Palco da ação: avenida Getúlio Vargas, no sentido bairro-centro, sábado, aproximadamente 8 horas da manhã. Estava fazendo a caminhada, quando ouvi uma buzina disparada de um táxi prata, que fazia a rotatória com a avenida Nossa Senhora de Fátima, protestando contra a irresponsabilidade ou distração (imperdoável para quem está dirigindo e, cá para nós, quem já não se distraiu?) de um motorista com o carro preto, que não obedeceu à sinalização de preferencial para quem está na rotatória. Buzinada repreensiva e educadora, trazendo de volta a atenção do distraído. Mas, sempre tem um mas, essa buzinada teve um efeito pedagógico positivo, que a meu ver, o motorista do táxi prata (não vou citar o modelo do carro, para não comprometer seu trabalho) estava certíssimo. Continuo a caminhada e vejo o táxi prata podar pela direita o carro preto. Primeiro erro dele. Em frente ao prédio da Justiça Federal, vejo o trânsito engarrafando e desviando o fluxo para a faixa da esquerda. Surpresa!!! Olha o táxi prata, parado no meio da rua, conversando com o motorista do carro preto que não obedeceu a sinalização anteriormente. Segundo erro: é para parar no meio da rua? É um comportamento profissional de alguém que vive no e para o trânsito? Não sei se estava transportando algum passageiro e nem imagino a sensação de alguém vivendo essa cena, dentro desse táxi. Quando se fala em educação brasileira em níveis baixos, encontramos exemplos em todos os segmentos. Na escola, nos hospitais, no trânsito, no comércio, na indústria. Somos um país em que todos têm somente direitos e nenhuma obrigação. É nessa hora que me questiono se o ser humano, dotado de inteligência, que raciocina, prevê reações, agride ou se defende, pode ser considerado superior aos animais. Será que uma onça vai apenas dar um susto no pequeno cabrito, só para mostrar sua superioridade?
A necessidade de disciplinar, defende a elaboração de leis, mas quando estas não são respeitadas, de que adianta tê-las? Somos hipócritas, pois chamamos nas celebrações religiosas o nosso próximo de irmãos, mas na primeira ocasião mostramos nossa índole irracional. Duvida? Observe o comportamento dos motoristas ao final desses cultos. Nesta época do ano, uma névoa mágica, chamada Natal, desce sobre nossos olhos, minimizando e tornando-nos mais fraternal, mas por que isso não é um comportamento diário, por todo o ano? Como podem dormir tranquilos todos esses personagens que diariamente desfilam pelos noticiários mostrando seus crimes e poucos, ao lerem as notícias, refletem sobre suas consequências. Fala-se muito em violência contra a vida no trânsito, que é um fato concreto, preocupante e alarmante pelo número de vítimas diárias. Mas essa atitude de revanchismo, quem já não viu, ou até pelo esquentamento momentâneo do sangue, já não o fez, demostrando a falta de racionalidade em medir as consequências?
Anteontem, o polêmico Rafinha Bastos criticou a atitude do Luciano Huck, por seu mau comportamento no trânsito. Até aí ele está certo, a meu ver, mostrando a repercussão de uma celebridade em dar mau exemplo. Mas sua mensagem faz uma agressão desnecessária ao Luciano, com palavrões e conselhos ridículos. Como devemos interpretar tudo isso? A vida é um eterno aprendizado, e aprendi numa missa de 7º dia, com o padre Schubert, que até na hora da morte aprenderemos como se morre. Revanche só é saudável no esporte bem praticado, inclusive muitas vezes onde se incentiva essa revanche apenas com fins monetários. Exemplo: os clássicos entre Palmeiras e Corinthians. Somos humanos, sujeitos a erros, mas também dignos do perdão, e a coisa mais difícil é passar pelo orgulho e pedir perdão a quem ofendemos. Que o espírito do Natal, destituído de seu verniz puramente comercial, nos faça refletir sobre a primeira lei que Jesus pregou: amar ao próximo.
O autor, Arnaldo Pinzan, é professor universitário e secretário do Lions Clube de Bauru-Centro