É possível avaliarmos o estágio do desenvolvimento moral no Brasil através do número de políticos corruptos e daqueles que se enriquecem com dinheiro sujo. Aqui ainda temos em profusão: a falta de civilidade, o oportunista, a fila furada, o imposto sonegado, a especulação e a violência generalizadas. Numa era onde o cumprimento dos deveres e a convivência harmoniosa não são mais um luxo, mas representam a nossa própria sobrevivência, nós ainda estamos engatinhando nos princípios básicos da civilidade.
Será necessário, geração após geração, ensinar a nossas crianças aquilo que é fundamental para a construção da humanidade: a solidariedade, a participação na ação humanitária, o senso de responsabilidade. Se a continuidade biológica da humanidade é garantida pelo mecanismo da procriação, sua continuidade cultural só pode ser garantida pela educação. A educação antecede a tudo e nós não temos uma educação que, minimamente, auxilie nossos jovens a resolverem seus problemas de convivência. Deus só existe na educação; a moral e o sentimento de fraternidade só existem com a educação. Só existe noção de bem comum com a educação. Só existe a verdadeira independência com a educação.
O dever, a proibição, o remorso, a satisfação de ter agido corretamente, a vontade de fazer direito, o respeito ao outro, tudo isso depende da educação. Portanto, uma educação para a vida consiste em ensinar aos jovens que eles têm a responsabilidade de viver moral e eticamente e é isto que irá criar um mundo melhor para eles, para seus filhos e para as gerações vindouras.
Permitir que um jovem cresça e escolha o seu próprio conjunto de valores ? julgando que não devemos interferir nas liberdades individuais ? é tão ridículo quanto um pai dar ao seu bebê a escolha de ser ou não vacinado. Num Brasil de instituições educacionais tão fragilizadas por abandono e falta de investimentos, ou mesmo tão corroído pelo comportamento moral de sua elite e liderança, não é de surpreender a grande incidência de cidadãos vivendo suas vidas em níveis imediatistas e individualistas de desenvolvimento moral.
O distanciamento do comportamento moral das populações que são de "bem" daquelas que são maliciosas, violentas e inescrupulosas é um abismo fatal para qualquer povo. O recurso à violência é a constatação de que as regras do Direito são inoperantes: trata-se da mais drástica constatação que possa ser feita por uma sociedade. Com o aumento da violência, a sociedade renuncia a sua essência que é a organização de vínculos entre os que a constituem.
Tornamo-nos, pouco a pouco, imersos em nossas próprias questões e circunstâncias de vida e nos isolamos. Buscamos depender o mínimo possível dos outros e passamos a considerar só nossos motivos e impulsos acima de qualquer outra coisa. Conseguimos, com este exercício constante, uma percepção de que o mundo existe para nos servir. O proveito próprio passa a ser o fundamento básico de nossos princípios. Contribuímos, assim, ativamente para a destruição de qualquer vínculo de solidariedade e instauramos uma realidade na qual não haja arrependimento.
Tornamo-nos insensíveis e participamos das questões coletivas apenas como curiosos. Como se palpitássemos sobre algo que não nos diz respeito. Assim doamos ao mundo só nossas suspeitas e conjecturas com a frieza e o distanciamento de quem sugere a decoração de uma casa onde não irá viver.
O autor, Paulo Cesar Razuk, é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru