09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Menor, um problema nacional. Responsabilidade de quem?


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A carta do sr. João Álvares, publicada aqui na tribuna no dia 20 de novembro último, é muito apropriada não só pela época de Natal que se aproxima, mas principalmente pela realidade que bem poucos conseguem ver. Há algum tempo tenho trabalhado em instituição social que busca resgatar e colocar um pouco de dignidade, amor e respeito próprio em crianças, adolescentes e adultos, marginalizados e vítimas do caos social em que vivemos.

A carta me trouxe a lembrança um episódio de quando ainda trabalhava de forma voluntária e fiz uma palestra sobre "o futuro" para adolescentes que cumpriam medida sócio educativa de liberdade assistida. Dizia eu, para 20 ou 30 adolescentes, que o nosso futuro é reflexo daquilo que fazemos no presente. Que se quisermos conquistar um sonho, precisamos analisar como está nossa vida e nosso comportamento no hoje. Um dos adolescentes me olhou e perguntou: Que futuro? Nós não temos futuro! O que mais me comoveu foi o fato de que aquele adolescente não estava brincando ou me desafiando. Ele realmente acreditava que não tinha futuro.

Foi difícil, mas compreendi suas palavras. Um dos trabalhos que fazemos na instituição que trabalho é ensino infantil (creche). Quando visito a creche é uma delícia chegar lá e ser recebido pelas crianças de três, quatro anos que correm nos abraçar, conversar, implorando um pouco de atenção mas transbordando amor e carinho. Quando pergunto sobre a família dessas crianças a resposta comum é que o pai está preso ou não tem pai, que os irmãos mais velhos estão no tráfico, que a mãe ou irmãs estão na prostituição, que quando não estão na creche estão na rua ou na casa de parentes. Então pergunto, e aí? Que futuro?
Quando vou ao abrigo de adolescente, (casa que também é mantida pela nossa instituição) já posso perceber um pouco da rebeldia normal da idade dos adolescentes que lá estão, mas também muita mágoa por estar ali no Lar Abrigo por uma determinação judicial por conta de abandono, miséria, abuso ou exploração da própria família. No trabalho com esses adolescentes, descobrimos a falta de vínculo familiar, de apoio e orientação desde o nascimento. Descobrimos uma realidade onde seis, sete pessoas moram numa casa (barraco) de um único quarto e uma família muito parecida com a das crianças da creche. Então pergunto, e aí? Que futuro?

Outro dia estive na Comunidade Terapêutica para adultos (que também mantemos) e conversando com um dos internos que buscam sua recuperação ele me dizia sobre como é difícil ficar fora "do movimento" (tráfico) quando se cresce em um local onde você olha para um lado e vê o seu pai acabado levando uma vida correta e honesta, mas trabalhando como um escravo em troca de uns poucos reais que não dão nem pra dar o mínimo pra sua família. Olha pro outro lado e vê um cara jovem, "cheio de moral", com carro, roupa da moda e respeitado por todos no bairro e bajulado pelas "mina" mais bonitas do local só porque é o dono da boca de tráfico. Então pergunto: e aí?

Que Futuro? Estamos prestes a abrir mais uma casa, desta vez para acolher mulheres usuárias de crack em situação de rua. Uma das preocupações que já percebemos para este trabalho é que muitas das mulheres que se encontram nessa situação estão grávidas. Muitas estão grávidas por conta da prostituição como forma de sustentar o vício. Ou seja, é pouco provável que estas crianças nasçam e cresçam naquilo que imaginamos ser uma lar adequado para qualquer pessoa. E eu, pergunto mais uma vez: e aí? Que futuro?

Sei que muitos não concordam com isso e preferem a lei do castigo e da chibata como forma de correção. Normalmente pessoas que, do alto do seu trono, estão imunes à essas coisas como drogas, desemprego e misérias. Eu acredito que é difícil não ser mau quando não se conhece o bem, quando não se conhece o amor, quando não se conhece o que é o certo. Há exceções, claro, mas eu acredito que muitos adolescentes não respeitam professores, não respeitam os mais velhos, não respeitam policiais, não respeitam ninguém somente por não saberem o que é respeito.

Nunca tiveram a quem respeitar e muito menos foram respeitados em sua vida. Podem acreditar, isso acontece, e muito, aqui mesmo em Bauru. Mas a pergunta que realmente gostaria de fazer é a seguinte: esses bebês, essas crianças, esses adolescentes que vemos nas ruas, eles tem culpa de se tornarem o que se tornam? Posso até pensar que "não sei de quem é a culpa, mas minha não é! Eu cuido da minha família! Mas, torno a perguntar: e eles? Eles têm culpa?

José Luiz de Oliveira Prata - leitor