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Neide Carlos |
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Luciane Cordeiro e outros 29 moradores de rua recebem hoje a chave de seu imóvel na cota do ‘Minha Casa Minha Vida’.
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Qual o impacto na vida de uma pessoa que vive nas ruas e, de um dia para o outro, ‘ganha’ uma casa própria? “Não dá para acreditar”, responde Luciane Cristina da Silva Cordeiro, de 37 anos, que receberá hoje a chave de seu imóvel. Ela e outras 29 moradores de ruas foram contemplados pelo programa ‘Minha Casa Minha Vida’ na cota de demanda dirigida para essa população.
Na manhã dessa quinta-feira, serão entregues 254 casas do Residencial Buriti. Dessas, 184 foram destinadas a partir de sorteio, 30 para moradores de rua e 40 para abrigar as famílias que viviam na favela do Jardim Maria Célia, cujas áreas foram desapropriadas pela prefeitura para viabilizar a construção da avenida Nações Norte. Todos os beneficiados têm renda de até R$ 1.600,00.
Luciane recebe, todos os meses, um salário mínimo em razão da deficiência de leve grau que possui. Ela acredita que este dinheiro será suficiente para pagar a parcela no valor de R$ 31,00 de sua casa própria, além das outras despesas que a nova condição de vida vai lhe gerar. “Vai dar tudo certo. O que mais importa agora é que tudo vai ser diferente. Eu ainda não consigo acreditar que vou poder morar com a minha filha e não vou precisar andar por aí o dia inteiro”, conta emocionada.
O otimismo não é em vão. Luciane é uma das pessoas que dorme na tubulação de concreto depositada na avenida Nuno de Assis e relata o drama de viver na noite. “É muito difícil. Eu nunca usei drogas, mas convivo com as pessoas e preciso disso para ser respeitada lá. Não é só violência. Ontem mesmo passou uma cobra por lá. Eu fiquei até paralisada”.
Além disso, a mulher, que sofre de epilepsia, lembra as situações de humilhação às quais já foi submetida. “Ninguém liga para a gente. As pessoas acham que a gente é lixo. Não quero que nunca mais ninguém cuspa na minha cara. Isso já aconteceu quando pedi um prato de comida para uma mulher”, diz, entre a mágoa e a esperança.
Quando Luciane chegou à Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), estava sem documento, com o cadastro para receber seu benefício irregular e era lesada por outras pessoas, que tomavam o dinheiro que lhe era de direito. Ela conta que, com a assistência das profissionais da pasta, conseguiu colocar tudo em ordem e já sabe como retribuir. “Assim que eu conseguir, vou fazer um bolo e chamar todas para comer na minha casa”.
Apesar das dificuldades, na rua, a mulher soube na prática o que significa solidariedade. “Muita gente me ajudou, com comida, com atenção. Tem a dona Bastiana. Ela me chama para dormir na casa dela, às vezes, mas eu não gosto de incomodar”.
Ela conseguiu também a doação de azulejos para a casa nova. Os móveis ficam por conta de uma política pública da Sebes. “Ganhei um macacão e um sapato para pegar a chave da casa. E, de presente, as minhas amigas do INSS me levaram ontem para comer em um restaurante”, conta Luciane.
As casas
O Conjunto Habitacional Moradas Buriti está localizado no final da Rua Alves Seabra, no Parque Roosevelt, e conta com 254 casas. As unidades residenciais contam com dois dormitórios, sala, cozinha, banheiro, tanque e aquecedor solar em áreas construídas de 37,3 ou 41,52 metros quadrados, sendo estas últimas adaptadas para pessoas com deficiência.
A empresa Maré Construtora e Incorporadora é a responsável pelas obras do Conjunto Residencial Moradas Buriti, cujo investimento ficou na ordem R$ 11.125.200,00.
As chaves serão entregues às 9h de hoje, no local. Os titulares das famílias contempladas deverão estar munidos de documentos de identificação.
‘Vai ser meu primeiro natal feliz’
A frase é de Luciane, que chama sua nova casa de dois presentes em um. Além do Natal, ela completou 35 anos no último dia 10. “Eu nunca tive nada e agora vou poder até limpar minha casa”.
