11 de julho de 2026
Articulistas

O patriotismo americano e o anarquismo cívico brasileiro

Vinicius Canaes
| Tempo de leitura: 3 min

Um dos capítulos mais importantes da democracia mundial chegou ao fim, a eleição presidencial dos Estados Unidos. De fato, a escolha do homem que presidirá a maior potência econômica tem total influência na economia mundial, bem como nas relações civis entre as nações. Em meio a debates e pesquisas, a escolha de Barack Obama ou Mitt Romney ficou em segundo plano mediante a aula de patriotismo dada pelos americanos nesta eleição. Dias antes, diversas cidades foram devastadas pelo furacão Sandy, que deixou um rastro de destruição por onde passou. Se não bastassem os prejuízos de cerca de U$$ 40 bilhões, os americanos, em uma de suas piores crises econômicas e sociais de sua história, mostraram seu poder cívico na escolha do homem que ditará as novas regras de convivência do país e de suas vidas nos próximos quatro anos. Tais fatos seriam um embaraço nos resultados em função do possível aumento na taxa de abstenção nas urnas, haja vista, que na democracia americana o voto não é obrigatório.

O que se viu foi uma lição de civismo, pessoas que tiveram suas casas assoladas pelo furacão, sofrendo com a escassez de alimentos, e que ao menos tinham um local para se abrigar, suportaram árduas filas para exercer seu poder de cidadania. Um dos exemplos, uma jovem de vinte e um anos que estava a caminho do hospital durante a madrugada sentindo as contrações do parto, fez questão de que a ambulância parasse durante o trajeto ao hospital em seu centro de votação para que ela exercesse seu direito e dever de cidadã, o voto. Tal fato corroborou com os conceitos mais valiosos sobre cidadania, questionada, ela disse que queria servir de exemplo para o futuro filho. Nós, brasileiros, meros mortais, saímos recentemente de mais uma rodada de eleições, caracterizadas pelas altas taxas de abstenção, justificativas, além da sensação de obrigação que nos move em cada eleição.

Não valorizamos o poder do voto e a importância na escolha dos governantes de nosso país. O Golpe Militar em 64 abrigou as trincheiras da ditadura, quebrando o desenvolvimento sócio-moral e a democracia do país por vinte anos. As Diretas Já vieram como um grito de democracia, eleições diretas, escolha do povo, conquistas que deveriam servir de exemplo, enquanto muitos perderam suas vidas na luta pela democracia, outros tantos perderam suas almas e o mínimo de patriotismo que ainda lhes restava. Pois bem, as grandes mudanças na história de nosso país foram provocadas por gerações coesas e revolucionárias. Enquanto a política americana adota um sistema bipartidário, um dos processos políticos mais duradouros do mundo, criticado por alguns, exaltado por outros, nosso modelo político é retrógrado, o conceito de cidadania em nosso país é supérfluo, não há incentivo à crítica e ao pensamento racional, os valores não são os mesmos. Como peculiaridades, temos compra e venda de votos, os trinta partidos políticos e suas coligações, o quociente eleitoral, e enfim, o tão famoso jeitinho brasileiro de fazer coisas à base da malandragem, mostrando nossa antiquada consciência política. Protecionismo e colonizações à parte, já fomos chamados de país do futuro, terceiro mundo, subdesenvolvido, em desenvolvimento e emergente. Podemos afirmar que décadas após décadas, várias mudanças políticas ocorreram, porém, a mentalidade política continua a mesma, nós, em grande maioria, ainda somos analfabetos políticos e contemplamos o anarquismo cívico brasileiro.

O autor, Vinicius Canaes, é colaborador de Opinião