09 de julho de 2026
Polícia

Medo muda rotina no Mary Dota

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

Boato ou ameaça? Nesta semana, moradores e comerciantes do Núcleo Habitacional Mary Dota, em Bauru, conviveram com essa dúvida acerca da possibilidade de ataques criminosos no bairro. A polícia confirma o clima de tensão, porém, destaca que o medo tenha origem completamente em rumores infundados. Apesar da posição oficial, o fato é que a população do local adotou um “toque de recolher espontâneo”.

Os moradores afirmam que as ruas têm tido movimento bem aquém do costumeiro durante a noite. E entre a maioria, a conversa é a mesma: “ouvimos falar que vai ter toque de recolher e que tudo deverá estar fechado até 22h”.

As falas coincidem e o temor também. Todos os ouvidos pela reportagem não deram seus nomes. Alguns, nem a idade quiseram informar. Outros, mais amedrontados, preferiram não falar com imprensa no meio da rua. “Vai que alguém passa e me vê?”.

 

Estopim

A história em torno da possibilidade de ataques teria começado após um homem de 29 anos ter sido baleado no Beija-Flor recentemente. Ele seria membro de uma facção criminosa, o que teria sido o estopim para uma guerra.

As autoridades rebatem que os fatos não estão revestidos de qualquer verdade. O capitão Fabiano Serpa, contudo, confirma que foi exatamente por conta dessa ocorrência que os boatos começaram. “Porém, conforme já disse, são apenas rumores”, destaca.

O toque de recolher emitido pelos criminosos seria retaliação de uma facção criminosa a um crime ocorrido no Beija-Flor (leia mais abaixo). Lá, juntamente com outros bairros como Bauru 2.000 e Geisel, as histórias do Mari Dota se repetem e moradores relatam viver com medo.

Mas, até que ponto as ameaças são reais? Todos que o JC conversou afirmam ter “ouvido falar”, porém, ninguém relata ter recebido alguma ordem direta para fechar o comércio ou ficar em casa.

“Logo que esse boato começou, mandei vários policiais para o bairro. Eles ouviram várias pessoas, mas, é sempre é a mesma coisa. Ninguém recebeu nada diretamente. Todo mundo diz apenas que ouvir falar sobre isso”, pondera o capitão Fabiano de Almeida Serpa, comandante da 4.ª Companhia da Polícia Militar (PM).

Na dúvida, a população prefere se precaver. Mesmo sem ninguém afirmar ter recebido um toque de recolher “oficial” da criminalidade, muitos adotaram a medida por conta própria. “Eu não saio de casa de jeito nenhum. Não vou correr esse risco”, conta um morador do bairro. Com 62 anos, ele tem mais de 20 morando no Mary Dota. “Nunca vivi algo assim”.

E o “toque de recolher espontâneo” parece ter sido mesmo adotado. Quem não fecha por conta própria seu comércio noturno, sofre os efeitos. “O movimento está muito baixo por conta de tudo que estão falando. Além de estar com medo, nesses dias, estou tendo prejuízo”, relata uma comerciante, de 25 anos.


Boatos

O capitão da PM Fabiano Serpa não esconde que o clima de tensão está instalado no Mary Dota. Ele, porém, reafirma que não existe nada a temer. “É tudo baseado em boatos. Tem alguém com interesses escusos fomentando esse monte de rumores”.

O oficial acredita que os boatos ganharam forças na carona da onda de crimes que assola a Capital nos últimos meses. Entre as histórias que circulam no bairro e, inclusive, chegaram à reportagem durante esta semana, estariam a de um policial baleado e de ônibus incendiados.

“São todos rumores. Nada disso aconteceu. O bairro, inclusive, não apresentou índices de criminalidade acima do normal”, complementa o capitão. A reportagem realmente não confirmou nenhum dos supostos ataques. Segundo Serpa, a missão da polícia neste momento é exatamente combater a sensação de insegurança. Por isso, o policiamento aumentou.

 

Tensão: escolas e igrejas

O temor não ficou restrito somente aos comerciantes. Vários moradores relataram que a história dos supostos ataques chegou a escolas da região e até a igrejas. Algumas crianças estariam pedindo para sair mais cedo das aulas para ficar na rua ao escurecer. Outros diretores estariam aconselhando os alunos a não ficar na frente das instituições.

“Hoje (ontem), pedi para os policiais percorrerem várias escolas. É a mesma coisa. Os alunos dizem que ouviram falar. Mas, não há nada de concreto”, rebate o capitão Fabiano de Almeida Serpa, comandante da 4.ª Companhia da PM.

Da mesma forma, o assunto estaria sendo debatido em igrejas. Apesar da repercussão, a Polícia Civil também garante que são boatos, diz o delegado Kleber Granja.


Conseg afirma não haver pânico

A reunião mensal do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Leste/Norte começa. O primeiro assunto a ser debatido pelos 30 presentes: a tensão no Mary Dota. A presidente do órgão, Maria Helena Malmonge, entretanto, pontua: “não há motivo para pânico”.

De acordo com ela, não há nada de anormal. “Na reunião (que foi realizada anteontem), todo mundo fala a mesma coisa. Diz que ouviu falar. Mas eu não vi nada de anormal”.

Ela relata que está, inclusive, percorrendo o Mary Dota em períodos noturnos. “Foi um boato que se espalhou. Até agora, não vi nada de diferente acontecendo”, finaliza Maria Helena Malmonge.