10 de julho de 2026
Jogos Abertos 2012

Atletismo: Destinos cruzados

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 7 min

Aline Furlanetto/JAI 2012

As provas de atletismo PCD (pessoas com deficiência) inauguraram ontem o Centro de Atletismo no Milagrão, nos Jogos Abertos do Interior

O sol escaldante que inundava a pista de atletismo do estádio Antonio Milagre Filho, ontem, no Jardim Prudência, não estava facilitando a vida de ninguém. Sem cobertura nem árvores, atletas se amontoavam debaixo de tendas, o público mais desavisado se protegia com bonés e camisetas e a imprensa corria de um lado para o outro, em busca de entrevistas de atletas e de um lugar à sombra.

Mas ninguém parecia estar chateado com o castigo imposto pelo astro rei. Em pista, coisas muito mais importantes estavam em jogo. Uns batalhavam por medalhas, outros, por reconhecimento. Havia ainda atletas em busca de um sonho ou que estavam ali por simples prazer.

Entre tanta gente, também enfrentavam o sol Keila Costa, 29 anos, medalha de bronze no Mundial de Atletismo Indoor de 2010 e prata no Pan-Americano do Rio de Janeiro nos saltos triplo e à distância, e Évelin Ianca dos Passos, 16 anos, estreante nos Jogos Abertos.

Embora Keila e Évelin nunca tenham se encontrado pessoalmente antes e nem sequer conversaram no dia de ontem, elas têm muito mais coisas em comum do que o atletismo.

Évelin tem 16 anos e fez sua estreia nos Jogos Abertos do Interior na tarde de ontem. Com uma garrafinha de água quente, abastecida nos barris disponibilizados aos atletas pela prefeitura municipal, em mãos, ela conta, chateada, que disputou a prova de 5 mil metros rasos com outras 12 atletas e ficou em 6º lugar.

“O Cabo Alcides (técnico da atleta) disse que eu fui bem. Mas eu acho que podia ter ido melhor”, avalia, desapontada.

A autocobrança, segundo a menina, tem fundamento. Ela treina para disputar campeonatos desde os 5 anos. Conheceu o atletismo por meio do projeto social Associação Comunidade em Ação-Êxodo, o Acaê. A princípio, o esporte era uma brincadeira, uma forma de passar as tardes. Aos poucos, tornou-se um objetivo. Hoje, a menina não se contenta mais em apenas participar.

“A Évelin é uma menina muito talentosa e dedicada. Tem futuro”, profetiza o Cabo Alcides.

Para conquistar seus objetivos, a pequena Évelin treina diariamente, das 15h às 17h30, no precário Campo do Oriente. É no chão duro de terra batida que ela corre e salta, em busca de superação.

 

Já vimos esse filme antes

Apesar de nunca ter vindo a Bauru antes, Keila provavelmente sentiria certa familiaridade com este cenário onde Évelin treina todos os dias caso fosse levada para conhecê-lo. Isso porque foi em um modesto e improvisado campo de atletismo da cidade de Abreu e Lima, no Recife, que ela começou a treinar.

“Na minha cidade, quase não havia opções de lazer. Uma das poucas era um projeto social, que oferecia aulas de atletismo. Entrei por acaso, conheci o esporte e me apaixonei”, conta ela, que também participou de seus primeiros campeonatos aos 16 anos.

Entre as recordações da época, está o dia em que ela ganhou seu primeiro par de tênis. O presente veio de um amigo de seu técnico que, sensibilizado com as condições de treino da menina, decidiu ajudar. O homem talvez nem desconfiasse que tal atitude mudaria a vida de Keila.

“Nunca me esqueci daquele gesto. Foi algo simples, pequeno, mas o suficiente para me incentivar a prosseguir com meu sonho”, frisa.

E o tal par de tênis foi o passaporte para o sucesso da atleta. Foi com ele que ela começou a se destacar e ganhou seu primeiro patrocínio, de um fabricante de tênis, coincidentemente.

Mas, apesar de já ser uma atleta mundialmente consagrada, Keila Costa é praticante da mesma autocobrança de Évelin. Ontem, no Milagrão, ela disputou a prova de salto em distância. Ficou em primeiro lugar, com a marca de 6,13 metros.

“Fui bem, fiquei em primeiro, mas podia ter ido melhor. Minha melhor marca é 6,88”, avalia.

