08 de julho de 2026
Articulistas

Crescendo pouco

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Não adianta brigar com os números: o crescimento de pífios 0.6% do Produto Interno Bruto no terceiro trimestre decepcionou. Numa boa medida, pegou na contramão administradores públicos, analistas econômicos e "tutti quanti", causando um desencanto geral, talvez mais em função da surpresa do que pela taxa em si, que vem caindo desde o primeiro trimestre de 2011. A brutal flutuação nas taxas de crescimento (+ 6,4% no primeiro trimestre de 2008, menos 1,4% no terceiro trimestre de 2009 e + 7,6%) esconde o fato que o PIB brasileiro não cresceu consistentemente mais do que 4% ao ano no período 2003 a 2012 ou mais do que 3% entre 1995 e 2002.
Talvez a coisa mais difícil de aceitar não seja, então, um número tão baixo no trimestre recente, e sim o fato que nenhum de nós sabia o que estava acontecendo: nem o governo, nem os analistas financeiros, não houve ninguém que tivesse feito uma aposta de que ele seria menor do que 1% no período. Os analistas mais corajosos diziam algo como "pode ser entre 1.1% e 1.3%" e o próprio governo, nas vésperas da divulgação do número do IBGE, aceitava as previsões, o que mostra que os indicadores independentes são muito ruins e que nós temos que trabalhar muito até conseguir arranjar indicadores mais corretos. Todos (inclusive quem escreve esta coluna), estávamos convencidos de que o crescimento entre o terceiro e o segundo trimestre seria parecido com 1% e acreditávamos que dispúnhamos de "indicadores antecedentes" de boa qualidade.

O crescimento do PIB informa os bens e valores que estarão disponíveis para a sociedade usufruir, mas o que é mais importante é a sua distribuição, a natureza do que é mais investimento e do que são bens de consumo. Se o crescimento do PIB no terceiro trimestre tivesse sido de 1.2% ou 1.3% teria sido muito melhor; mas, apesar do fraco índice dos serviços (inclusive no crédito), não é nenhuma tragédia, ele apenas o indica um crescimento muito menor do que se esperava. O volume do crédito é, seguramente, um dos fatores mais importantes na demanda global. E continua a reação fraca da produção industrial brasileira que, além de ter sufocadas suas exportações, está tendo seus produtos substituídos no mercado interno pelas importações, em grandes volumes e de forma predatória. Isso, graças ainda à valorização do Real que deixamos acontecer durante anos, e que só agora está sendo "mais ou menos" corrigida.

É preciso observar que apesar de ruins, os indicadores trazem uma noticia razoável: do primeiro para o segundo trimestre o PIB cresceu 0.1%; do segundo trimestre para o terceiro cresceu 0.2% e do terceiro para o quarto trimestre cresceu 0.6%. Minha expectativa é que no quarto trimestre cresça um pouco mais, 0.8%. Se isso se confirmar, significa que o PIB poderá estar rodando em torno de 3% no fim do ano de 2012. Vamos ver se em 2013 a economia acelera, finalmente, em razão das medidas de incentivo aos investimentos, a redução das taxas de juro, com as desonerações das folhas de salários e as concessões de obras que estão sendo anunciadas. Acredito, mesmo, que poderemos ter um crescimento de uns 4% em 2013. É perfeitamente factível.

O autor, Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC