Vou resumir a história. Uma vez comprei um salgado assado. Lá pela metade senti que algo parecia estar enroscado na garganta. Como o desconforto permanecia, fui ao banheiro e tossi. Observei sangue. Cospia sangue, pouco. Fui ao pronto-socorro. O médico que me atendeu disse que havia "um corpo estranho" lá no fundo. Que era para procurar um médico. E só. Era sexta-feita à noite. Tive que esperar amanhecer para a maratona de telefonemas. Que noite longa! Seria algo grave? Gravíssimo? Sábado de manhã, cadê médico? Resolvi pegar o espelho e sair ao sol. Abri a boca, língua pra fora, olhei bem lá no fundo. E vi. Imagine duas pontas de alfinete, um centímetro cada, um ao lado do outro. Só que numa cor verde desbotada, indo para o cinza. Fui pegar a pinça e tirei-os de lá. Guardei as duas ferpas. Ora, por que o médico do PS não o fez, limitando-se a um diagnóstico de "corpo estranho"? Que alívio! Agora, não me lembro o raciocínio que me levou ao orégano. Havia em casa três pacotinhos dessa erva (desses que custam poucos centavos cada), um dos quais abri e despejei num prato branco para dar contraste. E acabei encontrando uma ferpa, uma só, exatamente igual às que haviam enroscado no fundo da minha língua. Eureca! Examinei os outros dois. Num, nada. Noutro, mais uma ferpinha. Desvendado o mistério, fui até o lugar onde havia comprado o salgado e confirmei que usavam orégano, que compravam de grandes pacotes. Ok. Agora, sempre que vou aos supermercados, dou uma passadinha na seção de ervas para examinar o orégano, não a embalagem menor, a maior, a que vem com mais perigo. E sempre acho as tais ferpas. Aparentemente inocentes, são como pontas de agulha.
Julio Diogo