cortesia e respeito ao “colega” de volante, algumas virtudes, observa o psicólogo e instrutor de condução Ilton Sant’Anna, são quase que impraticáveis.
“Hoje em dia só é possível praticar algumas regras de solidariedade quanto a ultrapassagens, dar passagem ou preferência”, observa.
Segundo ele, outros tipos de riscos, principalmente a criminalidade, impedem com que outras formas de cortesia sejam manifestadas, independentemente à boa vontade de motoristas ou pedestres. “O risco de assaltos é alto. Então não se dá mais carona, nem é mais seguro para prestar socorro”, considera.
Para o estudioso, autor do livro “Cartilha Brasileira de Trânsito” (Canal 6 Editora), em que destrincha o Código Brasileiro de Trânsito (CTB) de forma didática, outras formas de solidariedade, contudo, podem ser colocadas em prática.
A cortesia, lamenta o autor, fica em segundo plano, ultrapassada pelo individualismo. “Cadê a solidariedade daquelas pessoas que ocupam duas vagas de estacionamento, de quem estaciona na vaga de idosos, até mesmo pessoas mais velhas porém sem o cartão, ou no espaço destinado aos portadores de deficiências?”, questiona.
Patetas ao volante
Não apenas em Bauru, mas o brasileiro, de forma geral, é mal educado ao volante. Muitas vezes, o comportamento dentro do veículo é totalmente diferente de quando o indivíduo está na condição de pedestre, observa Sant’Anna.
Essa “dupla-personalidade” é retratada, ainda de forma atual, no curta-metragem animado “Motor Mania”. No desenho, o personagem Pateta, de Walt Disney, apresenta dois comportamentos distintos. Fora do carro, ele é gentil e sereno. Atrás do volante, porém, o simpático cachorro se transforma totalmente, numa bem-humorada referência a “O Médico e o Monstro”, clássica obra literária de Robert L. Stevenson.
Psicólogo formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), o instrutor compara o veículo a uma “armadura” móvel, onde a pessoa se sente mais protegida para extravasar todo o estresse.
“O carro serve como instrumento de proteção, mas também de fuga, que incentivam esse tipo de comportamento”, analisa.
Especialistas, condutores e pedestres concordam: “Bauru teria desenvolvido uma espécie de ‘código’ paralelo de trânsito. Ultrapassagens pela faixa da direita – vá de carro à Duque de Caxias em horário de pico e comprove por experiência própria – seta desligada em ultrapassagens ou conversões e mais uma lista de irregularidades integram as “regras”.
Teste de nervos
Encontrar vaga para estacionar e conseguir sair imediatamente da mesma é um verdadeiro teste de nervos para o motorista em Bauru. Mesmo sinalizando com a seta e, em alguns casos, até mesmo com as mãos, dificilmente o condutor encontra o chamado “gente fina” que vai parar. Quem para, por sinal, leva buzina de quem vem de trás, com pressa.
Um dos pontos mais “críticos” e que requerem boa dose de paciência é o estacionamento de uma agência bancária no cruzamento entre a avenida Duque de Caxias e rua Xingu, no Higienópolis. Neste ponto, motoristas que trafegam pela rua precisam de paciência com quem sai. Já quem tenta entrar na rua, de ré, também carece de nervos de aço.
“Quando vejo alguém nesta situação procuro parar. Mas nem sempre é assim quando a gente precisa (deixar o estacionamento)”, lamenta o técnico em manutenção elétrica Paulo Renato Fernandes Filho. Do outro lado da rua, em outro estacionamento, o advogado Eduardo Bianconcini de Freitas encarava o mesmo drama. “É difícil sair, quase ninguém ajuda. Eu, pelo menos, permito na situação contrária. Faço minha parte”, assegura.
Campanha ensina e pede respeito
Respeito mútuo. Esse é um dos principais objetivos da campanha “Eu Respeito”. A iniciativa, idealizada pela loja maçônica Piratininga, de Bauru, visa conscientizar condutores e pedestres e incentivá-los a conviver em harmonia. A campanha tem apoio do Jornal da Cidade.
Inicialmente, a ideia é chamar a atenção para o respeito às vagas destinadas aos condutores de veículos portadores de deficiências físicas, frisa Sérgio Moreno, um dos idealizadores da campanha. “Até mesmo idosos, que têm lugar garantido, não respeitam. Às vezes a gente até mesmo questiona e chama a atenção: idade não é deficiência”, lamenta.
Outros pontos sobre convivência no trânsito, antecipa, também serão abordados pelo trabalho de conscientização, que conta com respaldo da Polícia Militar e Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).
“É uma questão de cidadania. Desrespeito gera estresse, que gera mais desrespeito e assim vai, num ciclo”, observa. Além do caráter educativo, a campanha também tem finalidade benemérita, acentua. Mediante a comercialização de adesivos (ao preço de R$ 3,00), a iniciativa, que conta com apoio do Jornal da Cidade, visa angariar fundos em prol da Associação de Pais e Amigos do Excepcional (Apae) de Bauru, em dificuldades para manter seus trabalhos filantrópicos. Além disso, frisa Moreno, a campanha chamou a atenção do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), que, antecipa, selecionou o projeto para concorrer entre as melhores iniciativas de conscientização sobre a paz nas ruas e estradas em todo o País. “Bauru concorre em Brasília junto a projetos desenvolvidos em capitais de Estado”.
Serviço
Os adesivos da campanha “Eu Respeito” podem ser adquiridos, informam idealizadores, nas lojas do Calçadão (na Batista de Carvalho), Marcão Escapamentos, Fliper Lanches e na sede da Emdurb.
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