Ela mora há oito anos na rua e, por conta das condições em que vive, não pode ficar com a filha de 11 anos, que está sob a guarda da avó materna. “Eu não consigo morar lá. Não tenho como ajudar muito e jogam isso na minha cara. Mas toda cesta básica que eu ganho e quase todo o dinheiro, eu deixo para a minha menina, que, agora, vai morar comigo”.
A vice-prefeita Estela Almagro, que coordena o ‘Minha Casa Minha Vida’, explica que a realização de sonhos como os de Luciane – que até então pareciam impossíveis – foi viável a partir da mobilização do poder público para cadastrar a população de rua.
Recentemente, o JC levantou a discussão sobre as dificuldades de algumas famílias de baixa renda em se adaptarem à nova realidade. Titular da Sebes, Darlene Tendolo afirma que todas, com renda de até 3 mínimos, são assistidas a partir de projetos técnicos sociais. “A inclusão em benefícios e outros programas fica muito mais fácil porque, no caso da população de rua, já há um endereço fixo, o que muda tudo. O que nós queremos mesmo é garantir a dignidade e a autonomia para essas pessoas”.
R$ 15: o preço da dignidade
A carta que avisou Luciane sobre a casa conquistada chegou em fevereiro, assinada por Estela Almagro e pelo prefeito Rodrigo Agostinho. A boa notícia, porém, custou R$ 15,00. Analfabeta, Luciane pediu a uma desconhecida para que lesse a carta a ela. “A mulher me pediu uma nota de R$ 5,00 e outra de R$ 10,00. Eu tive que dar. Depois, ela disse que eu não tinha que acreditar naquilo, mas eu fui correndo na Sebes e minha vida começou a mudar”.
Regularização seguirá até a segunda-feira
Termina na segunda-feira, dia 17, o prazo para a regularização da situação dos contemplados com pendências, referente ao Residencial Três Américas, construído no Núcleo Bauru XVI, do programa ‘Minha Casa Minha Vida’.
Do total de 115 famílias, mais de 90% já responderam à convocação. Entretanto, oito titulares até o momento não foram encontrados após todas as tentativas de contatos (aerograma, telegrama, telefonemas).
São eles: Vanessa Salles Aruth, Fábio Alexandre Gonçalves, Atila Geraldo Queiroz, Aparecido Rocha, Ilson dos Santos, Berta Lúcia da Silva, Gilberto Sellei e Ricardo José Lima.
Essas pessoas devem comparecer à Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), localizada na Rua Alfredo Maia, quarteirão um, s/nº, Vila Falcão, munidos de todos os documentos necessários para a devida regularização, das 8h às 12h e das 13h às 17h, até 17 de dezembro. O não comparecimento dentro do prazo estabelecido será considerado como desistência.
Famílias do Maria Célia recebem chaves com dois anos de atraso
Entre as 254 famílias contempladas com imóveis do Residencial Buriti, 40 foram removidas da favela Maria Célia, há três anos, para viabilizar a obra da avenida Nações Norte. Moradores contam que a promessa era de que a casa nova seria entregue em até um ano. Neste longo período de espera, a situação não foi fácil para muitos deles.
A desempregada Maria das Graças da Silva Oliveira, 52 anos, juntou todos os parentes em um barraco nos fundos de uma casa, na Vila Garcia. Para viver no local, de condições precárias, ela paga R$ 180,00 de aluguel. No imóvel do ‘Minha Casa’, a parcela mensal será de apenas R$ 25,00.
“Eu pagaria até mais. É um sonho que eu jamais pensei que fosse realizar. Depois dos meus cinco filhos, é o maior presente da minha vida. Onde eu vivia antes, não era meu. Era terreno da prefeitura”, lembra.
Das Graças quer mudar para a casa nova ainda nesta sexta-feira. Mesmo com a correria, ela não vê a hora de se livrar do medo por morar no barraco atual. “Está tudo quebrando. Quando chove, entra mais água dentro do que fora da casa”, lamenta.
Ela diz que, para sobreviver, conta com a ajuda financeira dos filhos e de trabalhos esporádicos como diarista e garçonete. Além disso, durante o tempo em que esperou pela entrega da casa, recebeu cesta básica da administração municipal. “Pelo preço da cesta, fez uma grande diferença, viu?”.
De acordo com a vice-prefeita Estela Almagro, cada família recebeu um tipo de auxílio, de acordo com suas necessidades e características. “Algumas ficaram em casas de parentes, outras recebem o aluguel social. Houve ainda o auxílio com alimentação”, pontua.