08 de julho de 2026
Geral

Condutores admitem: falta cortesia

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 3 min

 

A reportagem demorou mais de dois minutos para tentar sair com o carro que estava estacionado na rua Rio Branco, num final de manhã de quarta-feira, nas proximidades da prefeitura. Quando o semáforo fechava, a fila de carros impedia o acesso à via. Ao sinal verde, entrar na via era difícil, mesmo com a seta ligada. 

 

Contudo, notamos a necessidade do próximo apenas quando sentimos o problema na pele. Essa é a leitura da “guerra do trânsito” feita pelos próprios protagonistas, no caso, condutores e pedestres. 

 

Num raro exemplo de cordialidade na cidade, a faixa de pedestres entre um supermercado (Confiança) e seu estacionamento, na Zona Sul, a maioria dos condutores para assim que os transeuntes pisam no asfalto. 

 

A regra não está sinalizada, porém, a obediência é quase que unânime. Porém, para alguns pedestres/condutores, a cortesia, em questão, não significa, necessariamente, cordialidade. “Acho que a maioria para porque os outros param”, opina o empresário Geraldo Júnior que admite paradas “forçadas” em alguns casos. 

 

Para o pedestre Jorge Bernardes, o fato dos motoristas respeitarem a faixa de segurança naquele local reflete, pelo menos em um ponto da cidade, a consciência de que todos somos, na realidade, pedestres. “Todos fazem compras e veem, ao menos aqui, o outro lado da moeda”, acredita. 

 

Já o casal José Ciro e Sueli Barbarini, que também se dirigia ao estacionamento do supermercado, relaciona a exceção à campanha e costumes isolados. “É um hábito que se adquiriu neste lugar. Em Brasília, por exemplo, isso é respeitado na cidade toda”, compara. 

 

 

‘Faço mesmo’

 

Há quem lamente a falta de solidariedade no trânsito, mas também admite: “quando fico esquentado mando para aquele lugar mesmo”. A confissão é do motorista de caminhão Wilson Douglas Ferrari, que trabalha no transporte de minério de ferro. “Acho que ser solidário no trânsito é ter calma, respeitar as outras pessoas. Mas às vezes é difícil”, assume. 

 

Ele exemplifica a “dificuldade de relacionamento” entre caminhões pesados e veículos de passeio. “Você carrega 60 toneladas e desce. Aí o carro à sua frente pisa no freio do nada e a gente, a 100 por hora, tem que brecar. O freio de um caminhão não é igual”, reclama. “Buzino e até mostro o dedo”, assume. “Mas o melhor seria se acalmar, ou ‘xingar quieto’”, considera. 

 

Já o colega de boleia Hélio Sousa Souto resume: “O ser humano tem que respeitar um ao outro seja na pista ou não”, defende o experiente motorista, cuja principal reclamação é a luz alta de condutores tanto no sentido inverso quanto os que vem de trás. “Isso cega a gente, seja o faro alto quando aquelas luzes novas, brancas”, comenta o caminhoneiro, que é de Guarulhos. 

 

Dentro da cidade, um dos principais alvos de reclamações dos motoristas é a motocicleta. Justas ou não, as queixas são constantes. Do lado de quem anda sobre duas rodas, porém, também não falta descontentamento. “Fui xingado por uma mulher de carro porque não a deixei passar no sinal vermelho, narra o mototaxista Diogo Corrêa. “Vai entender”, diz. 

 

 

Arrepia

 

A falta de cordialidade entre os motoristas “velhos de guerra” assusta quem está chegando às ruas. Gideon Góes da Cruz é aluno de uma autoescola da cidade, ele confessa que já dirige há algum tempo, mesmo sem a carteira.

 

Contudo, nas aulas obrigatórias de direção que faz, confessa que o desrespeito que vê na condição de “aprendiz” é de arrepiar. “Acho que não há solidariedade. Faixa de pedestres não é respeitadas e o convívio com as motos é complicado”, avalia. “Ainda bem que sou calmo”, garante. 

 

Instrutor da autoescola onde Gideon aprende a dirigir sem os vícios de quem pegou no volante por conta própria na adolescência, Adnan de Souza Daniel frisa que, em Bauru, principalmente, trânsito solidário ainda é utópico. “Não importa se você liga a seta, ninguém respeita”, lamenta. “Não temos vias rápidas. Todas as avenidas tem muito semáforo. Isso contribui para o comportamento”, relaciona.