Quando pergunto se não se cobra demais, ela responde, de pronto. “Sou competitiva. Quando conquistei o segundo lugar em um campeonato internacional, cheguei arrasada ao aeroporto. O Luciano do Vale (locutor esportivo) estava lá e não entendia por que eu estava daquele jeito. Expliquei para ele. No dia seguinte, ele me convidou para participar de seu programa e conseguiu um grande patrocínio para mim”, conta, orgulhosa.

E se para a bauruense Évelin os Jogos Abertos é parte de um sonho realizado, para Keila, o campeonato é um treino de luxo.

“Vim mesmo para representar a cidade São Caetano e manter o ritmo. Mas acho muito interessante participar. Onde puder participar, lá estou eu”, afirma, bem disposta.



De rachar mamona

33,4º C. Esta foi a temperatura marcada pelos termômetros de Bauru quando as competições no “Milagrão”, o Estádio Sem-Cobertura e Sem-Água, estavam em seu auge. Mas se engana quem pensa que a falta de estrutura afastou o público.

Ciente da importância que o apoio e o prestígio do evento tem para os atletas de Bauru, o público não arredou pé do estádio até o fim das competições.

Ivan Henrique Oliveira, 38 anos, é um dos torcedores que fizeram questão que assistir às competições. Desavisado sobre a falta de cobertura da sede do campeonato, ele improvisou, colocando sobre a cabeça uma camisa.

“O sol está quente mesmo. Mas conheço o Cabo Alcides e sei o quanto ele sonhou com este dia. Estou aqui por ele e pela meninada que está representando nossa cidade”, contou.

Maria do Carmo Marcomini compartilha da mesma decisão de Ivan. Apaixonada por esportes, ela está aproveitando ao máximo as provas realizadas na cidade. Contudo, diferente do moço, ela foi prevenida: trouxe uma sombrinha para amenizar os impactos do sol.

“Como acompanhei o dilema do estádio, sabia que não tinha árvores nem cobertura. Então, vim preparada e vou ficar até o fim”, comenta.

 

Queremos outras ‘Keilas’ no Milagrão

Bauru conquistou sua tão sonhada pista de atletismo. E a inauguração foi realizada com direito a elogios de competidores habituados a estruturas de nível internacional, como Keila Costa, medalhista mundial e representante da cidade de São Caetano.

“Achei a pista muito boa. Superou minhas expectativas. Ter um estádio como este é uma conquista enorme para qualquer cidade, seja ela uma Capital ou do Interior”, avaliou.

Resta agora, depois de passadas a pompa e circunstância exigida pelos jogos abertos, que a pista seja colocada em uso e aproveitada para formar as Keilas de Bauru, que sonham em um dia alcançar distâncias tão longas quanto as alcançadas pela representante da Seleção Brasileira de Atletismo.

 

São Caetano conquista título no atletismo PCD

As provas de atletismo PCD (pessoas com deficiência) inauguraram o centro de atletismo Alcides dos Santos Gonçalves, no “Milagrão”, dentro dos Jogos Abertos do Interior, com a realização de corridas para cadeirantes e deficientes visuais, além do lançamento de dardo, disco e arremesso de peso.

Na Primeira Divisão, São Caetano do Sul e São José do Rio Preto travaram uma disputa acirrada. O campeão da modalidade é apontado de acordo com a somatória de desempenho no masculino e feminino. O título ficou com o time do ABC, que somou 212 pontos, contra 201 de Rio Preto. Piracicaba terminou na terceira colocação com 130. São Caetano acabou abrindo uma boa diferença no feminino. A ex-recordista mundial paralímpica Roseane Ferreira dos Santos, a Rosinha, 41 anos, contribuiu para o bom desempenho da cidade. Ela, que já quebrou o recorde mundial na Paralimpíada (2000 em Sydney) no arremesso de peso e disco, já pensa na carreira de treinadora, mas ainda não perde o gosto de colecionar medalhas. Roseane ficou com o ouro no arremesso de peso para cadeirantes, categoria S58. Questionada sobre o futuro, Roseane foi objetiva: “Quero ser treinadora e estou me preparando para isso. O esporte é tudo para mim”, lembrou. Antes de entrar para o esporte, Rosinha trabalhava como empregada doméstica. A perda da perna esquerda num atropelamento a levou para o atletismo paraolímpico.

Na Segunda Divisão, o título ficou para Jundiaí. A cidade teve um bom desempenho tanto no atletismo PCD masculino como no feminino. Jundiaí venceu com 132 pontos, seguido por Mogi das Cruzes, que terminou em segundo com 114 pontos. Santos, ficou em terceiro com 54.