Era por volta das 19h do dia 17 de novembro quando as portas da igreja de São Sebastião, na Vila Cardia, se abriram. Ao som da tradicional marcha nupcial, Jozinete de Oliveira Santos Costa, 37 anos, e seu tio Florentino de Oliveira caminharam lentamente rumo ao altar. Ela com um sorriso estampado no rosto, desviando o olhar dos convidados que se derramavam em prantos, na tentativa de não chorar junto deles. Ele com os braços trêmulos, emocionado de acompanhar a sobrinha até o altar.
No meio do caminho, a marcha deu lugar a Ave Maria, de Xitãozinho e Xororó. Mais alguns passos e Jozi chegou ao altar, onde foi recepcionada pelo marido Ubiratan Fernando Pereira da Costa, 40 anos, o Bira. Não derramou uma lágrima. Tinha, na verdade, muitos motivos para sorrir.
O relato acima pode ser parecido com muitas cenas de casamentos que você, leitor, certamente já assistiu, não fosse a diferença de que casar-se na Igreja sempre foi o sonho de Jozi e que por pouco, muito pouco, um câncer não a impediu de realizá-lo.
Com ajuda dos amigos, muita força e fé seu sonho se tornou realidade no último sábado. E você, reclama da vida, do calor, do trânsito? Então, leia a história de Jozi e faça seu dia diferente.
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Arquivo pessoal |
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Casar na Igreja sempre foi o sonho de Jozi e que, por pouco, um câncer não a impediu de realizá-lo |
Vontade de voar
Filha única, Jozi nasceu no pequeno povoado de Lagarto, no interior do Sergipe. De família humilde, sonhava em mudar-se para uma cidade grande, trabalhar e ser independente.
“Eu era menina e já queria saber o valor das coisas. Quanto custava ter uma roupa, comer uma comida, sair com os amigos...”, conta.
Foi então que, ainda adolescente, mudou-se para a capital Aracaju. Já nessa época se imaginava entrando na igreja, vestida de noiva, de véu e grinalda. Sonho compartilhado por sua mãe, que com dor no coração deixou a única filha sair de casa em busca de seu próprio destino.
Jozi morou em Aracaju até conhecer o Guarujá, em São Paulo. A paixão pela cidade do litoral paulistano se deu quando ela, a convite da mãe, foi visitar um tio que morava há anos no local. Foi, voltou, fez as malas e foi de novo. Tinha 20 anos.
Passou cinco anos no litoral, época em que começou a trabalhar na casa de uma família como empregada doméstica. Foi a convite dos patrões que ela novamente refez seu destino e chegou a Bauru, onde encontraria seu grande amor.
“A filha dos patrões passou em uma faculdade daqui de Bauru e eles decidiram mudar-se para cá. Como além de trabalhar eu morava com eles, aceitei o convite. O máximo que poderia acontecer é eu não gostar de Bauru e voltar para o Guarujá”, lembra a respeito da decisão.
Mas gostou. Tanto que mora na cidade até hoje. Sua primeira raiz na cidade começou a crescer logo nos primeiros meses, quando conheceu o simpático e galanteador Ubiratan Fernando Pereira da Costa, o Bira.
Fizeram amizade fácil. Com o tempo, começaram a sair juntos e, sem perceber, estavam apaixonados. Bira se empenhou na conquista. Mandou cartas, apresentou a família, propôs amor eterno. Jozi havia encontrado o noivo com que tanto sonhara.
O susto
Josi passou algumas semanas de dezembro no Sergipe, junto do marido, dos pais e dos filhos. Voltou renovada. Nas primeiras semanas de janeiro, começou a sentir uma forte diarreia.
“Nem me preocupei. Achei que fosse por conta da quantidade de castanhas que comi. Pensando que passaria logo, tomei alguns sucos caseiros”, conta sorrindo.
Como a diarreia permaneceu, com a insistência das colegas de trabalho buscou ajuda de um médico, que fez exames e deu o diagnóstico: certamente, era algo que ela havia comido. Um remédio para cortar diarreia solucionaria o problema.
Não solucionou. Diante da situação, Jozi marcou consulta com um clínico geral. Sem pedir exames, o médico receitou remédios para vermes e orientou Jozi a voltar dentro de 15 dias caso o problema não cessasse.
Não cessou e Jozi voltou. Foi então que o médico a encaminhou para uma gastroenterologista. Com base em exames, o diagnóstico: Jozi tinha uma doença rara e bastante agressiva, câncer de reto. Nesta data, fazia três meses que ela havia sentido os primeiro sintomas.
O princípe era um sapo
Como nada nesse mundo é um conto de fadas, com a vida de Jozi não foi diferente. Bira era, sim, o homem da sua vida, mas não seria fácil tê-lo como marido.
Além da oposição por parte da família dele, que achava que Jozi o levaria para o Sergipe, Bira passava por problemas por conta de sua antiga relação. Ele e Jozi constantemente brigavam.
