08 de julho de 2026
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Pingos nos ?is?

Luís Paulo Domingues
| Tempo de leitura: 3 min

No último domingo foi ao ar a campanha da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) para a conscientização pública sobre a medida provisória 579, da presidente Dilma. A medida do governo impedirá as empresas de energia de cobrar a amortização correspondente à construção das hidrelétricas, que é paga pelos consumidores desde que elas foram construídas, há mais de trinta anos. O presidente da FIESP, Paulo Skaf, aparece no vídeo dizendo o seguinte:

"Há mais de dois anos lutamos contra o preço da conta de luz no nosso país. A presidente Dilma entrou nessa briga e fez a Medida Provisória 579, que, a partir de janeiro, vai reduzir em torno de 20% todas as contas de luz. A notícia ruim é que umas poucas empresas estatais de energia, que vêm cobrando durante anos preços absurdos e injustos, estão fazendo um grande lobby, junto a deputados e senadores, para derrubar a lei. Não podemos permitir que isso aconteça. Ligue paras as rádios, jornais, TVs. Use a internet. Mande um recado para o seu deputado, seu senador. Eles foram eleitos para lhe defender e não para defender os interesses de empresas de energia".

A mensagem de Skaf poderia render um estudo sobre o poder no Brasil - e sobre como ele é exercido. Isso explicaria também o porquê dos constantes problemas que a presidente Dilma enfrenta com sua própria base no Congresso. Muitos partidos aliados estão lá para abocanhar o poder conferido a quem controla politicamente setores importantes do país. A energia é um deles.

De acordo com "Honoráveis Bandidos" (o livro de Palmério Dória que conta a incrível saga da feudalização do Maranhão pela família Sarney), o setor elétrico de boa parte do Brasil está atrelado aos Sarneys (ou diretamente, ou através de algum braço político). Se digitarmos, por exemplo, "Sarney e setor elétrico" no Google, aparecem estas manchetes, logo na primeira página: "Empresários veem poder intocado de Sarney no setor elétrico" (2011); "Sarney segue controlando todo o setor elétrico do país" (2011); "Gravações inéditas mostram Fernando Sarney operando no setor elétrico a favor de Flávio Decat (2011)". Também aparecem estas: "Dilma terá que rifar Lobão para desligar Sarney do setor elétrico"(2012); "PMDB perde espaço no setor elétrico (2012)". Abrindo a página do jornal O Estado de São Paulo, referente a este último título, lemos: "Devagar e sem alarde, a presidente Dilma Rousseff está "expurgando" o PMDB do setor energético. Depois de tirar o partido do comando da Eletrobrás e trocar o presidente e dois diretores da Eletronorte, indicados pela legenda, o aliado agora está sendo apeado da Petrobras".

O governo, portanto, na figura da presidente Dilma, é obrigado a lutar contra "interesses" de suas próprias estatais, porque elas estão nas mãos de caciques políticos regionais, cujo exemplo mais acabado é José Sarney. As estatais estão em suas mãos porque os feudos eleitorais e os grupos políticos que eles controlam lhes conferem esse poder, que cresce ainda mais por conta de orçamentos bilionários passando por sua tutela - poder de pressionar presidentes, inclusive. Isso funciona como um círculo vicioso. Ou pelo menos funcionou até o momento e Dilma está prestes a jogar areia nessa engrenagem.

Pensemos em todos os atos do governo Dilma neste ano em direção à verdadeira emancipação da política no Brasil e contra a estrutura arcaica dos caciques estabelecidos em facções no Congresso. O conhecimento público dessas batalhas de bastidores pode e deve ser ampliado, para que a população faça a pressão sugerida por Skaf na campanha da Fiesp. Não faltam ameaças à política de Dilma. Há alguns meses, Collor profetizou até um impeachment, caso a presidente não se acertasse com o PMDB. O caminho do nosso desenvolvimento, como era de se esperar, exige informação, participação e pressão popular. A campanha "Energia a preço justo" já é um bom começo. Obs: Skaf é filiado ao PMDB, o que torna seu alerta ainda mais louvável.

O autor, Luís Paulo Domingues, é professor de história, jornalista e colaborador de Opinião