“Ser negro no Brasil é ser palestino na faixa de Gaza”. A frase foi proferida várias vezes ontem à tarde, durante a primeira Marcha da Periferia realizada em Bauru, que contou com o apoio de muçulmanos. Entre mulheres trajadas com véu, militantes do PSTU e integrantes da Comunidade do Jardim Ouro Verde, cerca de 20 pessoas participaram do evento organizado em frente à Câmara Municipal, no Centro.
Inicialmente, o ato faria especificamente um recorte de classe politizando o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Seus organizadores, no entanto, foram procurados pela comunidade islâmica, em função da escalada da violência entre Israel e a Faixa de Gaza. Conforme toda a imprensa veiculou, pela primeira vez desde 1970, Jerusalém foi atacada.
Foguete lançado pelo Hamas atingiu assentamento ao sul da cidade sede do governo israelense, sem deixar vítimas. Israel cogita invasão por terra: até 75 mil soldados da reserva devem ser convocados e as principais estradas em torno de Gaza foram fechadas.
Opressão
“Esse ano não é mais um ato somente da Consciência Negra, mas dos oprimidos. Um ato de caráter internacional de solidariedade à Palestina. A situação de opressão e de exploração deles na faixa de Gaza não é muito diferente da de um negro na periferia, onde pelo simples fato de ter a pele negra o torna suspeito e vítima da violência policial e da do narcotráfico”, diz Gisele Costa, uma das organizadoras da marcha, idealizada em um coletivo da Conlutas, há seis anos, no Maranhão.
Enquanto ela falava ao microfone, militantes do PSTU entregavam panfletos informando que o ato também era contra o ataque aos direitos dos trabalhadores, a criminalização dos movimentos populares e sindical, as remoções violentas e a faxina étnica das comunidades negras e pobres. Simultaneamente, o protesto pedia paz pela voz da muçulmana Danielle Drohomereschi, que veio de Foz do Iguaçu, onde a comunidade é muito forte, para morar em Bauru com o marido.
Ela carregava cartaz com os dizeres “Quem luta não está sozinho, somos todos palestinos”. Ao lado dela estava Ziad Shahadeh, que fugiu do Iraque, após viver num campo de refugiados. “O brasileiro é receptivo, querido, mas não sabe o que está acontecendo fora do Brasil. Pedimos justiça”, concluiu.
Data de resistência
Ao politizar o 20 de novembro, a Marcha da Periferia quer consagrar a data como de resistência da população negra e de luta contra o racismo. “Da senzala para a periferia, eu sou negro e minha luta é todo dia”, afirmava Gisele Costa, uma das organizadoras.
Quando deixava o microfone, normalmente ouvia-se o som da bateria do Projeto Ouro Verde 100%. Neste caso, a percussão também veio em tom de protesto. “Tudo o que se diz aqui é verdade. A periferia é esquecida”, destacou Aloisio Almeida, coordenador do projeto ao referir-se também ao bairro.
A ideia do ato é a de denunciar a difícil situação dos trabalhadores e instigá-los a resistir tal qual Zumbi, no Quilombo dos Palmares, informam organizadores.
Neste sentido, também prestaram homenagem à luta dos Guaranis e Kaiowás.