08 de julho de 2026
Regional

Ferrovia tem 5 acidentes em 9 dias

Bruna Dias
| Tempo de leitura: 3 min

Entre a noite de anteontem e madrugada de ontem, em um intervalo de sete horas, dois novos descarrilamentos envolvendo vagões da América Latina Logística (ALL) foram registrados, respectivamente, nas cidades de Pederneiras e Ourinhos. No primeiro caso os vagões estavam carregados com diesel e no segundo a carga era de etanol. Este é o 5º acidente na malha ferroviária da região em nove dias.

O acidente ocorreu anteontem por volta das 21h40 quando três vagões de um trem da ALL, que realizava processo de formação no pátio de manobras em Ourinhos (130 quilômetros de Bauru), descarrilaram. Conforme apurado pelo JC, ao lado do pátio fica o lanchódromo da cidade, por isso, o acidente chamou a atenção dos moradores da cidade e frequentadores do local.

O descarrilamento paralisou o tráfego no trecho até o final da tarde de ontem e, segundo a assessoria de imprensa da empresa, foi aberta uma sindicância para apurar as causas do acidente. Não houve vazamento de combustível nas composições, que estavam carregadas com etanol. O transbordo desta carga para um caminhão-tanque foi feito ainda ontem.

Por volta das 3h de ontem, em Pederneiras (26 quilômetros de Bauru), dois vagões descarrilaram e um vagão tombou parcialmente na entrada do pátio da cidade. Segundo a assessoria de comunicação da ALL, a composição de 26 vagões carregados com diesel seguia para Triagem Paulista. Neste caso também não houve vítimas e nem vazamento de combustível.

Até o fechamento desta edição, cerca de 50 homens da empresa trabalhavam no local para fazer o transbordo deste combustível. O tráfego no local já estava totalmente liberado. As causas do acidente serão apuradas.

 

Histórico

Segundo um levantamento extraoficial feito pelo JC, nos últimos nove dias foram registrados cinco acidentes na malha ferroviária da região. No dia 12 deste mês dois dos 40 vagões carregados de óleo diesel rebocados por uma locomotiva da América Latina Logística descarrilaram quando o trem passava próximo à Estação Ferroviária de Guarantã (78 quilômetros de Bauru).

No dia seguinte, um vagão da MRS Logística, carregado de açúcar, tombou próximo a Torrinha (110 quilômetros de Bauru). Mais tarde, nesta mesma data, oito vagões de outra locomotiva da mesma empresa, carregados de soja, descarrilaram interditando o tráfego por quase 24 horas próximo a Jaú (47 quilômetros de Bauru).

 

A malha ferroviária

Afinal, se a América Latina Logística (ALL) investe anualmente cerca de R$ 650 milhões destinados ao aumento da segurança nas operações ferroviárias sob sua concessão, por que acontecem tantos acidentes?

Recentemente, a empresa, que possui a concessão de grande parte da malha férrea no Estado de São Paulo, foi alvo de uma ação civil pública pelo Ministério Público Federal (MPF) por uma série de detalhes fundamentais para a segurança do transporte ferroviário: dormentes podres, trilhos deteriorados e fala de cancelas. A empresa foi notificada novamente pela Justiça a apresentar um cronograma de melhorias da malha férrea.

Para o especialista em trânsito e doutor em engenharia de transporte, Archimedes Raia Júnior, a falta de investimento das empresas e de fiscalização do governo federal são fatores que explicam a grande quantidade de acidentes nos últimos dias.

“Precisa de mais investimento das empresas e mais fiscalização por parte do governo federal. O descarrilamento fora da mancha urbana já é grave, e dentro da área urbana é gravíssimo. Cada acidente, além de ter um dano para a empresa e, muitas vezes, também acontecem danos ambientais, já que grande parte dos transportes feitos no parque ferroviário envolvem combustíveis”, explicou.

Archimedes ainda frisa que, de acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), um estudo feito entre 1997 e 2009 aponta um crescimento de 56% na movimentação das cargas nas ferrovias brasileiras. “Se este número continuar crescendo e a manutenção não acontecer, consequentemente os acidentes acontecerão com mais frequência”.