08 de julho de 2026
Articulistas

A hipocrisia das cotas

Jéthero Cardoso
| Tempo de leitura: 4 min

O que você, leitor, acha do sistema de cotas? Você faria uma cirurgia delicada daqui a, digamos, dez anos com um médico que entrou na faculdade pelo sistema de cotas com nota 5,5 ou preferiria aquele que, reprovado no mesmo vestibular com nota 6,9, deu duro nos estudos e passou no ano seguinte com 8,1? O tema é interessante, especialmente porque estamos em tempos de Enem (um vexame por ano, diga-se), e uma nova fornada de calouros vai entrar nas universidades.

Meritocracia. Esta palavra, que tem frequentado as páginas de revistas e jornais nos últimos tempos, resume um conceito essencial para a justiça social. É pelo mérito e pela competência que as pessoas devem se destacar ? e por isso os concursos públicos são tão disputados. Neles, presume-se, as condições são iguais para todos, e vencerão os mais bem preparados.

O ministro Joaquim Barbosa, elevado, merecidamente, à categoria de herói nacional, comprova com sua própria história de vida o absurdo do sistema de cotas, criado supostamente para pagar a dívida do País para com a população negra pelas humilhações a ela impostas pela escravidão. Mineiro de Paracatu, filho primogênito de um pedreiro e uma dona de casa, Barbosa virou arrimo de família quando os pais se separaram. Aos 16 anos, em 1970, foi sozinho para Brasília e arranjou emprego na gráfica do Correio Braziliense.

Terminou o segundo grau sempre estudando em escola pública e formou-se em Direito pela UnB, Universidade de Brasília, onde em seguida completou seu mestrado em Direito do Estado. Mas fez muito mais: foi oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores, advogado do Serpro, procurador da República aprovado em concurso, fez mestrado e doutorado em Direito Público pela Universidade de Paris, professor concursado da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É fluente em francês, inglês, alemão e espanhol. E, para completar, toca piano e violino desde os 16 anos.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. A escravidão foi uma infâmia que mancha a história do País, mas não é com medidas paternalistas que se vai saldar a dívida para com os descendentes de escravos. Em vez de separar vagas para acesso facilitado às universidades, a questão central que o Estado brasileiro não toca é a do sucateamento do ensino público. Fui aluno do Instituto de Educação Caetano de Campos, em São Paulo, na década de 1960. Escola pública lendária pelo alto nível, lembro que, terminado o antigo colegial (clássico e científico), os alunos da Caetano entravam nas melhores faculdades sem fazer os famigerados cursinhos. Quando digo melhores, eram as melhores: Medicina na Pinheiros, Direito na São Francisco, Engenharia na Poli ou ITA. As provas do colegial tinham nível de vestibular.

Agora, a recém-nomeada ministra da Cultura, "Martaxa" Suplicy ? que ganhou seu ministério para sair do armário e apoiar a campanha de Fernando Haddad ?, anuncia que vai privilegiar com verbas projetos culturais das "minorias": negros, gays e mulheres. Cria-se no Brasil um culto às minorias que, além de desconhecer a questão do mérito, é até inconstitucional, já que a lei maior preconiza que todos são iguais.

Ora, a opção sexual de um indivíduo não pode servir de justificativa para privilégios sob o argumento de que ele faz parte da minoria. Ademais, a seguir esse critério, teremos de prover verbas e proteções extras aos índios (os verdadeiros primeiros donos do País, e que estão sendo massacrados há séculos; aqui, alguns detalhes: http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2012/11/12/comissao-da-verdade-apura-mortes-de-indios-que-podem-quintuplicar-vitimas-da-ditadura.htm), amarelos, bolivianos, árabes, judeus etc. etc. Todos eles são minoria. Levando ao extremo, até os brancos são minoria, dado que o último censo apontou que a população de pardos e negros soma 50,7%, contra 47,3% de brancos.

Joaquim Barbosa fez escola pública e não precisou de cotas. Barack Obama, também descendente de escravos, é o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, fez Ciências Políticas na Universidade Columbia, em Nova York, e Direito em Harvard. Não precisou de cotas, e nem as teria, pois não existem em seu país.

Querem dar mais chances às minorias? Paguem muito bem aos professores para que possam se atualizar e viver apenas do ensino - o professor, hoje, vive na miséria. E nele, como nas crianças, está o futuro do país. Aparelhem as escolas públicas com boas bibliotecas, quadras de esporte e tecnologia. Estimulem a leitura dos bons autores. Então, com chances iguais, os melhores vão se destacar naturalmente, sem "proteções raciais". Vamos parar com essa detestável hipocrisia.

O autor, Jéthero Cardoso, é jornalista