“Por isso decidi me afastar dele”, lembra Jozi.
Decisão que veio tarde. Pouco tempo depois ela descobriu que estava grávida de David, hoje com 7 anos, o primeiro filho do casal.
“Ficamos um tempo nos falando somente o básico, até que ele não aguentou e pediu que eu voltasse com ele. Coloquei uma condição: se quisesse realmente ficar comigo, teria de casar. Ele aceitou”, conta.
Mas até que a promessa de Bira fosse cumprida, o casal teve seu segundo filho. Pietra nasceu no dia 4 de agosto de 2008, no mesmo dia do aniversário do pai.
Dois anos depois, em 2010, ele pediu que Jozi marcasse o casamento no civil. Ela ignorou o pedido. Ele, notando a demora da esposa, assumiu a frente da situação, passou no cartório e agendou a data.
“Nos casamos no civil em novembro de 2010 e combinamos de casar na Igreja em 2011. Para comemorar, depois de 12 anos, voltei para o Sergipe, rever meus pais. Estava muito feliz”, conta, sorrindo.
Vendo a vida com outros olhos
“Me lembro que, no dia em que recebi o diagnóstico, minha médica foi bem clara comigo: disse que eu precisava ser forte. Que meu tratamento dependia muito de minha força e de minha fé. É isso que venho fazendo desde então”, conta Jozi.
Como início de tratamento, fez as primeiras seis quimioterapias. Não se abalou. Não gostava dos efeitos colaterais do tratamento, mas nunca reclamou. Depois, marcou uma cirurgia para retirada do tumor.
“Tomei anestesia e apaguei. Horas depois acordei na UTI, cheia de aparelhos, com a notícia de que a cirurgia não tinha dado certo. Tive hemorragia durante o procedimento e os médicos não puderam continuar. Era preciso voltar com as quimios”, relata.
Seis novas sessões de quimioterapia e um novo exame depois, Jozi recebeu a notícia de que o câncer pouco havia diminuído. Era necessário intensificar o tratamento.
“Então, a médica receitou 25 radioterapias e 6 quimioterapias, que fiz intercaladas. No fim do tratamento, um novo exame. Desta vez, meu tumor havia aumentado”, conta.
Com a notícia, Jozinete sentiu o baque. Chorou pela primeira vez e pensou em desistir. O incentivo dos amigos, do marido e dos filhos, nesta hora, foi fundamental.
“No dia seguinte, limpei as lágrimas e fui à luta de novo. Não vou me entregar!”, avisa, decidida.
Depois da má notícia, Jozi já fez outras três quimioterapias. Mas durante este tratamento muitas coisas boas aconteceram.
“Amiga, você vai se casar!”
Com a afirmativa, Edivânia teve uma ideia que mudaria para sempre a vida da amiga: recorreu ao Facebook para fazer o casamento de Jozi.No dia último dia 4 de agosto, Bira e Pietra, respectivamente marido e filha de Jozi, comemoraram mais um aniversário. Em virtude da data especial, uma antiga amiga da família foi visitá-los. Na oportunidade, Edivânia Estevan Paschuini perguntou à amiga se ela ainda nutria o sonho de casar-se na Igreja. Jozi disse que sim, porém, por conta da doença, o casamento estava fora dos planos do casal.
“Em menos de 15 dias o casamento dela estava armado. Cada um doou um pouco e juntos conseguimos realizar um lindo sonho”, conta ela, que viu no gesto uma forma de repassar ao próximo a ajuda que havia recebido no passado, quando não tinha onde morar e foi acolhida pela avó de seu marido, Cecília Balbino dos Santos, já falecida.
“Me lembrei que no momento que eu mais precisei tinha uma pessoa disposta a fazer o bem e pensei: por que eu não posso fazer o mesmo? Foi assim que a ideia de organizar o casamento da Jozi surgiu”, conta.
A notícia de que muitas pessoas estavam mobilizadas para realizar seu sonho surpreendeu Jozi, que custou a acreditar no que ouvia.
“A Edivânia me disse: senta, Jozi, vou te dar uma notícia: você vai se casar no dia 17 de novembro”. Foi emocionante”, lembra, sorrindo.
Corrente do bem
Fizeram parte da corrente do bem o decorador Hebert Bueno, Cessy Doces Finos, Roseli Aparecida Palácio, Rosimeire Aparecida dos Santos, Silvia Flamaneri (lembrancinhas), Marcelo da Silva (terno do noivo), Romântica Boutique, Josefa ne Antônia (bolos), Mult Flores Floricultura, PCP Foto e Vídeo, Noivas e Ideias, Marcos Marcelo (cabelo), Edna (manicure), Assenag (salão), Igreja São Sebastião, Dr. Ângela (buffet), Cíntia (divulgação), Rosângela (transporte), Daniele e Kelly (cerimonial), além de parentes e amigos dos noivos.