08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

A verdadeira face da Ética...


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Ética, palavra de origem grega, intimamente relacionada à moral, a valores e ao caráter. Para qualquer indivíduo consciente entrar no mérito dessa questão é preciso, antes de qualquer coisa, que haja uma investigação geral sobre aquilo que é bom. A pessoa ética age sempre de modo a evitar julgamentos pessoais ou levianos sobre qualquer ação ou pronunciamento, de modo a respeitar a dignidade do outro. Qualquer tipo de humilhação ou exposição pública, com base em interpretações pessoais, sem fundamentação, de modo a denegrir o indivíduo frente a sua moral ou caráter perpassa a ética e repousa no crime, cabível a processos que vão de retratações públicas até indenizações pessoais.

Todas as pessoas têm direito de ter as suas opiniões e de expressá-las, colocando os seus pontos de vista frente a uma situação, porém, atribuir conotações pessoais maldosas e contrárias às ideias iniciais é, no mínimo, irresponsável. Sabemos que a Ética trata de princípios e, portanto, a crítica é necessária e bem vinda. Todavia, há uma dimensão moral nesses juízos: o que está em jogo é o reconhecimento do valor de qualquer pessoa humana, onde o respeito é fundamental. A intolerância é algo que depõe contra a ética, pois, uma pessoa intolerante tem por hábito analisar uma situação com base em uma única interpretação: a sua. Uma pessoa intolerante, antes de dialogar sobre os fatos e tentar entender sobre as reais intenções de um assunto, tenta, de toda forma, censurar o outro, silenciá-lo e expô-lo em público para que seja enaltecido apenas o seu ponto de vista.

O intolerante, por não pensar da mesma maneira que o outro, por julgar palavras ou ações tendo como base apenas um superficial conhecimento de causa, não se incomoda em fazer uma interpretação errônea ou retirar as expressões de um contexto, empregando-as em outro. Um homem ético jamais expõe seus "pré-conceitos", tirando conclusões precipitadas de fatos isolados e espalhando aos ventos conclusões levianas e equivocadas de um indivíduo, de sua moral ou trajetória de vida. O dia em que obter, transferir ou fornecer dados ou informações sem autorização e principalmente julgar sem ter conhecimento de causa for um ato plausível, poderemos riscar a palavra ética do nosso dicionário e, principalmente, o seu significado das nossas vidas.

É certo que todo ser humano é passível de erro e de colocações nem sempre "felizes". As interpretações nem sempre correspondem às intenções e é justamente aí que um dos maiores mandamentos da ética entra em ação: a generosidade.

Ser generoso e ético é dialogar antes de julgar e de expor. A arrogância não combina com a crítica. O ser humano precisa se desarmar para entender o outro antes de fadá-lo a exposição, pois, muitas vezes, na ânsia de defender uma aparente injustiça, corre o risco de cometer injustiças ainda maiores, colocando em xeque os valores morais de pessoas que tão pouco se conhece. Tenho muito medo da confusão que muitas pessoas fazem quando associam competência com bom humor. Podemos, muito bem, defender nossas ideias e nosso individualismo, sem cometer injustiças, agressões verbais ou mesmo utilizar de um mau humor desnecessário. Nem toda pessoa mal humorada é competente, e nem toda pessoa bem humorada é incompetente. São fatos isolados e que são colocados em evidência diante de erros banais.

Conheço profissionais excepcionais, com um humor de dar inveja a Jô Soares, que, diga-se de passagem, é um ótimo exemplo disso. Por outro lado, conheço profissionais totalmente despreparados, cujo mau humor mascara tal deficiência. Aproveitando o ensejo, o professor é alvo certeiro dessa visão distorcida da sociedade. Visto como um "modelo" tem seu profissionalismo muitas vezes abalado por fatos cotidianos, agregados a qualquer ser humano.

A hipocrisia, nesse contexto, toma uma proporção tão gigantesca que se confunde a pessoa com a profissão. Por exemplo: um médico não é bem quisto dançando funk, mas um pedreiro não tem problema. Um professor não pode beber socialmente, mas um auxiliar de serviços gerais pode se embriagar sem causar indignação. Um auxiliar de enfermagem pode se equivocar na ortografia, já um professor é "crucificado" se isso acontecer. Fatos como esses, sim, no meu ponto de vista, são considerados preconceito.

Sinceramente, diante de tantos falsos moralismos e ideias contraditórias é que muitos profissionais estão superlotando os consultórios de psicologia. Temos tamanha obrigação de manter nosso "modelo profissional" que acabamos por perder a essência humana do nosso "eu" individual. Uma vez ouvi de um colunista a seguinte frase: "Se você está na chuva é para se queimar". A máxima da ética contradiz totalmente a expressão, uma vez que, quando uma pessoa ética percebe que alguém está se "queimando", sua generosidade a alerta sobre o perigo e não a expõe ao temporal.

Quando o ser humano se atentar que o verdadeiro modelo tem muito mais a ver com intenções do que com teorias e palavras, propriamente ditas, teremos um mundo melhor de se viver e de se relacionar. O ditado "de boas intenções o inferno está cheio" não se aplica nesse contexto, já que uma pessoa ética não está preocupada em comprovar a superlotação do inferno, mas sim em conhecer as boas intenções das pessoas que estão ao seu lado.


Gilmara Giavarina